terça-feira, 8 de outubro de 2013

O assassinato de um presidente



O assassinato de um presidente
            Alcançamos um contexto histórico onde se tornaram comuns os atentados a pessoas inocentes sem nenhuma razão aparente. Chegam a ser tantos que as pessoas parecem ter aprendido a lidar com eles, especulando um motivo x e seguindo com a vida, sem precisar como um ser humano atingiu tamanho nível de desespero. Geralmente os culpados são as drogas, a violência na televisão e o heavy metal, mas talvez possam ser indício de uma realidade cancerosa que está na raiz de tudo isso. Tal é o assunto da seguinte película, inspirada em fatos reais.
            Acompanhando a trajetória do desafortunado Samuel J. Bicke percebemos como seu espírito romântico foi quebrado a ponto de transformá-lo em alguém tão angustiado e frustrado a ponto de acreditar que a eliminação do Chefe de Estado é a única maneira de alcançar sua paz interior. Vendedor de móveis, precisa aturar os desaforos de seu chefe que o força a mentir para fechar negócio com os fregueses. Constantemente reprimido no trabalho e passando por um difícil processo de divórcio, não entende como sua ex-mulher e seu amigo se resignam tão facilmente ao sistema.
            Apesar de ambientado em 1974 a projeção trata de um tema bastante atual que é a eliminação da liberdade e independência do indivíduo para dar lugar à hipocrisia e o cinismo funcionais de uma sociedade pós-moderna que apresenta claros sinais de decadência.
            A força do filme deriva da motivação do protagonista, já que sua revolta é a do homem comum, que busca nada além de um trabalho honesto para sustentar sua família, mas que para isso precisa mentir a enfrentar uma enfastiosa burocracia.  A narração em off ao longo da narrativa é uma carta ao maestro Leonard Bernstein, pois ele seria alguém com sensibilidade suficiente para compreender a atitude do desesperado personagem.
            O presidente republicano Richard M. Nixon é visto como o símbolo de uma ideologia onde tudo é justificável se o objetivo é o arrendamento de lucros e acumulação de poder. Isso é demonstrado de forma bem clara nas sucessivas declarações do mesmo na televisão, que chegam inclusive a fazer referência ao assassinato do presidente chileno Salvador Allende, que foi eliminado por agentes da CIA.
            O personagem principal guarda semelhanças com Travis Bickle, o protagonista de Tavi Driver: cansados de uma realidade opressora e injusta, ambos sentem a profunda necessidade de realizar um ato simbólico que trará sentido às suas existências. A diferença é que para o motorista de táxi trata-se de um processo catártico enquanto o outro sente que é seu destino mandar uma mensagem a todos aqueles que subestimam a força do povo.
            Impossível mencionar o elenco sem comentar o excelente desempenho de Sean Penn, na pele do personagem principal. Seu genuíno amor por sua família e a frustração de suas expectativas cativa o espectador e o ajudam a compreender sua atitude desesperada e leviana. A sempre ótima Naomi Watts também merece destaque interpretando uma mulher que rejeita o ex-marido, mas não quer magoá-lo e coloca as necessidades dos filhos acima de sua dignidade.
            Um filme interessante sobre uma pessoa que sentiu a necessidade de se posicionar frente a uma realidade deprimente onde os detentores do poder manipulam a verdade para alcançar seus propósitos, buscando justiça por uma sociedade que se acostumou a viver sem ela.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

As invasões bárbaras



As invasões bárbaras
Em nosso tempo é alarmante notar que nossa experiência histórica contribuiu muito pouco para nosso amadurecimento emocional e psicológico, de forma que acabamos repetindo os mesmo erros cometidos no passado.
Todos os paradigmas que foram se derivando para buscar uma melhor compreensão do pensamento humano e sua conseqüente decodificação dos sinais que se apresentam ao nosso redor foram suprimidos pela ideologia calcada no imediatismo, pragmatismo e eficiência, especialmente a nível financeiro. Esta projeção traça um interessante paralelo entre essas duas formas de pensamento.
A narrativa acompanha os últimos dias de Rémy, um professor de história cuja doença terminal o enclausura em uma enfermaria no Canadá. Seu pensamento anarquista e liberal sempre divergiu dos ideais capitalistas de seu filho Sebastien, um administrador de riscos financeiros para grandes empresas, mas as diferenças são postas de lado quando o rapaz busca todas as formas possíveis para que seu pai aproveite ao máximo seus últimos dias, ainda que seja em uma cama no hospital.
É importante informar também que apesar da doença e das dores, o protagonista nunca perde o seu bom humor e seu carisma contagiante, embora tema a morte iminente em certos momentos.
O filme é uma seqüência de outro intitulado “A queda do Império Americano” que conta com os mesmos personagens quando eram mais jovens discutindo temas semelhantes, tais como o sentido da violência no século XX, ascensão e decadência da hegemonia ideológica americana no planeta, assim como relações amorosas e ponderações filosóficas a respeito da trajetória do espírito humano ao longo de sua vida na Terra.
Ressalto que embora seja uma continuação, é perfeitamente viável assistir a esta película sem ter assistido à primeira. São dois contextos completamente diferentes que se completam apesar de independentes um do outro.
Enquanto na primeira projeção foi discutida a questão de limitação comportamental dentro de uma sociedade normativa, a segunda trata do conflito de ideologias com a nova geração que não mais lê livros, vivendo de videogames e internet, sem pensar no próprio contexto histórico enquanto raciocina de forma simples e cartesiana. O dionisíaco versus o apolíneo.
Essa temática pode ser confirmada não somente no distanciamento do professor de seu filho, mas de seus alunos. As seqüências em que ele comunica sua retirada por motivo de doença e os garotos só indagam a respeito do calendário de provas mostra a indiferença dos mesmos pela disciplina e por seu antigo mestre.
O cineasta Deny Arcand apresenta um relato agridoce sobre este período de transição onde aqueles que refletiam e buscavam uma realidade mais interessante a nível emocional estão dando passagem para um novo grupo que tem sua mente direcionada para a praticidade e o sucesso monetário.
Uma belíssima obra sobre a necessidade que temos de aproveitar cada momento, absorvendo intensamente todas as experiências possíveis, pois são elas que constituem nossa essência, traduzindo a verdadeira realização do espírito humano.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.

