domingo, 23 de junho de 2013

Heróis demasiadamente humanos

Heróis demasiadamente humanos
            Watchmen é uma série em quadrinhos escrita por Alan Moore e ilustrada por Dave Gibbons, dividida em doze volumes. Considerada um divisor de águas no gênero por tratar de temas mais maduros e complexos, seu sucesso de crítica contribuiu para popularizar o formato conhecido como graphic novel (romance visual).
            O acabamento artístico é impecável e o carinho no detalhamento das sequências denota o refinamento e o cuidado na criação deste clássico que revolucionou o seu estilo.
A trama acontece em um contexto alternativo,onde criminosos e defensores da lei  resolveram se enfrentar fantasiados, tendo as histórias de gibis do gênero como fonte de inspiração para tal.
            Surge assim no começo dos anos 60 a primeira liga de vigilantes chamada Minutemen, em homenagem aos bravos cavaleiros que lutaram na guerra da independência americana. Com o tempo, os vilões trocaram os trajes e pseudônimos pelos ternos corporativos,embora continuassem com seus atos ilícitos.
            A misteriosa chegada do Dr. Manhattan, um hominídeo dotado de poderes sobrenaturais, foi o evento que marcou o início do fim da primeira equipe e o nascimento da segunda_ os Watchmen.Da formação antiga, somente o comediante permaneceu ativo.Alguns aposentaram,um foi internado no hospício e outro desapareceu.
            O segundo grupo de heróis alcançou um elevado nível de eficiência, causando um descontentamento na polícia que terminou entrando em greve e deixando os cidadãos com uma sensação de insegurança e medo, pois não havia quem regulasse qualquer abuso de poder dos vigilantes disfarçados.
            Essa situação instável levou à promulgação da Lei Keene em 1977 que exigiu o registro dos "aventureiros fantasiados" no governo, pondo fim ao segundo grupo.
            Todos esses eventos são narrados em flashbacks, já que a história tem início com o misterioso assassinato do único herói que pertenceu às duas formações, tendo adotado este apelido como uma resposta irônica à defesa hipócrita e cínica da moral americana.Optou por transformar-se em ícone da grande piada do governo americano ao usar de violência extrema dentro e fora do país para preservar sua democracia, mas seu humor era sutil demais e poucos compreenderam.
            O crime é investigado pelo enigmático e violento ex-parceiro Rorschach que acredita na existência de uma conspiração para eliminar seu antigos companheiros.
            O painel geopolítico da Guerra Fria, onde os fatos ocorrem,proporciona uma interessante leitura da hegemonia americana,representada pelo onipotente Dr.Manhattan que atuou como fator decisivo para a vitória do conflito armado no Vietnã,possibilitando a permanência do corrupto presidente Richard Nixon na presidência do país.
            O autor faz um julgamento crítico do caráter social ao retratá-lo como narcisista,individualista e mesquinho, imerso em sua depravação e cobiça. Um interessante debate sobre o valor do sacrifício de inocentes em prol de um bem maior.
Outro imenso diferencial foi a apresentação de heróis em constante conflito emocional, incertos de seu papel nesta conjuntura. Um deles inclusive chega a usar sua própria imagem para ganhar dinheiro com publicidade.
            É imperativo mencionar a história paralela que é inserida em doses homeopáticas ao longo da narrativa principal. Conta a história de um capitão que teve sua tripulação morta e a caravela destroçada por um sombrio cargueiro negro. Desesperado, o náufrago improvisa uma balsa com os cadáveres de seus ex-marinheiros para tentar chegar em sua cidade antes que essa ameaça marítima o faça.
            A adaptação para os cinemas dirigida por Zack Snyder foi bastante fiel, apesar de uma alteração no final que só a tornou mais verossímil e não comprometeu a sua integridade.
            Uma belíssima obra que aborda inúmeros assuntos, entre eles a perda do romantismo e a controversa nocividade da natureza humana, com seus danos e benefícios.

domingo, 16 de junho de 2013

A essência da noite em letra e música


Os misantropos da nossa contemporaneidade encontram conforto nas composições de Ed Motta, que também canta e produz. Nascido em 17 de agosto de 1971, o sobrinho de Tim Maia ficou conhecido no final dos anos 80 com as composições Manuel, e Vamos dançar que gravou com a sua então banda Conexão Japeri. Alguns anos depois retornou com os hits Fora da lei, Vendaval e Colombina.
No ano passado lançou seu nono álbum de estúdio, Chapter 9, seu primeiro disco totalmente cantado em inglês, onde gravou todos os instrumentos.
O artista também é conhecido pelo seu gosto apurado por discos de vinil e quadrinhos europeus, além de notório apreciador de vinhos, cervejas e chás.
Sua melodia evoca os desencantos e promessas que a penumbra desperta. Uma interessante mistura da sensualidade do jazz com a melancolia do blues, temperada com a irreverência do samba e a suavidade da bossa-nova.
O alívio lamurioso das notas circula como um taxi boêmio na madrugada carioca, em busca de sonhos que elevem o espírito. É o convite do crepúsculo para seguir os instintos naturais, acariciando nossos desejos mais profundos e sinceros.
 As letras de suas canções sugerem imagens simbolistas e refazem os passos do flâneur baudelairiano, caminhando solitário madrugada adentro, cabisbaixo, com as mãos enterradas nos bolsos, sonhando com o perfume dos cabelos de sua amada, perdido em meio a lembranças de vozes e toques que fizeram seu coração bater mais rápido.
Podem ser notadas também referências a elementos da “Commedia dell'arte”, como o tímido e sensível pierrot, o charmoso e articulado arlequim, além da sedutora Colombina, alvo da admiração de ambos.
Desencontros amorosos, sussurros nas entrelinhas, fantasias dissipadas e reencontros furtivos. Romance no canto do ouvido, que tudo sugere e nada entrega.
Sua obra faz alusão a um romantismo abafado pela funcionalidade que ronda o comportamento pós-moderno. A praticidade da conquista elimina a sutileza e o charme que caracterizam o jogo da sedução.
O prazer de perder ao expor sua vulnerabilidade para servir ao vencedor. Cada anoitecer abre as cortinas para o impreciso teatro humano, onde sorrisos e lágrimas podem brotar a cada instante.
A madrugada é palco de equívocos e epifanias, presentes em cada nota musical que parece fluir como um suspiro dentro da escuridão.
Sua obra traduz um refinamento musical tão necessário para contemplar essa rica variedade de ritmos, mostrando como cada um deles contribui para expressar a sua peculiaridade nessa miscelânea.
Cada pulsação sonora é um convite para desfrutar o imenso leque de oportunidades presente em cada suspiro iluminado pelo luar. Todo arcabouço de frustrações e desejos escondido num flerte ousado.
A sinfonia dos desconcertos noturnos é detectada nos versos que brindam o amor platônico, inacabado, indefinido. Uma perspectiva poética sobre as diferentes nuances de comportamento que permeiam nossa identidade.
As diferentes variações de tonalidade que valseiam como se surgissem no improviso podem ser entendidas como metáforas da imprevisibilidade dos acontecimentos, assim como as diferentes versões de seus maiores sucessos refletem a dinamicidade dos possíveis contextos mencionados nas letras das músicas.
Um mergulho na essência demasiadamente humana, tão contraditória e imprescindível para a compreensão do sentido recôndito de nossas atitudes.