domingo, 26 de julho de 2009

Estado de Natureza


O teórico iluminista Jean Jacques Rosseau afirma que o homem, tornando-se social, acaba fraco, medroso e subserviente e sua maneira de viver frouxa acaba por debilitar sua força e coragem.As mordomias da modernidade acabaram mimando o ser humano, facilitando cada vez mais o acesso às necessidades básicas e fazendo com que façamos cada vez menos esforço para alcançar os objetivos desejados.Se perdermos contato com nosso “estado de natureza”, termo este criado por Rosseau, estaremos condenados a viver sob a ditadura do relógio, num modus vivendi mecanicista, tecnocrático,insípido, amorfo, higiênico.É a morte da paixão pela vida. Cabe a nós mudar, buscando o retorno ao nosso “estado de natureza”, onde vivemos em comunhão e interdependência com o ecossistema e não com as máquinas.Uma boa dica é tentar pequenas mudanças na rotina para ver o mundo e a vida sob outros ângulos.

domingo, 21 de junho de 2009

De dentro para fora


O ensaísta espanhol Ortega y Gasset afirmou que “o homem é o homem e sua circunstância”. Explico. Nossa cerne civilizatória não está nas metrópoles e capitais, mas nas pequenas cidades, nos vilarejos. São elas que possuem a nossa cara, nossa identidade, nossa cultura mais visceral. Essa é uma lei que se aplica não só ao Brasil, mas a qualquer país. São Paulo = Rio de Janeiro = Nova York = Tóquio = Berlim. É lógico que existem as diferenças de um lugar para o outro, mas o conjunto arquitetônico funcional, voltado para o comércio é latente nessas capitais. São importantes como catalisadores econômicos, mas se o assunto é identidade cultural, meu amigo, as pequenas cidades dão as cartas: Andaluzia na Espanha, New Orleans nos EUA, Santarém em Portugal, Lyon na França e Ouro Preto no Brasil (puxando a sardinha para o nosso lado, óbvio!). As cidades-estado na Grécia Antiga tiveram início nas pequenas casinhas de pastores de ovelhas e plantadores de azeitona. As capitais brasileiras foram antes Capitanias Hereditárias e mais tarde grandes engenhos, ou seja, grandes fazendas. Estou dando essa volta histórica imensa para provar que nossa ancestralidade, aquilo que temos de mais original, não está nos grandes modelos desenvolvimentistas das cidades que movimentam o capital mundial. Estas foram suplantadas pela globalização e só a ela obedecem agora. Quem está na onda de que a metrópole é o “grande barato” já foi também digerido por esse sistema ideológico que suprime a individualidade de forma ditatorial e mesquinha. Destrói seu inimigo mais poderoso com cinismo, zombando dele, reduzindo-o ao ridículo. Mas eu estou me desviando do assunto. Esse é assunto para um outro ensaio. O que eu quero deixar claro é que, se quisermos (temos, caso contrário seremos tragados, como afirma o grande escritor Euclides da Cunha) nos afirmar como civilização, devemos direcionar para as pequenas cidades e cidadelas.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Prêmio Darwin