domingo, 6 de outubro de 2013

Anti herói americano

Anti herói americano
A primeira sequência do filme “Anti-herói americano” apresenta de forma genial o seu protagonista: Na década de 50, em meio a uma fileira de crianças fantasiadas para o Halloween e pedindo doces, uma delas não está. Quando indagada sobre o porquê de tal comportamento ela responde: “sou apenas um garoto da vizinhança, ok ? Deus! Porque as pessoas tem que ser tão idiotas?”
Assim é Harvey Pekar. Excluído desde cedo do convívio “normal” por causa de seu aguçado senso crítico, não mede palavras para dizer o que pensa. Emocionalmente cansado e com uma baixa auto-estima, recebe duas péssimas notícias: está sendo abandonado pela namorada e perdendo a voz por causa de um nódulo nas cordas vocais, que por sua vez está relacionado ao fato de o mesmo estar sempre nervoso e gritando.
Trabalhando como arquivista em um Hospital de Cleveland, está constantemente frustrado e seus únicos prazeres são seus quadrinhos underground e os LPs de Jazz que coleciona compulsivamente. Deseja deixar seu “recado” para as gerações posteriores e a angústia é tanta que, mesmo sem sabendo desenhar, escreve uma HQ subversiva onde se insere como personagem principal.
Percebendo o potencial do conteúdo, o amigo e famoso cartunista Robert Crumb pede para ilustrar a história. Nasce então “Esplendor Americano”, uma revista em quadrinhos que serve como espelho das decepções e anseios do homem pós-moderno, onde Harvey relata o seu cotidiano, pontuando de forma crítica tudo aquilo que presencia.
Harvey tem uma relação simbiótica com seu simulacro, que está sempre mudando de forma em função da variedade de ilustradores que o retrata. Em um certo ponto do filme, ciente de sua mortalidade, ele pergunta à sua esposa Joyce: “Eu sou apenas uma pessoa que expõe sua vida num gibi ou meu personagem sobreviverá à minha morte?”
Além da sinopse genial, o filme dirigido por Shari Springer Berman e
Robert Pulcini
ainda nos brinda com uma estrutura igualmente interessante, confrontando o verdadeiro Harvey (que narra o filme em off), sua esposa e amigos com a versão ficional dos mesmos.Em uma determinada seqüência ele comenta ”Esse sou eu, ou o cara que me interpreta.Ele não é parecido comigo, mas tudo bem.”
 O enquadramento da película dialoga com o da HQ nas várias seqüências em que os mesmos são intercalados. Em certos pontos do filme eles chegam inclusive a se fundir.
 Vale chamar a atenção para a atuação ímpar de Paul Giamatti, que retrata o cartunista como alguém que parece estar sempre com um peso nos ombros, como se carregasse nas costas o fardo de todo o seu inconformismo. Hope Davis está igualmente fantástica como a esposa que, apesar do apoio freqüente, insiste em diagnosticar os problemas psicológicos do cônjuge e de todos que o rodeiam.
O que torna o filme e o quadrinho tão interessantes e únicos é que ambos relatam um universo de pessoas comuns, com sonhos e mágoas próprias de todos nós.Nada é maquiado ou romantizado. A complexidade está nos pequenos detalhes que revelam as singularidades de cada personalidade. É o particular que se projeta universalmente.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O cisne negro


