quarta-feira, 31 de julho de 2013

A insustentável leveza do ser


A insustentável leveza do ser
A condição humana sempre foi alvo das reflexões do escritor Milan Kundera. Em suas obras ele intercala a narrativa com ensaios existenciais sobre as escolhas e caminhos em nossa vida, a forma como nossas atitudes nos definem, expondo nossa personalidade àqueles que compartilham do mesmo nicho social.
A respeito do livro que leva o mesmo nome da seguinte projeção, o autor Italo Calvino escreveu: "O peso da vida, para Kundera, está em toda forma de opressão. O romance mostra-nos como, na vida, tudo aquilo que escolhemos e apreciamos pela leveza acaba bem cedo se revelando de um peso insustentável. Apenas, talvez, a vivacidade e a mobilidade da inteligência escapam à condenação -- as qualidades de que se compõe o romance e que pertencem a um universo que não é mais aquele do viver".
O filme consegue transmitir essa mensagem, mostrando a história de Tomas, um médico mulherengo cujo relacionamento mais longo é com a artista plástica Sabina, a única mulher que o compreende, pois também não gosta de se envolver com ninguém.
 Certo dia o doutor é enviado a um SPA para fazer uma cirurgia e lá se envolve com Teresa, uma tímida garçonete. Dias após o seu retorno ele recebe a visita da garota que acaba se mudando para sua casa e alterando toda a sua rotina.
Aquele que vivia de forma frívola, aproveitando os pequenos detalhes sem abraçar nenhum tipo de compromisso de repente está morando com uma mulher e um cachorro. Uma série de mudanças começa a acontecer em sua vida e ele percebe que está na hora de tomar decisões sérias que irão refletir em sua conduta como profissional de medicina e como ser humano.
Ambientada na Tchecoslováquia de 1968, a narrativa mostra a violenta repressão russa no país, decorrente da Guerra Fria, com tanques invadindo a capital em plena madrugada e soldados confiscando passaportes.
Vale mencionar a função que a câmera fotográfica exerce na projeção, como se a mesma revelasse a crua natureza das pessoas e dos fatos.
Importante ainda o comentário de Sabina a respeito da crescente tendência da sociedade pós-moderna em funcionalizar e cretinizar toda forma de pensamento criativo ou independente, inibindo toda forma de individualização que possa surgir.
Tanto o livro quanto o filme apontam para o paradoxo entre a leveza e o peso, que se repelem e se atraem. Viver sem “amarras” é libertador, mas bastante arriscado, pois nada é definido e não há como se relacionar com outras pessoas num sentido mais profundo, o que denota uma experiência bastante solitária.
Quando estabelece uma conexão mais profunda com Teresa, o médico começa a entrar em contato com sentimentos ainda inéditos para o mesmo, tais como ciúmes e solidão. Todas estas novas percepções influenciam em suas resoluções que contribuem para seu amadurecimento neste sentido.
Tomas não é o único personagem que sofre transformações a longo da narrativa. A garçonete que vira fotógrafa aprende bastante a respeito da natureza humana, mas não altera sua essência frágil, doce e introspectiva porque sabe que tais traços revelam sua personalidade. Sabina também termina revelando seu lado inseguro ao longo da história.
O elenco mostra que a excelência dos atores Daniel Day-Lewis e Juliette Binoche vêm desde cedo, interpretando o casal de protagonistas de forma ímpar. Lena Olin também merece destaque revelando todas as facetas da enigmática artista e confidente do médico.
O cineasta Philip Kaufman conseguiu adaptar de forma bastante fiel o espírito e a mensagem do livro que mostra um homem que procurava todas as infinitas nuances da essência feminina e terminou encontrando todas elas numa só mulher, que lhe dava tudo e só pedia um pouco de carinho e atenção. Daí a relação tão forte da moça com a cadela Karenin.
Um belíssimo embate de personalidades que se amam e se confrontam, gerando tantas leituras que cada uma delas revelará novos detalhes a serem notados. Desta forma o livro e a película terminam como experiências que se completam.

Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.

terça-feira, 30 de julho de 2013

The Cove: A baía da vergonha

The Cove: A baía da vergonha
Os golfinhos são mamíferos notórios por sua aguçada inteligência e amistosa interação com as pessoas. Capazes de se reconhecer no espelho,possuem um poderoso sonar com o qual rastreiam todas as formas de vida no oceano,deslizando com elegância pela imensidão azul.
Todas as características que os tornam tão excepcionais servem de motivação para que os mesmos sejam aprisionados e treinados para exibições em parques aquáticos até o fim de seus dias. O mais curioso é perceber que seu destino em mãos humanas  pode ser ainda pior.
O documentário vencedor do Oscar deste ano mostra uma realidade cruel que acontece em uma enseada na cidade de Taiji, no Japão. Neste local os cetáceos são conduzidos a uma armadilha, onde alguns são capturados para serem vendidos a parques aquáticos espalhados pelo mundo, enquanto o restante é brutalmente retalhado para ser vendido aos supermercados e restaurantes da região.
A película mostra os esforços do ativista Richard O'Barry, que vem há anos lutando pela liberdade destes mamíferos por remorso, pois treinou alguns deles para atuarem no famoso seriado “Flipper”, que terminou sendo responsável pela disseminação do desejo de nadar e brincar com estas amáveis criaturas, o que consequentemente impulsionou a indústria de entretenimento neste setor.
A falsa imagem de que eles estão sempre “sorrindo” contribui para mascarar sua verdadeira condição, já que muitos deles ficam terrivelmente estressados com o alvoroço da multidão por causa de sua sensibilidade sonora, sendo que a maioria deles termina com úlceras terríveis.
O diretor Louie Psihoyos informa como essa chacina (vinte e três mil são mortos por ano) é encoberta pelas autoridades locais, evitando que a mídia internacional e a população da cidade saibam dessa triste realidade. A cidade é cheia de belas ilustrações de baleias e golfinhos, dando a entender que ali seria um lugar onde eles fossem amados.
Vale apontar a falta de envolvimento das grandes fundações ambientalistas nesta questão. A Comissão Internacional Baleeira consegue o apoio de pequenas repúblicas da América Central em troca de pequenos financiamentos e acredita que as mortes dos golfinhos “equilibram a cadeia alimentar marinha, pois comem peixe demais”.  Enquanto isso, a Organização para a Preservação dos Oceanos não consegue vislumbrar a gravidade dessa pesca.
A projeção comenta também sobre a periculosidade presente na ingestão de carne dos golfinhos com elevado nível de mercúrio que está sendo distribuída na merenda escolar das escolas municipais.
Um filme que procura sensibilizar a população para uma fatalidade que alguns japoneses insistem em caracterizar como “tradição de seu povo” numa fraca tentativa de justificar tal atrocidade.
Os oceanos foram o berço da vida em nosso planeta e tal pesca indiscriminada é um espelho do retrocesso civilizatório, refletindo a ganância que motiva esse extermínio irresponsável.
 Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.
E-mail para contato: gilson.salomao@gmail.com


