sábado, 31 de agosto de 2013

Arrested Development



Arrested Development
A escritora May Sarton afirmou certa vez que “As Nações Unidas são brincadeira de criança se comparadas às lutas, malabarismos e necessidade de compreensão e perdão em qualquer família.” Um ambiente onde todos te conhecem melhor do que você mesmo e é fundamentado por um profundo sentimento de amor e ódio.
Por se tratar de um território emocional e psicologicamente riquíssimo, ele tem sido bastante explorado pelo cinema, literatura e televisão ao longo dos anos. As motivações, maquinações e intrigas são as mais variadas, desencadeando comportamentos inesperados e muitas vezes absurdos.
A série de comédia em questão, criada em 2003 por  Mitchell Hurwitz e cancelada em 2006, ganhou uma quarta temporada este ano que atualmente está disponível somente no Netflix.
O que a diferencia de todas as outras deste gênero é a sua narrativa singular e direta. Cada episódio começa exatamente onde o anterior terminou, dando a impressão de que estamos acompanhando uma história. Exibida como se fosse um documentário, ela é narrada e comentada em off pelo cineasta Ron Howard.
A história gira em torno da família Bluth, famosa pela sua empreiteira que lhes rendeu bastante dinheiro e posição social ao longo dos anos. Quando o patriarca vai preso por acusações de fraude, cabe ao filho do meio Michael, que é o único com bom senso, tentar colocar a casa em ordem ajudando seu pai a sair da cadeia e acertando as contas da empresa.
O grande problema é que sua mãe e seus irmãos continuaram com a vida de excessos a que estão acostumados, pois nunca se envolveram nos negócios da empresa e só queriam saber do dinheiro caindo em suas contas correntes. Além disso, viviam isolados uns dos outros sem manter contato entre si, pois não se suportam. Essa situação de crise subitamente os força a viver novamente sob o mesmo teto, trazendo todo tipo de ressentimentos à tona.
O roteiro constrói com eficiência as diferentes personalidades dos familiares, de modo que compreendemos seu comportamento muitas vezes estranho e exagerado. A irmã do meio Lindsay é uma dondoca dividida entre sua vontade de ser filantrópica e o amor ao luxo que só o dinheiro proporciona. Nesse sentido é mais parecida com a mãe do que gostaria de admitir.
O irmão mais velho G.O.B (George Oscar Bluth) é um aspirante a ilusionista, o que na verdade reflete o seu desejo por atenção, especialmente de Michael e seu pai. O caçula Buster viveu sempre sob os cuidados da mãe super protetora e acabou desenvolvendo uma personalidade frágil, incestuosa e instável.
Vale acrescentar que o seriado apresenta na verdade duas gerações da família, já que os dois irmãos do meio foram os únicos a se casar e ter filhos. O filho do viúvo é extremamente manipulado por seu pai enquanto sua prima é criada com significante descaso pela mãe egocêntrica e o pai, um psicólogo que abandona sua profissão para seguir seu desejo de atuar, mesmo que fique só na vontade. Isso sem contar os vários personagens icônicos como o advogado Bob Loblaw e o mágico Tony Wonder, dentre outros.
Criativa, inteligente, imprevisível, tragicômica e acima de tudo hilária, essa série sempre foi sucesso de crítica, mas não de público em função de sua montagem não convencional, embora tenha conservado o carinho dos fãs desde que tinha sido cancelada. Agora que ganhou sobrevida, o desejo de acompanhar as desventuras da família Bluth só faz aumentar.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.
Contato por e-mail: gilson.salomao@gmail.com