O cisne negro
            O “lago dos cisnes”,composto por Tchaikovsky, é um ballet em quatro atos baseado na versão francesa de um conto de fadas alemão. Conta a história de uma princesa que foi transformada em cisne por um feiticeiro e somente o amor verdadeiro poderia libertá-la.
            A situação sofre um revés quando o princípe que a salvaria é seduzido pela irmã gêmea da mesma, o cisne negro, deixando para a pobre moça o suicídio como única alternativa de liberdade. A pureza frágil corrompida pela violência passional.
            A narrativa desta película acompanha a trajetória de Nina Sayers, uma dedicada bailarina que deseja muito o papel principal neste clássico que será apresentado pela sua Companhia. O único problema apontado pelo diretor da peça reside no fato de que ela é fria e pragmática demais para interpretar a antagonista, já que a estrela do espetáculo precisa desempenhar as duas performances.
            Ela consegue o papel, mas é instruída para acessar seu lado mais passional e imprevisível, ou não conseguirá alcançar a essência sedutora e charmosa da outra personagem.
            Consumida por suas incertezas, a dedicada dançarina vai lentamente perdendo sua sanidade, tendo alucinações enquanto busca ser mais espontânea e fiel aos seus instintos. Seu desejo pela perfeição a obriga a seguir um caminho sem redes de segurança, que possivelmente transformará sua vida para sempre.
            A montagem do cineasta Darren Aronofsky retrata com perfeição a lenta metamorfose de Nina,cuja devoção é percebida no toque de seu celular e nas horas praticando depois que todos se foram do estúdio.A irritação em sua pele é uma materialização de sua angústia, que vai se agravando com o desenrolar dos fatos.
            Interessante apontar também a estreita relação que a protagonista tem com sua mãe, uma ex-dançarina que abandonou a arte para cuidar da filha. O demasiado esforço da garota pode ser entendido como uma maneira de compensar os sonhos dela.
            A chegada de Lily, a nova integrante que é a personificação da rival na peça, ajuda a moça a encontrar o espírito livre e sedutor da ave negra e ao mesmo tempo desperta ciúmes na moça, surgindo como a substituta ideal caso aconteça algum imprevisto.
            O diretor mostra ainda a curta “vida útil” das bailarinas, que enfrentam a iminência da aposentadoria aos trinta anos, sendo sempre preteridas em função das mais jovens, que possuem mais energia e desenvoltura.
            Uma projeção onde a vida imita a arte e vice-versa. O delírio agindo como ponte para encontrar a natureza do desempenho necessário. O sacrifício pessoal para oferecer à platéia algo que elevará seus espíritos e os transportará para uma dimensão de beleza divinal.
            O grande destaque no elenco é  Natalie Portman, ilustrando a confusa e frágil protagonista, que se entrega completamente pela beleza dessa arte, a ponto de abstrair sua consciência em prol da dança. O filme traz outras contribuições igualmente memoráveis, como as de Mila Kunis, Vincent Cassel e Winona Ryder.
            A técnica não se sustenta sozinha. Ela precisa da paixão para direcioná-la, podendo ser derivada de uma enxurrada de sentimentos conflitantes que traduzem a complexidade da existência.A urgência da ruptura com a segurança emocional para compreender suas verdadeiras motivações.
            Um filme sobre se perder no próprio inconsciente para encontrar o elo em comum com a personagem que interpreta, compartilhando com a mesma suas dúvidas e desejos,amadurecendo com essa experiência para conseguir o objetivo máximo: encantar e seduzir o público.

            Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.
E-mail para contato: gilson.salomao@gmail.com
           
           

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Medo e Delírio

Medo e Delírio
O cineasta Terry Gilliam é famoso por explorar a linha tênue entre fantasia e realidade, o que explica o seu interesse pela obra do jornalista Hunter S. Thompson, o criador do jornalismo gonzo, caracterizado por seu estilo mais autoral e espontâneo, terminando com a distinção entre autor e sujeito, ficção e não-ficção. Escreveu diversos artigos onde pregou a contracultura e criticou a estrutura reacionária de pensamento da extrema direita norte-americana.
Baseado na obra homônima do mesmo, “Medo e Delírio” acompanha o escritor e seu advogado numa viagem a Las Vegas em 1971 para fazer a cobertura de um rally de motocross patrocinado por um dos hotéis locais. Usando pseudônimos (Raoul Duke e Dr. Gonzo, respectivamente) e embriagados por todos os tipos de entorpecentes conhecidos pelo homem eles viajam em busca do “Sonho Americano”, impulsionado pela ideologia de Timothy Leary, que pregava o uso de drogas para a expansão da consciência.
O filme retrata o efeito massacrante do governo americano na década de 70, que varreu qualquer traço de desconstrução e anarquia tão comuns na década anterior. Em certo momento o protagonista afirma, olhando para a janela “Nós realmente tínhamos a sensação universal de que fazíamos a coisa certa. Estávamos no pique da onda. Hoje, com o tipo certo de olhar, podemos perceber onde foi que a onda rebentou... e recuou”.
A dupla busca permanecer sempre entorpecida, pois não se encontram em sintonia com a realidade vigente. São como fantasmas de uma geração que enxergava o mundo através de uma outra perspectiva. O uso de uma pequena bandeira americana para cheirar éter ilustra bem esse contraste.
A cidade de Las Vegas termina por transformar-se em um personagem na história, ícone da angústia e do desespero por alguma forma de recompensa ao final da jornada, mesmo que isso custe o definhamento do próprio espírito.
O cineasta usa a película para criticar não apenas a ideologia do poder, representada pela convenção de promotores, mas também os entusiastas da “onda do ácido” que não entenderam o conceito e tornaram-se catatônicos e escravos do vício ao invés de usarem o narcótico para evoluir mentalmente.
A narrativa por vezes desconexa e a câmera cambaleante funcionam perfeitamente para criar a ambientação, aproximando o espectador da mente confusa do protagonista. Os flashbacks surgem como lampejos de memória tentando construir a trajetória de alguém que viu sua utopia social desmoronar, tanto que Hunter Thompson se suicidou com um tiro de espingarda na cabeça em 20 de fevereiro de 2005. Ele deixou um bilhete em que se mostrava deprimido e sofrendo de terríveis dores após uma cirurgia na região da bacia.
A fotografia e a trilha sonora pontuam de forma perfeita, ao lado das interpretações impagáveis de Johnny Depp e Benício Del Toro como a dupla que busca as drogas para encontrar algum tipo de explicação para a opressão moralizante que tinha tomado conta do país naquela época.
Interessante comentar que apesar de todo o contexto trágico apresentado, o cineasta montou um filme leve, onde o contraste e o humor emergem de forma natural nas situações apresentadas. O triste é notar que a grande maioria enxerga essa projeção como um filme de comédia, quando há bem mais a ser percebido. A sutileza pode causar esse efeito.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.


