sexta-feira, 29 de maio de 2009

Fico Sozinho com o Universo Inteiro

Começa a haver meia-noite, e a haver sossego,
Por toda a parte das coisas sobrepostas,
Os andares vários da acumulação da vida...
Calaram o piano no terceiro andar...
Não oiço já passos no segundo andar...
No rés-do-chão o rádio está em silêncio...

Vai tudo dormir...

Fico sozinho com o universo inteiro.
Não quero ir à janela:
Se eu olhar, que de estrelas!
Que grandes silêncios maiores há no alto!
Que céu anticitadino! —
Antes, recluso,
Num desejo de não ser recluso,
Escuto ansiosamente os ruídos da rua...
Um automóvel — demasiado rápido! —
Os duplos passos em conversa falam-me...
O som de um portão que se fecha brusco dóí-me...

Vai tudo dormir...

Só eu velo, sonolentamente escutando,
Esperando
Qualquer coisa antes que durma...
Qualquer coisa.

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

Noite de Saudade


A Noite vem poisando devagar
Sobre a Terra, que inunda de amargura ...
E nem sequer a bênção do luar
A quis tornar divinamente pura ...

Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor que é cheia de tortura ...
E eu oiço a Noite imensa soluçar!
E eu oiço soluçar a Noite escura!

Por que és assim tão escura, assim tão triste?!
É que, talvez, ó Noite, em ti existe
Uma Saudade igual à que eu contenho!

Saudade que eu sei donde me vem ...
Talvez de ti, ó Noite! ... Ou de ninguém! ...
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!!

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Devoção

Sua boca traz um encanto de curau de milho embalado em lágrimas agridoces que chovem na terra cansada. Seus olhos sopram estrelas cambaleantes em valsas anoitecidas. Teus cabelos enlaçam segredos suspirados em nuvens dissipadas por incertezas despertadas. Se tuas mãos tocassem o cadafalso de angústias estirado atrás da cortina, então seriam serenas as gotas anoitecidas em vórtices quebrados por prismas furtacores embalsamados nas olheiras perdidas de um olho errante. Somente a luz embriagada de um farol vazio pode navegar por entre as chamas de um olhar convidativo.

HÁ UM CRETINO A SOLTA

Há um cretino a solta, senhoras e senhores, devorando tudo à sua volta: namoros de portão, orvalhos que beijam flor, carícias sutis em olhares e toques, enfim todo o lirismo existente no planeta.
Há um cretino a solta, querendo formar escravos e obrigá-los a freqüentarem lugares “badalados”, enquanto a música techno detona o que ainda lhes resta de cérebro.
Há um cretino a solta, que inventou o termo “ficar”, para vulgarizar o romance e as “grandes histórias”.
Há um cretino a solta, queimando livros como Hitler e usando a televisão para lavagem cerebral.
Há um cretino a solta, fabricando robozinhos sem opinião e sem vocabulário.
Há um cretino a solta, tentando matar a nossa identidade brasileira, enfiando um lixo azul, vermelho e branco goela abaixo.
Há um cretino a solta, destruindo tudo o que é leve, calmo e doce.
Há um cretino a solta, fazendo com que nossa vida siga no ritmo de uma montanha russa.
Há um cretino a solta, transformando o obscuro e sério em risível.
Há um cretino a solta, gerando pânico, insegurança e medo entre as pessoas, fazendo com que elas fiquem desconfiadas e cacem briga por qualquer motivo.
Há um cretino no poder, colocando boçais incompetentes para comandar as nações do nosso planeta
Há um cretino a solta, que chupou toda a liberdade de expressão e pensamento.
Há um cretino a solta, que destruiu o direito à individualidade, ridicularizando-a
Há um cretino a solta, destruindo casas e árvores para construir “shopping centers” e prédios
Há um cretino a solta, colocando papel pintado como base para nossas relações sociais
Há um cretino a solta, que impede a humanidade de parar e pensar no quanto ela é cretina.

Estranhos passageiros memoráveis


Uma analogia que poderia explicar o processo de vida e morte seria essa: começamos na estação, onde não sabemos o que nos espera e tudo o que nos resta é esperança e ansiedade. O trem pára e nós subimos. Encontramos uma série de pessoas, nos relacionamos com elas, percorremos várias distâncias e tudo isso num tempo tão acelerado quem nem percebemos a viagem fantástica que estamos fazendo. Ocasionalmente nos sentamos e observamos a paisagem pela janela, mas são poucos os que fazem isso. Você então percebe que o seu ponto de descida está chegando. Alguns só percebem quando o trem já parou. Outros começam a notar antes. Você desce e as pessoas continuam seguindo viagem. No começo elas sentem a sua falta, depois a maioria geralmente se resigna. Precisamos aproveitar ao máximo e nos tornar estranhos passageiros memoráveis, para que as pessoas não se esqueçam depois que descermos na estação.

Sobre mim

Se sou alegre ou sou triste?...
Francamente, não o sei.
A tristeza em que consiste?
Da alegria o que farei?

Não sou alegre nem triste.
Verdade, não sou o que sou.
Sou qualquer alma que existe
E sente o que Deus fadou.

Afinal, alegre ou triste?
Pensar nunca tem bom fim...
Minha tristeza consiste
Em não saber bem de mim...
Mas a alegria é assim...

Se

Se a escuridão se esvaísse em lágrimas cintilantes como estrelas amarguradas e perdidas em carícias incertas, então nossas dúvidas não mais se esconderiam sob o manto do silêncio e da saudade ...
Se o tempo pudesse ser guardado em caixas despertadas por sopros perfumados de damas soturnas, a distância entre o meu respirar e o teu seria doce como pétalas de açúcar ensopadas em palavras inebriantes e confusas ...
Se teus olhares pudessem guiar os meus através da tempestade eu estaria em paz e toda angústia que me corrói o peito seria drenada em ondas de perguntas que nunca existiram.
Se nada mais pudesse separar nossos lábios de se tocarem não haveria mais inverno em minha descarnada essência, varrendo os gritos arranhados de dor dentro do infinito distante...
Se tudo pudesse parar por um instante ínfimo, congelaria nossa suspensão etérea em lágrimas perdidas de longas noites sonhadas em oceanos perolados por delírios céticos.
Se os teus cabelos beijassem minha testa, a exatidão imperfeita das cores seria esclarecida pela incalculada loucura das nossas mãos que se completam na distância próxima.
Se te entristecem os vapores da aurora, olhai as cadências de luzes pastorais que bailam em estrelas pulsantes perdidas em constelações esquecidas. Pensa nos barcos amanhecendo em portos marejados de sopros calejados.
Se qualquer loucura frágil fosse partida em brilhos amanhecidos toda ternura seria servida em cálices borbulhantes de outonos distantes onde brindaríamos a doce primavera que nos abençoa.
Se...
Duas letras que formam um abismo.