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

A ICONOCLASTIA DESCARNADA

A ICONOCLASTIA DESCARNADA

Lendas pairam sobre a imaginação de um desenhista. Disseram-me enxergarem jovens Iaras nuas de cabelos presos onde só existiam jardins de roseiras tentando espreitar a rua ao sabor do vento Oeste. Raptavam tristezas a pino no meio-dia dos vilarejos medievais da gravura e a infância capciosa de uma sebe de meninos-príncipes normandos em torno da sífide.
Poty foi um daqueles poucos cujo traço se quis além da mera apreensão. Maior desenhista da literatura brasileira, suas gravuras ilustram obras de Gilberto Freyre, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Rachel de Quieroz, José Américo de Almeida, Manoel de Barros, Mário Palmério e vários outros.
Seus trabalhos tornaram-se insígnias, equivalentes imagético-gráficos das gerações de escritores de 30 e 45 das letras nacionais. Como elas, Poty foi uma antecipação. Um vagido original e originário. Pura bulemia descivilizatória.
Seu traço, entre o refugo e o grandioso, onde “o pobre diabo é colosso”, repercute desde o desespero classicista em Doré, a malemolência, num misto de morbidez e sensualidade, com que Pierre Chalitta verteu em corpos de um elã sifílico o spleen póstumo baudelairiano até a curva lacrimosa em Rodin.
Guimarães Rosa, ao ver as ilustrações que figurariam em Sagarana, também passou a chamar esta coletânea de contos que se tornaria um marco da literatura do oeste de Potyrana, tal foi a impressão causada.
Rosa, sabedor de primordialidades, reconheceu em Poty algo de uterino. Primeiras imagens. Como o gênio de Cordisburgo, Poty era mestre em só deixar rastros: nossas lendas inaugurais em círculos iniciáticos, cabalísticos como as medalhas de Salomão do chapéu do cangaceiro.

O SOL


Axiais insuportabilidades traça o nanquim na passividade do papel quando  o sol nasce no sertão da página. O sol em Poty será o signo dos préstimos fatalistas da seca.
Clarador vivificante, algoz cristalino. Os corpos estão doentes de um tirano luminescente. Nos corpos e não nas paisagens está a pretensa esterillidade do solo, suas rachaduras que são mares imóveis: a eternidade do oceano é diferente da eternidade da canícula.
Esqueletos são apenas sugestionados num escândalo por trás da pele. O mutante surge em arquiteturas toscas. Membros num robotismo forçado, cáustico e enrijecedor . Ossos levemente mostrados. Também de pseudo-esconderigios se constrói uma calculada experiência de choque.
O estômago vazio é a regra marcial nesse inferno à superfície. Em Poty o sol fabrica no homem um autocanibalismo: o estômago devora, vagaroso, o corpo.
Num sistema de inversões que somente a insígnia pode levar a cabo, aquele sol real evitado pela retina agora a força, espiralado que está, a um pasmo hipnotismo. A introspecção imagética da fome. O homem prenhe de faltas. Gabiru.
O homem é o cerne das preocupações. No homem até mesmo as forças naturais. Assim os séculos desenham nas faces vincadas do Curiboca a luta dos ventos e o bafio da terra dos montões oestes refringente nos ocasos, mais próximo das lufadas de um incêndio que do hálito benfazejo de uma divindade.
Onde estiver o parágrafo cortante de Rachel de Queiroz, lá estará o desgrenho dos cabelos da retirante. O desespero flagrado de quem leva as mãos à cabeça. Pietá ? Inversão e proximidade. O resto é a revoada de acauãs.
O sol será pois para o homem essa lanterna holística, metaforizando nele um cortejo de tragédias sazonais.

A FIGURA FEMININA


A beleza da mulher em Poty conta histórias de um outro tempo. Do rosto ovalado surgirá a morena onírica, buscada em uma Lusitânia liricamente dividida entre uma África acenando com misticismo sexual e  uma Europa cristã mortalmente ferida pelo horror à nudez.
De acordo com Gilberto Freyre, no longo contato mantido entre sarracenos e europeus em Portugal reside a idealização da mulher de cor entre nós, cujo ancestral legendário é a “moura encantada, espécie deliciosa de mulher morena” a se banhar nas fontes assombradas, penteando os cabelos.
Imagine-se o instante flagrante do português diante de cunhãs e cunhatãs em tudo próximas à moura encantada e a relação torna-se inevitável. As consequências, todos não só as conhecemos como somos frugais provas dessa primeira troca de sabores.
Numa única gravura de mulher lá estão Assurbanipal e Patativa do Assaré, Constantino e Capiba na íris anoitecente da cabocla.
Carregando essa ancestralidade nos corpos, as potyranas pertencerão àquela linhagem de mulheres que mais se assemelham a Grandes-Mães, raça diadorínica em cujos ventre campeia há séculos o mundo guerrilheiro-mítico de jagunços e vaqueiros, de Riobaldo a Jesuíno Brilhante.
Transmutaram-se sibilinamente potyranas as mais fortes personagens de nossa literatura, como as melancólicas Luísas do Dente de Ouro, de Menotti Dell Pichia e de Caetés, de Graciliano Ramos, gradações da beleza armorial da donzela Teodora, trazida do medievo luso para as imaginações sertanejas.
Languidez e calor. Florbela Espanca. Vem de longe esse frêmito abandonado. O rosto lacrimóide é a ponte entre o Alentejo, Oyo e Pindorama.