terça-feira, 1 de outubro de 2013

A rainha Margot



A rainha Margot
O poder exerce uma curiosa influência no psicológico de quem o detém, dando vazão a  levianas atitudes que podem colocar várias vidas em risco. Uma ordem pensada num momento de fraqueza pode levar à queda de um Estado ou causar um genocídio de proporções épicas. Ao longo da história tivemos vários exemplos desta afirmação, desde a época dos faraós e imperadores romanos aos dias de hoje.
A seguinte projeção tem sua narrativa baseada no romance homônimo de Alexandre Dumas que por sua vez usou de fatos reais para arquitetar sua obra. Ambientada em 1572, durante o período de conflito entre protestantes e católicos na França, ela tem início com o casamento entre Margerithe de Valois e Henrique de Bourbon (Rei de Navarra) com o objetivo de consolidar a paz e estabelecer uma aliança entre as duas facções divergentes.
A medida tomada não surte o efeito desejado pois o clima de desconfiança continua aumentando da mesma forma, chegando ao seu limite com a tentativa de assassinato do Almirante Coligny (líder dos protestantes e amigo do rei Carlos IX).
Temendo uma represália, o governo católico condena à morte todos aqueles que pertencem à outra religião, resultando em um dos maiores genocídios da história conhecido como “A noite de São Bartolomeu”,onde morreram aproximadamente seis mil pessoas.
 O rei de Navarra, temendo por sua própria vida, já que foi um dos poucos sobreviventes do massacre, é forçado a se converter e torna-se um refém da situação, sem condições de retornar a seu governo enquanto escapa das tentativas de assassinato engendradas pela rainha Catharina, que manipula o filho Carlos IX enquanto prepara a ascensão de Anjour, o seu predileto.
O cineasta Patrice Chéreau apresenta de forma eficiente a complexa rede de intrigas familiares e conflitante contexto histórico que a sustenta assemelhando-se em vários aspectos às tragédias shakespearianas, onde todos são escravos do destino.
Interessante notar o amadurecimento da protagonista ao longo da película: sendo inicialmente retratada como apenas um objeto de barganha de sua mãe ela aos poucos vai percebendo todo o esquema sórdido articulado por sua família para consolidar o poder.
O elenco confere perfeição a esta película, com destaque para Isabelle Adjani que transpira toda a força e independência de uma Margot que luta para conquistar sua autonomia. O sempre ótimo Daniel Auteuil merece a devida menção ao retratar um rei completamente indefeso que passa a temer por seu próprio destino ao perceber que está lidando com pessoas emocionalmente instáveis que não respeitam nem os próprios laços familiares para consolidarem seu poder.
Contando com fotografia e trilha sonora belíssima (especialmente a música que toca durante os créditos finais), esta película narra de forma belíssima a triste arquitetura de poder gerada pela sede de conquista que vai sepultando inocentes sem mesurar o quanto isso é nocivo para a própria sociedade que estará sob a sua administração.
Um painel que infelizmente não se renova e infelizmente reflete a situação de alguns governos ao redor do globo, onde o interesse de um é mais relevado que o interesse de todos.
Música Mencionada na Resenha 
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Pequena Miss Sunshine