O site http://www.darwinawards.com/(Prêmios Darwin) é uma coletânea de humor negro. Para quem não sabe, Darwin é o pai da teoria da evolução.
A filosofia do site se traduz em premiar as estórias escabrosas de quem deu cabo “acidentalmente” da própria vida, por terem gentilmente retirado seu DNA do pool genético da humanidade. Assim permitindo a evolução da espécie, reduzindo a quantidade de seres humanos geneticamente propensos a cometer as idiotices que os agraciados alcançaram. Para ganhar o tal prêmio, as estórias precisam ser confirmadas, caso contrário, tornam-se as chamadas lendas urbanas. Outras histórias merecem menção honrosa, talvez porque o protagonista não tenha perecido no final.
Enfim, trago aqui uma coletânea das melhores estórias do Prêmio Darwin.
- Um paciente num hospital inglês, fazia um tratamento de pele com um creme à base de parafina. Foi avisado pelo médico que o tal creme era inflamável. Como era fumante, e no hospital era proibido fumar, resolveu dar uma escapadinha. Acendeu um cigarro e sentiu-se aliviado. Ao terminar, jogou o cigarro no chão e pisou nele. Acontece que a parafina estava lá, e além disso, havia impregnado suas roupas, tornando-o uma tocha humana. Não resistiu.
- Um casal americano de namorados resolveu brincar no interior de um balão de gás hélio desinflado. A voz da pessoa que respira hélio fica aguda, e divertiram-se com isso. Porém devem ter faltado à aula sobre a importância do oxigênio. A perda de consciência é rápida quando se respira hélio na falta de oxigênio, e ali ficaram para sempre.
- Tem brasileiro na parada: um homem resolveu desarmar uma granada passando com o carro por cima dela, e dando marcha-a-ré. Não conseguiu. Então resolveu bater na granada com uma marreta. O esperado (não por ele) aconteceu na segunda marretada, e ainda levou mais seis carros e a oficina onde nosso gênio brazuca tentou seu feito. Pior fez um croata, que tentou abrir uma granada com uma serra elétrica e teve o mesmo desfecho.
- Em Belize, na América Central, um rapaz de 26 anos, inspirado em Benjamin Franklin, resolveu empinar pipa com fio de cobre. Ao contactar um fio de alta tensão, uma descarga elétrica pulverizou nosso amigo. E o pai do rapaz disse que ele era eletricista, imaginem se não fosse.
- Um austríaco que trabalhava num compactador de lixo, colocou algumas caixas de papelão na prensa hidráulica e resolveu dar uma ajudinha, empurrando as caixas com o pé, com a prensa armada. A prensa, fazendo o seu trabalho, levou não só as caixas, como pegou o pé e tragou nosso pobre amigo para dentro dela.
- Um estudante em Cingapura, curtindo seu rock e tocando “air guitar”, pulando e se sacudindo na cama e contra as paredes, não percebeu que a janela estava aberta. Num momento de empolgação, se lançou contra esta e a lei da gravidade fez o resto.
- Uma toupeira provavelmente venceu a guerra contra um homem na Alemanha. Tentando tornar o solo inabitável para o bichinho, o homem enterrou barras de ferro no chão e conectou eletricidade em alta voltagem a estas. Foi encontrado morto ali mesmo, pois acabou eletrificando o próprio chão onde pisava. A polícia teve que cortar a energia antes de entrar na casa.
- Em Seattle, nos EUA, dois bêbados resolveram travar uma competição de força e resistência. Ficariam pendurados pelos braços em um viaduto sobre uma via expressa. Quem resistisse mais tempo levava o prêmio, um de cada vez. Apesar da ajuda do amigo, o vencedor não teve força suficiente para se erguer, e acabou caindo em frente a um caminhão em alta velocidade.
- Os elefantes são animais sentimentais. Foi o que descobriu um tailandês de 50 anos, que resolveu brincar com o animal, que estava acorrentado. Pegou um pedaço de cana de açúcar e ofereceu ao elefante, e quando este ia pegar, o retirava. Ficou nessa brincadeira por um bom tempo. Chegou o momento que o pobre animal se enfureceu, e numa das retiradas, cravou suas presas no estômago do homem, matando-o.
- Um operário malaio, espantado com a queima de fogos no Ano Novo lunar, notou que alguns dos fogos eram na verdade foguetes, que iam a grandes alturas. Curioso, resolveu ver o tubo de lançamento mais de perto, aliás, tão perto que ele entrou no tubo. Este disparou, jogando nosso amigo longe e para a eternidade.
- Um surfista americano, cansado, e com uma bela noite de lua cheia na praia, perturbando seu sono, resolveu dormir no lugar mais escuro possível, embaixo de sua pickup, estacionada na praia. Foi encontrado morto no dia seguinte. A explicação: a subida da maré, acabou amolecendo a areia abaixo da pickup, e esta afundou, prendendo o surfista, e não o deixando escapar enquanto a maré subia.
- Dois jovens taiwaneses resolveram entrar em uma contenda à moda antiga, por uma garota. Iriam dirigir suas scooters em alta velocidade, em direção ao outro, e aquele que não desviasse, teria o direito de cortejar a amada. Nenhum desviou, e ambos morreram na hora com o impacto. A garota? Não quis comentar, mas declarou que não estava interessada em nenhum deles.
- Um austríaco, bêbado e drogado, chegou em casa e resolveu entrar pela janela da cozinha, que tinha uma pequena brecha. Conseguiu passar o corpo e a cabeça chegou até a pia, porém ali ficou entalado. Tentando se livrar, ligou a água quente, e a pia estava com o plug. Morreu afogado. A polícia atribuiu o fato ao estado do homem, pois este poderia ter simplesmente desligado a torneira, tirado o plug, ou melhor ainda, entrado pela porta, pois a chave estava em seu bolso.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Fico Sozinho com o Universo Inteiro