A SAUDADE


       Jorge de Lima, em Calabar, afirma devermos aos portugueses esta inconteste alegria de ser triste. Há várias maneiras de se encontrar um como  gozo na melancolia. Uma delas é a máxima sublimação do resquício a que chamamos saudade, a recordação em estado de fetiche.
         A saudade nos expulsa de nós mesmos (colhido em Ingmar Bergman, Morangos Silvestres).
         Esse será o móvel do grande ilustrador. Se o poeta é, por definição alguém que não consegue superar a infância, estará o desenhista condenado ao ostracismo nos quintais. A mística da infância corroerá seus temas até que a mão comece a tremer e os ícones também envelheçam, como em Charles M Schultz.
         Em Poty a saudade transbordará desses atributos pessoais. Até mesmo as construções parecerão recordar seus antigos moradores. Será uma forma de rebelião vestigial.
         A casa-fortaleza do Coronel Ferrabraz, o momento em que a noite invade a “tapera nhã” do vaqueiro, as luzes lamparinescas em intermitências rubras numa madrugada lugarejal, portais de angico de casas abandonadas, o tempo vencendo a cal nos rodapés, as avncas vermelhas que as Janaínas não mais carregarão nos cabelos.
         Reminiscências imagéticas em potencial porque parte de um mundo em desaparecimento. E não serão os maiores monumentos dos povos na verdade grandes homenagens a objetos de saudade?
         Se o próximo representante brasileiro de um tipo de arquitetura superior, aquela engajada em projeções históricas e civilizatórias, olhar em volta para procurar temas para reinventar a história em seu cenário íntimo, basta que ele se detenha em dois tipos de imagem: a das casas populares das pequenas cidades e as ilustrações de uma determinada linhagem de livros.
         Estará inaugurada a posteridade potyrana.
        
        