Pequena Miss Sunshine
O Existencialismo é uma corrente filosófica e literária que destaca a liberdade individual, a responsabilidade e a subjetividade do ser humano, considerando cada homem como um ser único que é mestre dos seus atos e do seu destino. A película a seguir segue essa linha de pensamento. 
Dirigido por Jonathan Dayton e Valerie Faris, o filme mostra a trajetória de uma família disfuncional formada por um fracassado guru de auto-ajuda, seu cunhado que está saindo da clínica psiquiátrica após uma tentativa de suicídio, o filho que adora o filósofo existencialista Friedrich Nietzsche e fez um voto de silêncio até entrar na Força Aérea e seu pai que é viciado em heroína, além da filha menor cuja jornada será o fio condutor da narrativa. 
Desde a primeira seqüência a garotinha já encanta o espectador, espelhando-se na expressão de vencedora de um concurso de miss, já que sua vida parece girar em torno disso. O brilho em seus olhos mostra o quanto essa competição significa para ela. O interessante em tudo isso é que ela não segue os padrões requeridos, usando óculos relativamente grandes e uma barriga proeminente, como a de toda criança saudável. 
A história tem início quando a garota é convocada para o concurso do título em um outro estado e a família a acompanha numa Kombi caindo aos pedaços, um ambiente onde esses personagens são obrigados a conviver, compartilhando suas diferentes experiências e ideologias, o que enriquece de forma considerável o roteiro da película. 
Todos na família, com exceção da mãe da protagonista parecem sofrer algum tipo de limitação imposta pela sociedade. Frank é um acadêmico que ficou deprimido e tentou se matar porque alguém medíocre foi considerado genial na mesma especialidade que ele, chegando a perder alguém que amava por causa disso. Richard realmente acredita no seu “programa de nove passos” ( a ponto de policiar todos a seu redor), mas não consegue um editor para lançar o seu livro e mesmo Dwayne encontrará um empecilho que porá em cheque o seu grande desejo de se tornar um piloto. 
Todos seguem em busca de um mesmo objetivo que dará sentido às suas vidas, mas no decorrer da viagem percebem a futilidade dos padrões que usam como medida de comparação em suas respectivas vidas. 
Nesse ponto a temática do filme mostra como todo esse conjunto normativo acaba reprimindo várias pessoas que tem potencial para irem muito além de suas expectativas, mas acabam se rendendo aos estigmas impostos pela sociedade reguladora. 
A belíssima trilha sonora e a fotografia inspirada dão o tom agridoce e tragicômico da projeção, onde a cada momento surge uma adversidade que obriga esses personagens aparentemente díspares a entrar em sintonia para seguir adiante. O elenco também merece uma menção especial, com destaque para Alan Arkin como o avô hedonista e Steve Carell, que mostra seu verdadeiro potencial como ator, mostrando que tem algo mais a oferecer que papéis humorísticos. 
O final surpreendente mostra a força da essência interior e como todos os nossos problemas parecem pequenos quando observamos o contexto social do qual aparentemente precisamos ou queremos fazer parte.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.

domingo, 29 de setembro de 2013

O caçador de pipas



O caçador de pipas
O Talibã é um movimento que se propunha a  implantar a lei islâmica no Afeganistão, desagregado pela queda do regime comunista.  Era composto por  jovens treinados em   escolas religiosas rurais,  surgidas  ao longo da década de 1980. Estas escolas  haviam sido  berço de militantes que lutaram contra a ocupação soviética no país. Seu governo tem-se caracterizado pela aplicação rígida de seu código religioso. Dois grandes filmes foram feitos retratando esta realidade, o belíssimo “Osama” e a película em questão.
Baseado no livro de Khaled Hosseini, o filme acompanha a trajetória de Amir Jan, desde sua infância abastada em Cabul, onde passava os dias junto a seu servo e amigo Hassan. Sua índole passiva e introvertida sempre contrastou com a coragem e a energia do companheiro, gerando um ressentimento que é incrementado pela lealdade cega do mesmo. Apesar de tudo, são visíveis o carinho e respeito que um nutre pelo outro.
A invasão soviética no território faz com que o protagonista emigre para os Estados Unidos junto ao pai, onde consegue fazer carreira como escritor. Anos mais tarde, termina descobrindo segredos sobre sua família, sendo forçado a retornar à cidade natal, agora governada pelo regime do Talibã, para resgatar um parente que não conhecia.
O perfil psicológico dos personagens é bastante trabalhado, especialmente o do protagonista que busca a qualquer custo conquistar o orgulho e o respeito de seu pai e se sente culpado pela morte da mãe, já que a mesma morreu no parto.
A competição de pipas (onde o vencedor deve eliminar as adversárias usando cerol, uma mistura de cola de madeira com vidro moído na linha) acentua o contraste entre os dois tempos históricos ilustrados na película: enquanto o primeiro é marcado por uma inocência trágica em certos aspectos, a contemporaneidade denota uma região completamente destituída de qualquer resquício de humanidade, impacto que pode ser claramente percebido nas diferenças arquitetônicas dos dois períodos.
Um aspecto do filme que merece ser ressaltado é a fidelidade à língua original da região, o que é importante num filme que tem um apelo tão forte para a ancestralidade, dignidade e nacionalidade. O Talibã afirma estar fazendo o que é melhor para o seu país, quando na verdade é o contrário.
A pipa pode ser interpretada como uma metáfora do espírito humano em meio à série de distorções e contradições que constituem nossa pós-modernidade. O pensamento poético e independente trafegando com dificuldade em meio aos contratempos históricos e sociais.
É interessante perceber também a evolução dos personagens ao longo da projeção. Amir, que era covarde e passivo, buscando sempre a fuga da realidade através da ficção torna-se alguém preocupado com a realidade de seu país, escrevendo livros que relatam as tragédias em sua nação, enquanto seu pai, que foi sempre uma figura distante durante sua infância, passa a desempenhar um papel mais participativo, chegando inclusive a apoiar a carreira do filho, mesmo que não a aprovasse.
O diretor Marc Forster realizou um filme belíssimo usando uma narrativa lenta, criando uma atmosfera idílica com bastante cuidado para que sua degradação fosse digerida com a devida atenção, sensibilizando o espectador para a perda de identidade de um povo.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.