segunda-feira, 29 de julho de 2013

O discreto charme da solidão


O discreto charme da solidão
            Ultimamente tem sido perceptível uma tendência nos seriados americanos. O perfil de grande parte dos seus protagonistas descreve homens solitários brilhantes com um passado trágico. Misantropos, originais e criativos, eles vivem para o trabalho e operam em outra esfera de percepção da realidade onde estão inseridos.
            O intuitivo detetive de São Francisco Adrian Monk (Monk) divide com o melhor advogado de defesa de Boston Alan Shore (Boston Legal) o abandono do pai durante a infância e entrou em colapso nervoso após a morte da esposa como o exímio mentalista Patrick Jane (The Mentalist).
            Por outro lado Gregory House (House), o melhor médico do hospital Princeton-Plainsboro tem o mesmo passado de constantes brigas com o pai que o espião Michael Westen (Burn Notice).
            A dor física e emocional é uma constante em suas vidas, presos num círculo comportamental que opera criando um abismo que os separa do senso comum, trazendo consigo virtudes e obstáculos.
            O carisma destes personagens vem exatamente do seu contraste com o raciocínio óbvio, a inteligência pragmática tão comum, aplicada de maneira convencional e segura. Anarquia ditando as regras.
            Com seu dândismo, trafegam por entre a multidão como coringas no baralho da vida, sempre enigmáticos e imprevisíveis, analisando as situações com olho clínico e improvisando diante de eventuais emergências.
             Sua insolência com aqueles ao seu redor é reflexo de sua incompatibilidade com a rotina mediana que os circunda, orbitando numa atmosfera que sublima qualquer tipo de comportamento politicamente correto.
            Utilizando o confronto para trazer à tona as mentiras que escondem a raiz do problema, terminam revelando todo o cinismo e hipocrisia de uma contemporaneidade mais prática e menos instintiva, banal.
            A insegurança é uma constante em suas vidas, transitam indiferentes a regras de conduta institucionalizadas. O indivíduo contornando as barreiras impostas pela ideologia funcional e niveladora para atender o espírito humano carente que foi gradativamente suprimido pelo pragmatismo e pela burocracia.
            Ocasionalmente tentam se adaptar ao ritmo normal de convivência para atenuar a angústia de seu “cárcere particular”, mas são prontamente repelidos pelo sistema, tendo desta forma a sua inadequação confirmada. Seu refinamento não condiz com a aspereza do contexto que os condenam ao ostracismo por sua diferença.
            São espectros amorais que vagam na eterna busca de paz de espírito, que só pode ser encontrada na transcendência do inconsciente. Imagem de uma originalidade muitas vezes retraída pela grande maioria dos seus espectadores.
            Projetam a independência do pensamento, livre das distrações e deveres impostos por uma sociedade sistemática e regada de obviedades. Seus hábitos peculiares e incertos empolgam todos aqueles que se identificam com este desejo de nadar contra a corrente, embora conheçam os perigos dessa tortuosa jornada.
            O fascínio que estes protagonistas têm despertado mostra que a leitura viciada da nossa conduta traz segurança material e permite uma melhor interação com as outras pessoas, mas ela não seduz, porque denota o vazio do espiral vicioso que aprisionou a lógica.
            O gosto pela transgressão saudável que desconstrói para lançar a real natureza que define a essência de nossa espécie.

Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.


domingo, 28 de julho de 2013

Closer

Closer


O poeta britânico T.S. Eliot afirmou certa vez que “quanto mais certos estamos de conhecer uma pessoa, mais próximos estamos de nos decepcionar com ela.” Essa citação se encaixa como uma luva no filme “Closer”, onde a desilusão é uma constante durante toda a história.
Adaptada de uma peça de teatro, a película mantém os diálogos secos e cortantes, penetrando no inconsciente dos personagens a fim de alcançar o efeito desejado. As conversas viscerais são um dos grandes destaques do filme, pois a intenção é expor a nossa imersão em uma sociedade de aparências, transbordada em insegurança e solidão.
“Closer” mostra a trajetória de um jornalista escritor de obituários que, mesmo amando sua namorada, acaba se envolvendo com uma fotógrafa artística casada, o que acaba por desencadear uma teia de intrigas entre os quatro envolvidos.
O diretor Mike Nichols trabalha com maestria os quatro personagens, permitindo que possamos vislumbrar todas as suas nuances e entender seus respectivos comportamentos.
Daniel é um aspirante a escritor que se deixa levar pelas emoções e sempre segue seus impulsos, enquanto seu rival, o dermatologista Larry, sabe ser frio e manipulador quando quer, pois se considera “um observador clínico do circo humano”.
Um ponto comum aos dois personagens masculinos é o machismo. O escritor não aceita que sua ex tenha alguém depois dele, enquanto o médico é visivelmente agressivo com as mulheres, apesar de nunca ser violento.
As duas protagonistas femininas são igualmente interessantes: enquanto a fotógrafa busca resistir à sedução do jornalista (sempre cedendo a ela), a stripper ama incondicionalmente seu namorado e se mostra carente em grande parte das sequências, mas sua força acaba surpreendendo ao longo da história.
Um ponto interessante do filme é o fato de que os personagens estão sempre surpreendendo o telespectador, já que muitas vezes agem por impulso, culpa ou até mesmo pena. Ninguém é confiável ou condenável.
Daniel explica a Alice que prefere Ana porque ela não precisa dele, o que mostra uma necessidade própria nossa de sempre buscar quem é indiferente a nós, um desejo inexplicável, como uma mosca em direção a uma lâmpada, sentimento imortalizado no poema de Charles Baudelaire.
O grande trunfo de “Closer” é colocar o sentimento amoroso no microscópio, expondo todo tipo de reações que o mesmo provoca, desde a impulsividade romântica até a vingança mais fria e cruel, tecida com calma para ser degustada lentamente depois. Mostra também como o ser humano acaba traído por suas próprias fraquezas e incertezas, como William Shakespeare tinha provado em tragédias como “Othello” e Mozart através de sua ópera “Così fan tutte” (Assim fazem todas), cujas árias estão incluídas na belíssima trilha sonora.

Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.

sábado, 27 de julho de 2013

Socialismo por Jean Luc Godard

Socialismo
            A ideologia criada por Karl Marx e Friedrich Engels nasceu com um propósito humano, de romper as amarras da exploração promovida pelo capital, proporcionando uma liberdade para fazer suas escolhas de trabalho de acordo com as aptidões de cada um.O fim de preocupações com pagamentos de necessidades básicas permitindo que o ser humano explorase o seu próprio potencial, sem as amarras monetárias.
            A deturpação de seus princípios aconteceu principalmente durante o governo de Joseph Stálin na União Soviética e desde então criou-se um preconceito em torno deste sistema de governo que baseia-se na igualdade de direitos e oportunidades, especialmente financeiras.
            A seguinte película do genial cineasta francês Jean Luc Godard não pretende fazer uma panfletagem sobre o assunto, mas sim exaltar o vazio capitalista da pós-modernidade.
            A narrativa se desenvolve em duas instâncias: um cruzeiro de luxo pelo Mediterrâneo e uma casa perto de um posto de gasolina, onde são discutidos ideais revolucionários.A montagem em forma de mosaico combina os diferentes depoimentos dos passageiros com imagens que traduzem uma mensagem, como o cardume de peixes que sugere a união em torno de um bem comum.
            O barco reflete a ostentação vazia de um sistema que cria um imenso abismo, favorecendo em demasia uma pequena parcela egocêntrica e narcisista.O tema é tratado de forma bastante sutil, fundamentado pelos depoimentos dos passageiros da nau de diferentes nacionalidades e idiomas que debatem sobre os mais variados assuntos.
            O diretor faz uma reflexão sobre a evolução histórica da Europa e seu desbotamento após a Segunda Guerra Mundial, onde recebeu ajuda dos Estados Unidos para se reerguer mas foi culturalmente violada.
            O estilo ensaístico  projeta uma visão poética enquanto lança uma imensa quantidade de informações,ampliando a discussão em torno desta conjuntura.A reflexão sugerida sobre o valor das coisas implica a urgência de revisão das nossas prioridades.
            O ruído ensurdecedor dos caça-níqueis coloridos constrói uma realidade que sobrevive de frustração e falsas esperanças de sucesso.O navio luxuoso que aliena uma minoria dentro de um microcosmo blindado.
             A película trata do abandono dos valores eternos para se deixar consumir pelo impulso de possuir bens materiais, pois são eles que passam a nos definir.Uma sociedade sustentada por idéias artificiais e facilmente digeríveis numa contexto que renega sua constituição histórica.
            Um olhar sobre o continente que empalideceu diante da pós-modernidade,tornando-se a sombra de um lugar que outrora foi palco de gloriosas conquistas. Num certo momento é feita a pergunta: “Quo Vadis,Europa?” (Onde vais,Europa?)
            A distorção promovida pelo dinheiro que exclui e manipula.A moeda gerando um comportamento que promove o fugaz. O ter sublimando o ser.Um universo conectado por variadas tecnologias,porém marcado por vaidade e individualismo.
            A projeção enquanto mosaico tem por objetivo fazer brotar o raciocínio sobre este determinado momento em que nos encontramos.Não pretende ser panfletário,apenas incisivo e sugestivo.
            Em meio ao deserto emocional que espelha nossa conjuntura, o diretor francês procura despertar o seu público para a áspera realidade evitando o maniqueísmo e simplesmente devolvendo a podridão que este sistema corrompido exala.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.
E-mail para contato: gilson.salomao@gmail.com