O carteiro e o poeta

O carteiro e o poeta
Muito se comenta sobre a aura do poeta, constantemente colocado num pedestal e quase sempre incompreendido. Geralmente a reação geral é manter um distanciamento respeitoso, pois sua percepção do mundo nos obriga a fazer uma pausa e nos dias atuais o tempo parece escorrer pelos dedos. A seguinte película demonstra o efeito da mensagem poética quando ela encontra alguém predisposto a recebê-la.
Baseado em livro de Antonio Skármeta, acompanha a trajetória de Mario Ruoppolo, um filho de pescador em uma pequena ilha italiana que consegue o emprego de carteiro exclusivo do poeta chileno Pablo Neruda, residindo temporariamente na região e exilado de seu país pelo ditador Pinochet.
Com o passar do tempo, uma amizade cresce entre eles, bem como a percepção do carteiro que vai se apurando cada vez mais. A princípio, ele enxerga o poeta como alguém que tem o poder de atrair várias mulheres e seu interesse imediato é desenvolver essa habilidade, mas vai percebendo que se trata de algo maior, mais complexo e profundo.
A convivência com Neruda faz com que Mario fique mais atento às belezas naturais de sua ilha e perceba com nitidez a exploração dos pescadores, especialmente pelo Sr. Di Cosimo que usa o fornecimento de água para exercer influência política no humilde vilarejo.
A projeção é uma grande homenagem à obra de Neruda, ilustrando seu lado lírico-amoroso, dedicado à esposa Matilde e expõe a importância de sua influência político-social sobre as massas, sensibilizando a respeito da opressão das classes dominantes.
O filme aponta também que a poesia não é um processo mecânico, deve brotar do interior, exigindo um olhar carinhoso e sensível da realidade ao seu redor. Ensina que uma leitura aprofundada dos versos pede receptividade por parte do leitor e seu impacto pode reverter para uma leitura mais humanista do ambiente, o que por sua vez acarreta um engajamento nas causas sociais. O amor aos pequenos detalhes na pessoa que amamos se revela uma outra conseqüência.
Como em “Imensidão Azul”, a trilha sonora e a fotografia espetaculares são um grande atrativo e criam a ambientação necessária para que o espectador seja absorvido pela poesia das imagens. A seqüência onde Neruda e Matilda dançam ao som de Madresselva, cantada por Carlos Gardel, é inebriante.
Os atores merecem uma menção honrosa por seu belíssimo trabalho nessa película, especialmente Massimo Troisi que faleceu pouco após o término das filmagens. Seu Mario cativa o público logo nas primeiras seqüências, com seu olhar sonhador e seu sorriso tímido. Philippe Noiret, além de sua espantosa semelhança física com Neruda traz uma interpretação inspirada do mestre.
Trazendo um sopro perfumado no atual contexto tão direcionado para a funcionalidade prática, este libelo acompanha o tratamento artesanal das palavras, onde é preciso deixar os versos brotarem visceralmente para que a essência da mensagem seja intensificada. Um filme sobre a transcendência e o poder transformador da linguagem poética, seja ela na forma de som, texto ou imagens.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.



segunda-feira, 26 de agosto de 2013

O tempero da vida

O tempero da vida
A culinária é uma arte muitas vezes subestimada por estar associada ao cotidiano e às funções básicas humanas. A grande maioria come sem prestar atenção na textura e no sabor do que está sendo ingerido.
Para saborear propriamente um alimento é necessário o uso dos cinco sentidos e isso se aplica de muitas formas ao relacionamento amoroso. Vários filmes fundamentaram-se nessa premissa, dentre eles “A festa de Babette”, “Como água para chocolate” e a película em questão.
            A narrativa acompanha o astrônomo Fanis, cuja paixão pela cozinha o acompanha desde cedo, criando desde cedo um intenso laço emocional com seu avô, dono de uma loja de temperos em Istambul.
A história tem início quando o protagonista, professor em uma universidade na Grécia recebe a notícia de que a doença de seu mentor encontra-se em estágio bastante avançado. Ele decide retornar ao local onde passou a infância aprendendo a arte de combinar diferentes paladares para alcançar sensações inéditas no comportamento das pessoas. Foi também nessa época que ele conheceu o grande amor de sua vida, a bela Saime, com que dividia os ensinamentos do mestre.
Dividida em três atos, cada qual com o nome de um estágio da refeição (Aperitivos, Prato Principal e Sobremesa), a estrutura do filme conta de forma detalhada a trajetória do personagem principal, os empecilhos emocionais e sociais que foi forçado a enfrentar, já que foi separado precocemente de sua amada e de seu tutor, além de lutar com a incompreensão de seus pais que temiam pela inadequação social do garoto.
A projeção trabalha com carinho o tema, relacionando a culinária com vários aspectos e nuances do comportamento humano e do cosmos. A seqüência em que cada condimento é ligado a um planeta é interessantíssima.
A linguagem poética das imagens apresentadas trata das diferentes combinações de sabores que equivalem num sentido metafórico à composição da identidade de cada um.
A película expõe de forma bem humorada como o Oriente foi apresentado às novidades tecnológicas como a panela de pressão e o liquidificador. O contraste entre o milenar e o moderno nessa área é fantástico e poucas vezes foi retratado de forma tão inteligente.
O contexto político contribui para conferir maior complexidade à história e inserir um comentário sobre como as diferenças religiosas terminam separando famílias derivadas de diferentes ancestralidades.
A relação da comida com sua tradição, história e folclore é descrita de forma fluida e contribui para a construção do caráter do personagens. A frase do teórico Câmara Cascudo “Você é o que você come” encaixa-se perfeitamente no tema proposto.
Analisando de forma criativa e ímpar a essência comportamental a partir de um paralelo com os diferentes paladares existentes, o diretor argumenta que a riqueza de nossa identidade vem das diferentes emoções que nos integram e constroem.
  Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.




quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Luzes da Ribalta



Luzes da Ribalta
            Charles Chaplin construiu uma obra icônica ao longo dos anos, tendo sofrido com a passagem do cinema mudo para o falado (já que tinha um carinho especial pela linguagem antiga). Apesar disso fez filmes belíssimos, transformando o outrora rival em aliado, como é o caso da projeção a seguir.
            Ambientada na Londres de 1914, a narrativa conta a história do Sr. Calvero, um comediante famoso em fase de decadência que, depois de salvar uma mulher do suicídio na pensão onde mora, passa a morar com ela por uns tempos, pois o quarto onde a mesma se hospedava foi alugado dias depois do ocorrido.
Nasce então um relacionamento platônico entre a bailarina Theresa com reumatismo nas articulações e o palhaço trágico que perdeu seu público. Enquanto ela é deprimida, já que desistiu de lutar e aceitou sua condição, ele se mostra resignado e otimista, acreditando que a vida é um desejo, não um sentido e que ela precisa lutar para alcançar aquilo em que acredita.
A nova situação faz bem a ambos, pois ao encorajar a garota ele volta a acreditar em si mesmo, chegando a abandonar o alcoolismo (pelo menos até encarar o fracasso durante sua primeira reapresentação usando um pseudônimo).
Ela mente para si mesmo dizendo que o ama e ele sabe disso. Sua condição de homem mais velho quer acreditar um pouco nesta ilusão, mas isso também o deprime porque sabe que ela está dizendo isso por pena dele.
O cineasta faz uma bela homenagem a uma forma de espetáculo que aos poucos foi sendo abandonada em função da mudança de consciência após a Primeira Guerra.
O filme é sincrético, usando elementos da commedia dell'arte como arlequins e colombinas, números de comédia e musicais, além de belíssimas seqüências de ballet aproveitando-se de forma magistral do jogo de sombras próprio da textura em preto e branco.
Mais uma vez temos a figura do Pagliacci, que esconde sua dor nos risos que provoca e Chaplin o interpreta de forma genial como sempre. Chamo a atenção para uma cena antológica onde ele faz uma dobradinha com ninguém menos que Buster Keaton (outro gênio da pantomima) interpretando seu parceiro num número de comédia envolvendo um piano e um violino.
Tendo escrito, dirigido e composto as músicas do filme, ele faz referências inúmeras ao Carlitos, um de seus personagens mais famosos além criar um libelo sobre uma geração esquecida que precisou ser sacrificada para que uma outra mais jovem pudesse aflorar.
Não há como não perceber os elementos autobiográficos presentes na projeção, pois na época o cineasta estava perdendo público em função de seu filme anterior “Monsieur Verdoux”, uma ousada comédia de humor negro. Além disso, o final não deixa dúvidas de que a película em questão é o seu “Canto do Cisne”, sua última grande performance antes da cortina descer definitivamente.
O cineasta italiano Bernardo Bertolucci afirmou que a beleza poética deste filme é tamanha que é impossível não verter algumas lágrimas ao final do mesmo. Não há como definir melhor a experiência de assistir a essa obra-prima.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Annie Hall



