sábado, 22 de setembro de 2012

Um espantalho para dois amantes

Um espantalho para dois amantes

Tenório cresceu sonhando em ser tropeiro. Herdou o gosto pela profissão do pai e quando este saía de viagem, ele se pendurava na janela e ficava esperando a última mula sumir no horizonte. Pensava nas aventuras, nas pessoas que ele encontraria no caminho. “Será que ele toparia com uma onça? Daria cabo dela com o velho facão que trazia no alforje? E se encontrasse uma tropa de jagunços impiedosos? Sua mãe não gostava de ouvir esse tipo de ponderações, apesar de todas elas terminarem com o pai dele derrotando qualquer tipo de perigos que porventura enfrentasse...para a criança sonhadora que vivia numa casa isolada do mundo, Seu Francisco podia mais que tudo no sertão.Veio o tempo, sem perdão nem cura, desmentir essa acreditação.... Quem era menino virou rapaz e quem já era crescido ficou velho. O agora Velho Chico foi pras graças do céu sereno em cama de Jacarandá amanhecido. Sua mulher não se agüentou de solidão e o acompanhou meses depois. Nesses tempos de acontecimento Tenório já tinha caído na estrada faz tempo, tendo herdado a tropa de mulas do pai, que já não era mais jovem também, fato esse que gerou mais uma reviravolta na vida do desafortunado: aquele que sonhava ser tropeiro virou mascate em função das circunstâncias.Arrumou uma clientela regular e logo cedo já ganhava seu “ordenado fixo”. Certa feita andava ele com seus dois burros pelas cercanias da “Fazenda Rosa dos Ventos”, do Coronel Técio, a caminho da “Fazenda Pena Branca” (onde encontraria Seu Rochedo, um conhecido freguês), quando avistou algo inédito: uma jovem de sua idade passeando ao longe. Se encantou profundamente, perdendo noção de tempo e espaço. Tinha que falar com ela de qualquer maneira. O grande problema era a pequena cerca que os separava. Metros de arame farpado que serviam como um abismo dividindo dois universos. Profundamente arrasado, seguiu caminho tentando esquecer o incidente. Chegando em terras gentis foi bem recebido e depois de umas cachaças, comentou o incidente com o amigo. Este, ao ouvir a descrição da formosa dama, a reconheceu ficando pálido como gesso. Tenório não entendeu e o velho explicou que ela era filha do Coronel Técio Cascalho, homem temido nas redondezas. O mascate conhecia sua fama. Sempre passava rezando pelas bandas do mesmo. Mas não tirava aquela visão da cabeça. Seu Rochedo ainda acrescentou que a moça estaria prometida a um médico da capital, que a visitava nas férias. Tenório a princípio considerou sua própria segurança, mas por outro lado aquela mulher não abandonava seus pensamentos. Era como um sonho tão doce e puro que dar as costas e esquecer toda aquela experiência maravilhosa seria uma infidelidade com seus próprios sentimentos... O que fazer, então? Como penetrar em território inimigo, se declarar e sair vivo com a mulher amada nos braços? Valeria a pena a pena passar por todos esses percalços pelo doce sabor de sua companhia? Lembrou-se então mais uma vez de sua cabeleira negra valsando ao vento e o vestido de renda branca que parecia ter sido costurado com contas de lágrimas de estrelas tristes. Ainda bêbado da pinga que havia tomado naquela noite, o mascate foi tomado de uma coragem de cem jagunços e decidiu ir marchando em direção à fazenda de onde provavelmente não retornaria. Chegou em frente à cerca de arame farpado e ficou a observando por algum tempo, tentando se manter em pé e ao mesmo tempo pensando em uma forma de ultrapassar o referido obstáculo. Foi aí que destino interferiu. Uma onça pintada saltou em sua direção mas tomou um tiro vindo do escuro. O animal tombou no ar e caiu em cima da cerca, tombando um trecho da mesma no chão. Tenório, surpreso, não entendeu nada. Um vulto surgiu do breu, com uma capa de couro parda casualmente jogada por cima das costas e um chapéu enorme que cobria grande parte do seu rosto. O homem misterioso era um caçador chamado Elias e procurava a besta que havia devorado seu pai na sua frente quando ele era criança. Um traço característico a distinguia das demais porque, antes de morrer ele enfiou um espeto no seu olho esquerdo. Após uma breve análise, concluiu que sua busca ainda não havia terminado e sumiu na escuridão, amargurado.... A emoção foi tanta que o jovem apaixonado acabou ficando sóbrio no meio daquilo tudo.Foi avançando com calma dentro do território inimigo no meio do escuro e de repente ouviu latidos. Dois mastins gigantescos avançavam em sua direção e ele procurou subir na primeira coisa que avistou: o mastro que