sexta-feira, 26 de julho de 2013

Quando Nietzsche chorou

Quando Nietzsche chorou
Friedrich Wilhelm Nietzsche foi um dos mais importantes filósofos existencialistas alemães, tendo escrito sobre a necessidade humana de libertar e seguir seus desejos e suas necessidades para encontrar um sentido para a própria existência. Além de um brilhante pensador, era também um homem emocionalmente intenso que tinha seus momentos de conflito e dúvida, analisados nessa belíssima projeção.
Ambientada em 1882 e baseada no livro homônimo de Irvin Yalom, a narrativa acompanha o médico Josef Breuer, que é convencido pela poetisa Lou Salomé a cuidar do filósofo (ainda pouco conhecido na época) que estava sofrendo de uma depressão profunda e pensando em se matar e a culpando por tê-lo rejeitado.
O tratamento seria feito através de conversas, um método inovador na época (que mais tarde seria conhecido como psicanálise), mas ele não poderia saber que estava sendo tratado, caso contrário a experiência não teria sucesso.
A principio, o doutor não se sente à vontade com a idéia, especialmente pelo final desastroso de sua experiência anterior, mas à medida que vai lendo os livros do pensador e conhecendo sua perspectiva do mundo que o rodeia, vai se interessando cada vez mais e compartilhando seus diagnósticos com seu amigo e médico Sigmund Freud, em início de carreira.
O grande empecilho neste complexo processo é que Nietzsche perdeu a habilidade de confiar em outras pessoas, alegando ter sido traído por amigos (especialmente o compositor alemão Richard Wagner) e a mulher por quem tinha se apaixonado. Para obter sucesso no projeto o Dr.Breuer sugere uma troca profissional, oferecendo a cura física do filósofo por uma orientação de seu espírito, eliminando assim suas angústias pessoais.
Sempre objetivo, Josef acredita estar no controle da situação, criando um ardil que irá exercitar o cérebro do “paciente” para analisar o que o motiva, mas não percebe que está sendo desconstruído pela mente do filósofo.
A película é um ensaio poético sobre as aspirações humanas, as metas que traçamos em nossa mente e que podem ou não corresponder aos nossos desejos, fazendo uma leitura da ideologia de Nietzsche e de suas obras, inclusive a mais conhecida delas “Assim Falou Zaratustra”, sobre um homem que, como ele, estava além de seu tempo histórico.
O filme também apresenta aspectos recorrentes na psicanálise freudiana e é interessante perceber como eles vão brotando ao longo da história de uma forma deliciosamente natural e curiosa, como a análise dos sonhos e o Complexo de Édipo. A declaração do jovem Sigmund a respeito do pensador merece destaque: “ele possui tanto conhecimento da natureza humana que talvez ele seja o melhor analista vivo.”.
O cineasta Pinchas Perry consegue construir de forma clara a crescente cumplicidade entre os dois personagens e convidando o espectador a “entrar no jogo” mostrando os pesadelos que assombram o médico e alternando as diferentes opiniões e julgamentos, o que enriquece a leitura do filme.
O elenco traz performances incríveis, destacando a de Armand Assante que consegue interpretar uma mente tão perturbada e complexa como a de Nietzsche sem nunca transformá-lo em alguém exagerado ou caricato e deixando aflorar suas fraquezas e mágoas de forma bastante sutil. Outra menção honrosa vai para Ben Cross, já que a transformação de Josef Breuer é um dos pontos altos da projeção e é impossível não comentar a atuação de Katheryn Winnick, que é importantíssima para que percebamos o quanto Lou Salomé é especial, não só para Nietzsche, mas para todo o contexto histórico em questão, tendo em vista seu pensamento original,feminista e extremamente avançado para a época.
Uma película que demonstra de forma bastante clara que a dor e angústia de algumas pessoas são proporcionais à sua grandeza.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Brilho Eterno de uma mente sem lembranças