Começa a haver meia-noite, e a haver sossego,
Por toda a parte das coisas sobrepostas,
Os andares vários da acumulação da vida...
Calaram o piano no terceiro andar...
Não oiço já passos no segundo andar...
No rés-do-chão o rádio está em silêncio...

Vai tudo dormir...

Fico sozinho com o universo inteiro.
Não quero ir à janela:
Se eu olhar, que de estrelas!
Que grandes silêncios maiores há no alto!
Que céu anticitadino! —
Antes, recluso,
Num desejo de não ser recluso,
Escuto ansiosamente os ruídos da rua...
Um automóvel — demasiado rápido! —
Os duplos passos em conversa falam-me...
O som de um portão que se fecha brusco dóí-me...

Vai tudo dormir...

Só eu velo, sonolentamente escutando,
Esperando
Qualquer coisa antes que durma...
Qualquer coisa.

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

Noite de Saudade


A Noite vem poisando devagar
Sobre a Terra, que inunda de amargura ...
E nem sequer a bênção do luar
A quis tornar divinamente pura ...

Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor que é cheia de tortura ...
E eu oiço a Noite imensa soluçar!
E eu oiço soluçar a Noite escura!

Por que és assim tão escura, assim tão triste?!
É que, talvez, ó Noite, em ti existe
Uma Saudade igual à que eu contenho!

Saudade que eu sei donde me vem ...
Talvez de ti, ó Noite! ... Ou de ninguém! ...
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!!

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Devoção

Sua boca traz um encanto de curau de milho embalado em lágrimas agridoces que chovem na terra cansada. Seus olhos sopram estrelas cambaleantes em valsas anoitecidas. Teus cabelos enlaçam segredos suspirados em nuvens dissipadas por incertezas despertadas. Se tuas mãos tocassem o cadafalso de angústias estirado atrás da cortina, então seriam serenas as gotas anoitecidas em vórtices quebrados por prismas furtacores embalsamados nas olheiras perdidas de um olho errante. Somente a luz embriagada de um farol vazio pode navegar por entre as chamas de um olhar convidativo.