sustentava o espantalho. Os cachorros não o acharam porque consideraram mais divertido se alimentar com a carcaça da onça em cima da cerca. Por outro lado não abandonaram o local de maneira alguma. A madrugada foi terminando, o dia chegando e Tenório percebeu que era mais conveniente no momento vestir as roupas do espantalho por cima das suas. Os homens de Seu Técio consertaram a cerca de manhã cedinho, quando os cachorros foram presos. O mascate “saiu de seu posto” no início da tarde e começou a procurar pela mulher que tinha mudado sua vida e o colocado naquela estranha condição. A encontrou rezando serena em frente a um oratório que ficava na beira de um riacho. Ao avistá-lo não deu nenhum grito, mas começou a fazer o sinal-da-cruz repetidamente, gesto esse que lhe renderia um apelido carinhoso anos mais tarde. Ele se apresentou, explicou sua situação e pediu para passar apenas algumas horas ao lado dela, saber seu nome talvez, para ter alguém a quem chamar em noites de solidão...Descobriu duas coisas: ela se chamava Camila e seu perfume era mais inebriante que qualquer flor que ele tivesse cheirado. Extremamente dócil e ingênua, se abriu com Tenório como nunca antes havia feito, talvez pelo fato de que ele fosse um estranho. Disse que estava prometida mas não gostava muito de seu pretendente, que era autoritário e a tratava mal, mas nada podia fazer porque eram ordens de seus pais e ela deveria obedecer cegamente.... Então o mascate viu que sua presença ali não fora um capricho do destino. Era sua missão resgatar aquela donzela e tratá-la com o máximo respeito e cortesia, não se esquecendo de agradecer a Deus diariamente por tê-la apresentado a ele. Procurou então estabelecer uma rotina, enquanto pensava numa maneira de resolver aquele nó górdio. Vivia de frutas das árvores do sítio, se banhava no rio que atravessava a propriedade, sem se esquecer de fugir à noite dos cachorros. É claro que o seu disfarce não foi perfeito e os trabalhadores da fazenda contavam ao patrão que juravam ter visto o espantalho limpar o suor da testa ou andar casualmente pelas plantações. Quando ouvia essas afirmações, o patrão ficava zangado e achava que eles estavam de fogo.O tempo foi passando, o relacionamento entre o estranho casal foi estreitando e sem perceber eles iam se envolvendo e se apaixonando cada vez mais. As raízes antes fracas agora eram fortes, firmes e profundas. Teriam que resolver essa situação de qualquer maneira. Mesmo que suas vidas dependessem disso. Caso é que o destino deu outra das suas e o noivo doutor chegou pedindo casamento pra ontem. Foi um tiro de bacamarte nas ventas daquele que antes só queria ser tropeiro como o pai. Camila também ficou angustiada porque agora amava Tenório, sem contar que teria que sair de casa. Não teria mais a essência e o sabor do campo. Só a etiqueta e o tédio da capital. Fugir? Seria esta uma opção? Dentro desse contexto, sim. Seu pai nunca aprovaria seu casamento com um mascate. Além do mais, seu dote já tinha sido negociado há tempos com o pai do noivo. O falso espantalho não teve muito tempo para pensar. Sairiam à noite mas precisavam despistar os cachorros.Teve uma idéia arriscada, mas que poderia dar certo. Entraria sorrateiro pelas portas do fundo da cozinha para roubar alguns quilos de charque da despensa. Foi favorecido pela luz bruxuelante do candeeiro mas quando estava quase saindo foi surpreendido pela cozinheira, uma negra grande e velha chamada Sinhana Ricarda. Ao ver o mascate com as roupas do espantalho pensou estar vendo uma assombração: soltou um grito e desmaiou. Ele pensou em ajudá-la, mas ouviu o barulho de passos se aproximando e saiu correndo. Seu Técio viu um vulto correndo no escuro com um punhado de carne e pegou sua espingarda e um lampião. Caçaria o meliante nem que isso durasse a noite toda. A situação não tinha como ficar mais preta, especialmente à noite! O fazendeiro revirou o sítio atrás do cretino até que encontrou um vulto sentado no galho alto de uma mangueira com um punhado de carne no colo. Mirou e acertou no infeliz que caiu duro no chão como um saco de batatas. Os cachorros avançaram na carcaça e fizeram a festa com a carne roubada que agora se encontrava espalhada no chão. Seu Técio se aproximou para dar uma olhada no rosto daquele que o ousava desafiar. Era o espantalho! Enquanto tentava entender o que tinha acontecido ouviu um barulho ao longe. Era uma cerca que caía e agora libertava dois amantes que fugiam cavalgando em esperanças e sonhos de dias melhores. Aquele velho boneco de palha nunca tinha sido tão útil.