sábado, 28 de setembro de 2013

A fita branca



A fita branca
            A educação é um processo deveras delicado, pois ele afeta diretamente a evolução do caráter de seus aprendizes. O ambiente de convivência contribui para cultivar o sentimento que irá perseverar através das próximas gerações.
            O espírito humano é incrivelmente maleável. As experiências que vivenciamos, especialmente no seio familiar, serão aquelas que irão direcionar nossa conduta. As respostas emocionais que derivam de determinada interação espelham a natureza da mesma.
            Ambientada em um vilarejo alemão, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, a narrativa acompanha uma série de misteriosos eventos que afetam seus moradores. Essa sociedade patriarcal e protestante transpira crueldade através das punições que as crianças sofrem por suas desobediências.
            A frieza e indiferença latente nos diferentes núcleos familiares revelam o nascimento de uma mentalidade nociva que se espalharia por todo o país. O uso da fita branca no braço como “punição purificadora” antecede o raciocínio tão evidente no nazismo.
            A montagem do cineasta Michael Haneke ilustra com eficiência o espírito que paira sobre os habitantes da região. A opção pela fotografia em preto e branco reforça o tema proposto. A intolerância mascarada pela moral instituída.
            Narrada em off pelo professor da cidade, os fatos ocorridos, isolados a princípio vão gradualmente se conectando e descobrindo o véu que disfarça a verdadeira essência da comunidade.A sombra que calmamente vai encobrindo e corroendo a humanidade dos personagens, tão comum nos filmes do diretor sueco Ingmar Bergman.
            O suspense é construído no silêncio inscrito na lentidão das tomadas que somente sugere a violência e nunca a retrata, tornando-a assim mais impactante. A brutalidade adormecida que emerge de forma sutil e incisiva.
            A sensibilidade fria que denota um abismo de medo e respeito entre pais e filhos. A depressão enrustida que explode em raiva crua e voraz. A perversidade projetada que perfura a malha da sociedade como uma lâmina certeira e fria.
            Não há espaço para eufemismos nos núcleos familiares do vilarejo. A sinceridade abre caminho sem pesar seu efeito naqueles que entram em contato com ela. Desde cedo as crianças já são introduzidas à certeza de sua mortalidade e a de seus pais. O ceticismo é escarrado de forma bastante brutal e assimilado da mesma forma.
            O cerne da maldade pulsa de maneira bastante silenciosa e eficaz, medindo seu tempo com calma até perfurar o seu alvo no momento exato. O poder instituído representado pelo Barão (Estado), o pastor (Igreja), o médico e o administrador gerenciam o local de acordo com os seus próprios interesses e não toleram nenhuma forma de questionamentos. Resta aos populares sofrerem calados, entregues ao seu próprio desespero.
            Uma película sobre a distorção da índole durante o período de sua formação, criando feridas emocionais e psicológicas que dificilmente serão sanadas.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.
E-mail para contato: gilson.salomao@gmail.com
           

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Budapeste

Budapeste
            O ofício da escrita exige bastante daqueles que a ela se dedicam, dada a complexidade que a sua significação sugere. Para construir um belo texto é preciso amar as palavras, escolher com carinho o seu posicionamento nas frases a fim de lançar a mensagem desejada.
            É preciso se apaixonar pela riqueza das imagens sugeridas pelo texto para logo em seguida se desprender do mesmo, deixando que as múltiplas interpretações o absorvam e construam seus inúmeros significados.
            Adaptada do livro homônimo de Chico Buarque a narrativa desta película acompanha o escritor José Costa que exerce a função de “ghost writer”, alguém que escreve diversas obras mas não recebe o crédito por elas, sendo o mesmo transferido para aqueles que o contrataram.
            A grande mudança na vida do protagonista acontece quando,  em função de uma suspeita de ameaça terrorista, o avião no qual ele retornava de uma convenção é forçado a aterrisar na cidade de Budapeste.
            O inesperado contato  com a língua local faz com que ele se apaixone por ela. Fascinado pela línguística e fonética húngara, ele retorna ao Rio de Janeiro onde escreve a biografia de um alemão que se enamora pelo Brasil. Utilizando a sua própria experiência ele cria um best-seller.
            O sucesso da obra é tanto que sua esposa termina seduzida pelo pseudo-autor do mesmo, embriagada pela força do texto atribuído a ele. Cansado do casamento e angustiado pelo constante esforço não reconhecido ele retorna à cidade européia, onde reencontra sua alma na gramática estrangeira e nos braços da psicóloga Kriska que lhe ensina este novo idioma.
            A montagem do cineasta Walter Carvalho retrata como José vai sendo gradativamente cativado pela estrutura gramatical estrangeira, sendo tomado a princípio pelo  caráter exótico da mesma para depois tornar-se completamente submisso a ela, a ponto de ouvir um samba e traduzi-lo inconscientemente em húngaro.
            Interessante perceber o carinho que o personagem possui pela pronúncia em geral, seja no deleite do eco produzido pela ligação interurbana ou na simples repetição das palavras novas que vai aprendendo durante a sua estadia neste velho novo país.
            Vale comentar a desmistificação feita ao Leste Europeu, geralmente retratado como decrépito e decadente. O diretor realça o charme arquitetônico das construções além da beleza histórica local.
            Importante mencionar também o debate sugerido na projeção sobre a necessidade de reconhecimento pela criação de uma obra literária. A estátua do escritor anônimo preza acima de tudo o valor do texto e o seu impacto sobre aqueles que o lêem, mas a interação entre criador e criação é tanta que é difícil manter uma postura indiferente, permanecendo incógnito enquanto terceiros levam a glória por algo que não fizeram.
            Um filme sobre a reconstrução de uma nacionalidade a partir da desconstrução do espírito que interfere por sua vez na própria leitura da vida através de uma nova linguagem.
            Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.
Email para contato: gilson.salomao@gmail.com 