HÁ UM CRETINO A SOLTA

Há um cretino a solta, senhoras e senhores, devorando tudo à sua volta: namoros de portão, orvalhos que beijam flor, carícias sutis em olhares e toques, enfim todo o lirismo existente no planeta.
Há um cretino a solta, querendo formar escravos e obrigá-los a freqüentarem lugares “badalados”, enquanto a música techno detona o que ainda lhes resta de cérebro.
Há um cretino a solta, que inventou o termo “ficar”, para vulgarizar o romance e as “grandes histórias”.
Há um cretino a solta, queimando livros como Hitler e usando a televisão para lavagem cerebral.
Há um cretino a solta, fabricando robozinhos sem opinião e sem vocabulário.
Há um cretino a solta, tentando matar a nossa identidade brasileira, enfiando um lixo azul, vermelho e branco goela abaixo.
Há um cretino a solta, destruindo tudo o que é leve, calmo e doce.
Há um cretino a solta, fazendo com que nossa vida siga no ritmo de uma montanha russa.
Há um cretino a solta, transformando o obscuro e sério em risível.
Há um cretino a solta, gerando pânico, insegurança e medo entre as pessoas, fazendo com que elas fiquem desconfiadas e cacem briga por qualquer motivo.
Há um cretino no poder, colocando boçais incompetentes para comandar as nações do nosso planeta
Há um cretino a solta, que chupou toda a liberdade de expressão e pensamento.
Há um cretino a solta, que destruiu o direito à individualidade, ridicularizando-a
Há um cretino a solta, destruindo casas e árvores para construir “shopping centers” e prédios
Há um cretino a solta, colocando papel pintado como base para nossas relações sociais
Há um cretino a solta, que impede a humanidade de parar e pensar no quanto ela é cretina.

Estranhos passageiros memoráveis


Uma analogia que poderia explicar o processo de vida e morte seria essa: começamos na estação, onde não sabemos o que nos espera e tudo o que nos resta é esperança e ansiedade. O trem pára e nós subimos. Encontramos uma série de pessoas, nos relacionamos com elas, percorremos várias distâncias e tudo isso num tempo tão acelerado quem nem percebemos a viagem fantástica que estamos fazendo. Ocasionalmente nos sentamos e observamos a paisagem pela janela, mas são poucos os que fazem isso. Você então percebe que o seu ponto de descida está chegando. Alguns só percebem quando o trem já parou. Outros começam a notar antes. Você desce e as pessoas continuam seguindo viagem. No começo elas sentem a sua falta, depois a maioria geralmente se resigna. Precisamos aproveitar ao máximo e nos tornar estranhos passageiros memoráveis, para que as pessoas não se esqueçam depois que descermos na estação.

Sobre mim

Se sou alegre ou sou triste?...
Francamente, não o sei.
A tristeza em que consiste?
Da alegria o que farei?

Não sou alegre nem triste.
Verdade, não sou o que sou.
Sou qualquer alma que existe
E sente o que Deus fadou.

Afinal, alegre ou triste?
Pensar nunca tem bom fim...
Minha tristeza consiste
Em não saber bem de mim...
Mas a alegria é assim...

Se

Se a escuridão se esvaísse em lágrimas cintilantes como estrelas amarguradas e perdidas em carícias incertas, então nossas dúvidas não mais se esconderiam sob o manto do silêncio e da saudade ...
Se o tempo pudesse ser guardado em caixas despertadas por sopros perfumados de damas soturnas, a distância entre o meu respirar e o teu seria doce como pétalas de açúcar ensopadas em palavras inebriantes e confusas ...
Se teus olhares pudessem guiar os meus através da tempestade eu estaria em paz e toda angústia que me corrói o peito seria drenada em ondas de perguntas que nunca existiram.
Se nada mais pudesse separar nossos lábios de se tocarem não haveria mais inverno em minha descarnada essência, varrendo os gritos arranhados de dor dentro do infinito distante...
Se tudo pudesse parar por um instante ínfimo, congelaria nossa suspensão etérea em lágrimas perdidas de longas noites sonhadas em oceanos perolados por delírios céticos.
Se os teus cabelos beijassem minha testa, a exatidão imperfeita das cores seria esclarecida pela incalculada loucura das nossas mãos que se completam na distância próxima.
Se te entristecem os vapores da aurora, olhai as cadências de luzes pastorais que bailam em estrelas pulsantes perdidas em constelações esquecidas. Pensa nos barcos amanhecendo em portos marejados de sopros calejados.
Se qualquer loucura frágil fosse partida em brilhos amanhecidos toda ternura seria servida em cálices borbulhantes de outonos distantes onde brindaríamos a doce primavera que nos abençoa.
Se...
Duas letras que formam um abismo.