Brilho Eterno de uma mente sem lembranças
Todo relacionamento amoroso tem seus altos e baixos, momentos que ficam marcados para sempre e outros cuja lembrança traz somente dor e sofrimento. Quando tudo termina, fica a vontade de limpar tudo e começar do zero com outra pessoa, mas todos sabemos que isso é impossível, especialmente se o grau de envolvimento foi demasiadamente intenso. Este é o tema desta película.
A projeção mostra a trajetória de Joel Barish, que após ser informado que sua namorada Clementine apagou todas as lembranças de seu romance com ele, através de uma empresa chamada Lacuna, resolve fazer o mesmo, tentando esquecer que um dia a conheceu. Tudo parece correr bem, pois as memórias recentes são eliminadas primeiro, mas então chegam os bons momentos, e ele não quer perdê-los. Começa então uma luta, dentro de sua mente, para reverter o procedimento.
Dirigido por Michel Gondry e escrito pelo célebre Charlie Kaufman, o filme trata de um assunto comum a todos: a riqueza de um relacionamento está exatamente em suas glórias e percalços, afinal somos humanos. A experiência, mesmo a cercada de agruras, só vem a nos adicionar e fazer com que busquemos “consertar nossos defeitos”, a fim de melhorar nossa interação da próxima vez.
Um grande romance não pode simplesmente evaporar da noite para o dia, já que ele não foi construído assim. Quando uma relação termina costumamos nos concentrar na fase final, já desgastada, ao invés de procurarmos nos lembrar o que nos atraiu naquela pessoa em especial.
A montagem não-linear é um dos grandes destaques do filme, já que grande parte da história acontece dentro da mente do protagonista, que consegue ouvir os funcionários conversando durante o procedimento, explorando a narrativa de forma criativa e inteligente.
A trilha sonora idílica de Jon Brion também merece menção, dando o tom perfeito para o desenrolar dos eventos.
Interessante perceber como a empresa Lacuna é profissional no dia-a-dia do escritório, mas incrivelmente anti-ética durante a fase de remoção dos pensamentos, revelando surpresas que trarão uma nova perspectiva aos fatos apresentados.
Aplausos para a grande atuação de Jim Carrey, que interpreta um Joel introvertido cujo baixo tom de voz e o hábito de olhar sempre para baixo, escrevendo ou desenhando em seu caderno dizem bastante a respeito de sua personalidade.
O contraponto é brilhantemente ilustrado por Kate Winslet, mostrando uma Clementine impulsiva e extrovertida, mas ao mesmo tempo insegura, vulnerável e depressiva. As constantes mudanças de cor do seu cabelo revelam sua essência imprevisível e constante necessidade de aprovação.
“Brilho eterno de uma mente sem lembranças” ilustra de forma divertida e original o início e o fim de um relacionamento, um olhar maduro sobre a vida a dois e a necessidade de cicatrizes emocionais, por mais que elas doam, já que trazem consigo a nostalgia lembrando o quanto valeu a pena.

sábado, 20 de julho de 2013

Relato de uma marginalidade atávica

Relato de uma marginalidade atávica

No dia 15 de agosto de 2008 foi celebrado o centenário da morte de Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha, um dos grandes nomes da literatura brasileira além de sociólogo, repórter jornalístico, historiador e engenheiro.
Dentre as suas realizações, a obra Os sertões é sem dúvida a mais memorável e que o tornou internacionalmente famoso. Um livro que se estende além de qualquer categorização óbvia, podendo ser compreendido como um tratado científico sobre o solo e o povo nordestino ao mesmo tempo em que relata a luta pela sobrevivência de uma cultura intimamente ligada ao período medieval lusitano sob o domínio dos mouros.
Antônio Conselheiro, o líder da Guerra de Canudos relatada no livro era sebastianista, acreditando no retorno do rei português D. Sebastião, morto na batalha de Alcácer-Quibir contra os invasores mouros em 1578.
Este movimento é uma forma tradicional lusitana de expressar o seu descontentamento com o sistema político vigente, ligada de maneira visceral ao arcabouço místico que configura o caráter da nação sertanista.
A história deste livro tem início quando o autor foi convidado pelo jornal O Estado de São Paulo para fazer a cobertura do final do conflito como correspondente de guerra.
Sua angulação, a princípio republicana percebia os revoltosos como monarquistas que buscavam a restauração deste regime no Brasil. Termina sofrendo um verdadeiro choque que provocará a ruptura com todas as suas teorias anteriores.
Euclides entra em contato com uma realidade completamente diferente daquela que havia previsto: um povo castanho e sofrido sobrevivendo no interior, diferente do litoral economicamente mais avançado. Essa disparidade se mantém até os dias atuais, o que reforça a atualidade e o valor desta obra-prima da literatura brasileira.
O livro divide-se em três partes: A terra, O homem e A luta. A primeira é um estudo aprofundado do relevo, solo, fauna, flora e clima. Insere ainda um comentário sobre o impacto da seca na região. Na segunda ele disserta sobre as crenças e costumes do sertanejo e como ele é intensamente afetado pelas características peculiares do local onde reside.
O terceiro trecho narra o que aconteceu durante as quatro expedições que foram enviadas para o arraial de Canudos. O texto descreve com riqueza de detalhes os embates entre os jagunços e os soldados. O autor deixou a zona de guerra quatro dias antes do seu desfecho, chocado com a repressão violenta dos militares.
Os sertões é o retrato de uma nação esquecida e embebida de uma nacionalidade intimamente ligada às suas raízes civilizatórias, reduto da ancestralidade brasileira. Um texto emocionado e poético sobre o encontro com todos os elementos que contribuíram para definir esta raça tão heróica e fiel aos seus princípios.
Um manifesto sobre a condição violenta e amargurada de um povo que sobrevive utilizando um código de valores que os define enquanto representantes de uma essência recôndita que dialoga com o perfil de nossa tradição cultural.
Esta obra sensibilizou a população para que olhasse com mais carinho aquela região que enfrenta uma série de dificuldades, sendo extremamente importante na formação social brasileira.
Euclides da Cunha escreveu também outro importante livro publicado postumamente intitulado À Margem da História, sobre sua viagem ao Alto Purus (rio localizado no Acre) com o objetivo de ajudar na demarcação da fronteira entre o Brasil e o Peru.
Um artista que sempre foi em busca da composição de um painel que melhor espelhasse o potencial presente nas áreas que ocasionalmente recebem pouca atenção, mas que melhor representam a nossa configuração antropológica.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.