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Abraços partidos



Abraços partidos
            É interessante perceber como o amor é um tema que apesar de antigo, nunca se esgota nas tramas cinematográficas, pois está sempre ganhando novos contornos e  interpretações.
Sentimento espontâneo,egoísta e imprevisível que motiva as pessoas a cometerem leviandades, resultando em sérias consequências para todos os envolvidos. Pulsão que enevoa o raciocínio, despertando nossas vontades mais primárias e sinceras.
A narrativa da seguinte projeção mostra a história de um homem envolvido no meio cinematográfico que ficou cego por causa de um acidente de carro e passou a trabalhar como roteirista. O pedido de um antigo conhecido para escrever uma ficção baseada em fatos reais e a morte de um velho rival despertam nele antigas lembranças de um romance trágico.
O relacionamento em questão seria entre o diretor e a atriz principal de seu filme, namorada de um poderoso empresário ciumento que se voluntariou para produzir a referida obra.
A montagem do cineasta Pedro Almodovar define com a sua elegância habitual o perfil psicológico de cada um de seus personagens emocionalmente perturbados, cada um com seu passado amargo.
Destinos cujas trajetórias são condicionadas pela paixão exacerbada, ocasionalmente conduzidas ao cuidado ou mesmo ao ódio.
O uso de flashbacks para contar o acontecido permite uma análise do quanto o protagonista foi atingido pela fatalidade (ele chegou a mudar de nome, adotando o pseudônimo de Harry Caine, condizente com sua nova postura após o ocorrido) e como as outras pessoas envolvidas lidaram com o peso da mesma ao longo dos anos que se passaram, como a sua agente, corroída de remorso.
O estilo de filmagem do diretor espanhol coloca personas com um forte impulso passional que não temem o preço pelo seu comportamento, consumidas por uma espécie de “febre instintiva”, onde o prazer do instante supera qualquer inconveniência futura. A intensidade acalorada do flamenco traduzida em imagens de cores vivas e apaixonadas.
O filme trabalha o compromisso da sétima arte em registrar e expor a verdade das intenções amorosas que pulsam e conduzem seus respectivos comportamentos, por mais que se tente modificá-los ou distorcê-los.
O uso de metalinguagem, adicionando histórias dentro da história, enquanto ilustra o processo de criação e filmagem, ao mesmo tempo contribui para enriquecer a trama.
O mosaico de relações humanas onde os desejos projetam o real caráter que se esconde sob suas respectivas atitudes.
O elenco traz a excelente performance de Penélope Cruz e vários outros nessa poética projeção sobre um romance condenado desde o início que ousou seguir seu rumo, pois nada seria pior que a idéia de terminá-lo.
Um filme onde a vontade atua como bússola, oferecendo escolhas enquanto aponta a chance de redenção, ainda que ela esteja num take aparentemente perdido na sala de edição.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.
E-mail para contato: gilson.salomao@gmail.com

terça-feira, 24 de setembro de 2013

O segredo de seus olhos

O segredo de seus olhos
            O cineasta francês Jean Luc Godard afirma que “a lembrança é o único inferno ao qual fomos condenados em inocência.”. Algumas pendências ecoam e exigem um desfecho, perturbando aqueles envolvidos e levando-os a questionar o sentido de suas respectivas jornadas.
            Todos possuem momentos na vida cujas escolhas definem caminhos a serem seguidos. O peso dessas decisões recai sobre os envolvidos e muitas vezes interrompem suas rotinas.
            A narrativa da película que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro este ano acompanha Benjamín Espósito, um Oficial de Justiça aposentado que deseja aproveitar o seu tempo livre escrevendo um romance.
            A falta de idéias o leva a escrever sobre um caso não resolvido do passado, onde uma professora foi estuprada e morta. Tal investigação terminou sendo arquivada na época por ocasião da ditadura que estava vigente naquele período.
A releitura deste acontecimento o leva a refletir sobre os seus atos naquela época, especialmente os relacionados a um amor platônico por sua superior.
            A montagem do cineasta argentino Juan José Campanella alterna os eventos do presente com flashbacks que relatam os eventos do passado. A alternância entre tais momentos permite analisar como os personagens sobrevivem com as escolhas que fizeram, apesar de certos sentimentos persistirem estacionados no tempo.
            O diretor disserta com elegância sobre a mudança de conjunturas e como o conceito de justiça vai se modelando de acordo com as necessidades da máquina governamental, que esconde sua conduta distorcida no viés burocrático.
            As diferentes personalidades dos investigadores permitem uma pluralidade de posicionamentos em relação ao fato. Suas diferentes reações enriquecem a trama e trazem uma discussão madura sobre a sentença ideal para este crime.
Enquanto alguns buscam sublimar a dor de um passado sofrido, enterrando os aborrecimentos na distância dos anos, outros ficam remoendo cada passo que foi dado e como este caso pode ser encerrado.
Nesse ponto é importante destacar a determinação do marido da vítima em encontrar o agressor e puni-lo, não com a morte, mas com um encarceramento perpétuo que o faça refletir sobre sua atitude.
            A busca de Benjamin por um novo fim para o seu livro projeta a redefinição de suas prioridades a partir de uma leitura crítica de sua jornada. Antigas promessas e desejos o impulsionam para encontrar o seu caminho.
            Vale comentar também como um simples olhar pode carregar consigo um imenso potencial comunicativo. O flagrante num determinado momento revela as reais intenções daqueles que tentam disfarçá-las.
            Um thriller policial com uma trama envolvente que adiciona momentos refinados de drama e comédia. Os planos seqüência inspirados, como o da perseguição no estádio de futebol, atestam a excelência dessa fina obra do cinema argentino.                   
            Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.
E-mail para contato: gilson.salomao@gmail.com