domingo, 14 de julho de 2013

Mente à deriva num oceano em fúria


Mente à deriva num oceano em fúria
O pintor romântico Joseph Mallord William Turner nasceu em Londres no dia 23 de abril de 1775. Desde jovem era fascinado pelo rio próximo à sua casa. O Tâmisa com suas variações do jogo de luz em suas águas inquietas, a neblina galgando solene as velas e envolvendo os barcos, assim como toda a atmosfera portuária eram cenas que marcariam toda a sua vida e obra.
Seu figurino era um tanto desleixado,optando sempre por roupas simples. Era, sobretudo um homem introspectivo, seco, reservando a poucos seu lado mais afetuoso. Seus métodos de trabalho são um mistério até hoje, pois ele era bastante recluso.
Estudava com afinco os grandes mestres, enxergando neles um modelo a ser seguido e posteriormente superado. Acreditava no desafio enquanto motivação para continuar sempre melhorando sua arte. Além disso, a competição fazia parte de sua natureza.
Desde cedo não teve nenhuma formação artística específica. Entretanto, sua dedicação e principalmente seu inquestionável talento, foram suficientes para qualificá-lo a ingressar, aos 14 anos, no curso livre da Academia Real inglesa. Foi o mais jovem integrante da instituição, em toda a sua história, tornando-se membro vitalício aos 26.
Depois de conhecer a Itália, especialmente Veneza, onde ficou deveras impressionado com a arte, história e iluminação natural, Turner se comprometeu a retratar uma leitura peculiar do imenso potencial inserido na luminosidade.
Nenhum artista antes dele se dedicou tão avidamente a tratar a luz enquanto pura cor e por conta disso alguns o consideram um dos precursores do Impressionismo (movimento artístico onde as pinturas registravam as tonalidades que os objetos adquirem ao refletir a luz solar num determinado momento).
Em suas telas é perceptível a sua devoção pelo oceano, muitas vezes revolto enquanto baila com os raios solares ou lunares. Ilustrou com maestria a essência épica desses elementos. Imagens que evocam a paixão inconstante que pulsava dentro dele, espelho da majestade indomável que assombrava sua consciência.
O barco entregue aos desejos do mar enquanto banhado pela luz ancestral do sol e embalado pelo carinho maternal do luar.
A alvorada e o crepúsculo enquanto ícones do eterno ciclo de vida e morte que paira sobre a imprevisibilidade existencial, representada nos quadros pela água dos rios e mares. A indefinição mítica enquanto espelho revelador da alma humana.
Morreu no dia 19 de dezembro de 1851, em seu quarto, observando o rio que tanto o cativou na infância. Após meses desaparecido, foi descoberto muito doente por sua empregada. Em seu testamento, Turner deixava para sua nação cerca de trezentos quadros a óleo e aproximadamente 20.000 aquarelas, pedindo que fossem alojados numa galeria especial.
Também determinava que sua fortuna — somando 140.000 libras — fosse destinada a uma instituição que atendesse artistas ingleses necessitados. Mas suas solicitações não foram atendidas.
            Um artista extremamente apaixonado pelas poéticas paisagens que concebia, deixando claro em suas telas o desejo de transcender e fundir-se com elas,inebriado pela luz revigorante que projeta a esperança de chegar a um porto seguro após a tempestade.
            Sua admiração pelas forças da natureza projeta a eterna busca pela essência majestosa que impera sobre a nossa insignificante arrogância.

Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.

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