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O desastre de Chernobyl




O desastre de Chernobyl
            A Guerra Fria teve momentos onde o mundo esteve no limiar de grandes catástrofes que custariam a vida de várias pessoas inocentes.A corrida armamentista gerou a busca pela manipulação da energia nuclear, haja vista a sua “eficiência” em Hiroshima e Nagasaki.
            O problema reside no fato de que o material utilizado neste processo, além de bastante nocivo ao meio ambiente é altamente instável.O vazamento dessa substância pode implicar num sério risco para a região local ou afetar áreas imensas, de acordo com o seu grau de dispersão.
            O documentário em questão apresenta imagens inéditas de um evento que causou um número incrível de vítimas, semelhante a uma guerra ou epidemia e continua perigoso até os dias de hoje.
            O problema começou na noite do dia 25 de abril de 1986, quando a explosão do quarto gerador da usina de Chernobyl começou a irradiar uma enorme quantidade de elementos tóxicos na atmosfera.A desinformação a respeito do assunto foi um poderoso agravante pois impediu que providências fossem tomadas previamente. Os técnicos afirmaram que tudo estava sob controle e tudo seria resolvido rapidamente. Até o presidente Mikhail Gorbachev foi instruído para não se alarmar.
            A gravidade da situação foi sublimada, pois as autoridades não queriam despertar pânico na situação, mas essa demora para evacuar a cidade ucraniana de Prypiat, onde a instalação se localizava teve consequências gravíssimas para os habitantes da mesma.
            O espaço de tempo de 48 horas desde o momento do acidente até a constatação da gravidade do mesmo foram mais que necessárias para espalhar a nuvem radioativa que atingiu grande parte da Europa.
            A situação ficou crítica quando os técnicos afirmaram que se o material incandescente do reator alcançasse a água no reservatório embaixo do mesmo, uma bomba atômica seria desencadeada  de dimensão dez vezes maior que aquelas jogadas nas cidades japonesas ao final da Segunda Guerra, varrendo cerca de dois terços do território europeu num piscar de olhos.
            O diretor Thomas Johnson coletou depoimentos de especialistas, técnicos e jornalistas envolvidos, inclusive do presidente do país na época, revelando informações que até então vinham sendo mantidas em segredo pela ex-União Soviética, em função da política da “cortina de ferro”.
            A película dá o merecido destaque aos heróis anônimos, militares e bombeiros que foram submetidos a doses semi-letais de radiação para evitar uma tragédia ainda maior no continente, forçados a trabalhar sem descanso e recebendo um salário irrisório.Vale comentar que os humanos foram solicitados depois que os robôs empregados para esta tarefa foram completamente inutilizados pela radiação.
            O filme mostra ainda como tal desastre contribuiu para aproximar as relações entre o país soviético e a Europa capitalista, iniciando o processo de abertura política conhecido como Glasnost que poria fim ao conflito entre as duas potências da época.
            A projeção também retrata como a radiação continuou afetando a todos que tiveram contato com ela, anos depois do acontecido.Aponta também para a urgência de instalar uma segunda vedação no reator, pois a primeira estava prevista para durar apenas vinte anos.
            Uma tragédia que não recebeu a devida atenção na época por motivos políticos e cujas complicações perduram até o presente momento, onde os “sobreviventes” ficam num hospital, aguardando a própria morte, já que sua situação é irreversível.
            Um valioso alerta  para a potencialidade danosa envolvida na utilização dessa forma de energia, cujo período de deterioração de seus resíduos demora 250 anos ou mais.A lembrança de um problema recente que motiva a reflexão sobre essa alternativa para resolver a crise energética que aponta no horizonte.

Achei o link do documentário no Youtube, para quem se interessar: Doc: O Desastre de Chernobyl
           
            Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.
E-mail para contato: gilson.salomao@gmail.com