Annie Hall
A complexidade das relações humanas, especialmente as amorosas é um mistério constantemente renovado e que dificilmente é decifrado.No caso da seguinte película, o diretor Woody Allen chegou a uma teoria interessante.
Narrando a trajetória do romance entre Alvy Singer e Annie Hall, desde o primeiro encontro na varanda da casa dela (a seqüência em que os pensamentos inconscientes são revelados é um dos pontos altos da projeção) até seu término, por razões variadas, dentre elas o esgotamento emocional, as etapas da convivência do casal vão sendo gradualmente expostas até o derradeiro fim, com todas implicações e dúvidas que tem direito.
A montagem é um dos grandes destaques do filme, onde os protagonistas “trafegam” por momentos do passado e comentam suas atitudes naquela época, chegando mesmo a interagir com os envolvidos no incidente, gerando cenas hilárias.É legal notar também que o personagem principal está quase sempre conversando com a câmera, estabelecendo um laço de intimidade e cumplicidade com o expectador, o que acaba mascarando seus defeitos em alguns casos, já que enxergamos os fatos através do seu ponto de vista.
Alvy é um típico personagem do diretor Woody Allen: neurótico, obsessivo, meticuloso e que sente necessidade de controlar a relação, o que pode ser percebido pelo fato de ele “forçar” sua namorada a ler determinados livros,fazer determinados cursos e até fazer análise. Está sempre buscando racionalizar tudo e quase sempre enxerga as pessoas através de estereótipos, o que reforça sua necessidade de criar uma “zona de conforto” ao seu redor.
Allen faz praticamente uma sessão de análise, fazendo leituras de memórias de infância de Alvy, seu relacionamento com carreira, família e mulheres,tentando entender o comportamento do sofrido comediante.
É curioso notar o contraponto entre o protagonista e seu amigo Max, um ator que reflete a mentalidade da costa oeste americana: desencanado e mulherengo, vive dizendo que a solução de tudo está na Califórnia.
Neste ponto ressalto a crítica do cineasta à Hollywood e todo seu perímetro, mostrando as festas, o alto consumo de drogas, sexo com menores de idade, além do cretino processo de edição dos programas de TV, onde gargalhadas e palmas são inseridas mecanicamente.
A acidez de Allen também se estende à elite pseudo-intelectual de Nova York (assim como Charlie Kaufman), mostrando os mesmos como pedantes e emocionalmente distantes, mais preocupados em debater temas (e se sentindo o máximo quanto a isso!) do que apreciar os prazeres simples da vida.
Annie Hall é uma companheira interessante para Alvy, já que ela simboliza tudo o que ele não é: aberta à novas experiências, sempre carinhosa e educada, trabalha como atriz, fotógrafa e seu grande sonho é tornar-se uma cantora famosa.
Um faz bem ao outro, pois ele a impulsiona a correr atrás de seu sonho enquanto ela faz com que ele relaxe e passe a aproveitar melhor os momentos, percebendo e fruindo os pequenos detalhes que são tão importantes numa relação amorosa.
O monólogo final resume nosso sentimento em relação a essa busca pela outra pessoa que nos complete: é um caminho louco, distorcido e quase sempre sofrido, mas não conseguimos imaginar nossa vida sem ele.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Julie e Julia

Julie e Julia
A culinária é uma arte que exige extrema dedicação e carinho.  Não basta dominar a técnica, é preciso compreender como os ingredientes se relacionam e como cada um contribui para a composição do prato.
            É importante ainda ter consciência de que cozinhar deve ser sempre prazeroso.Criar ou seguir uma receita demanda uma entrega ao sabor dos alimentos, acompanhar  a sua dança enquanto eles se fundem numa combinação única e especial.
            Baseada no livro homônimo de Julie Powell, a narrativa desta película acompanha a trajetória da autora desta obra, uma mulher insatisfeita com seu emprego burocrático em uma agência do governo americano (criada para lidar com os parentes das vítimas do 11 de Setembro) que resolve fazer todas as 500 receitas descritas em “Dominando a Arte da Cozinha Francesa” durante um ano e documentando todo o processo em um blog, como uma espécie de terapia que a ajudará a encontrar sua verdadeira vocação e identidade.
            As instruções seguidas à risca pela moça foram escritas pela notória Julia Child no final da década de 40 na França, enquanto ela acompanhava o esposo que na época trabalhava como embaixador dos Estados Unidos.
            A projeção mostra a jornada dessas duas mulheres, que mesmo vivendo em diferentes contextos tinham muito em comum, como o apoio incondicional de seus maridos e uma enorme paixão pela comida, além das críticas dos pais e uma constante frustração com o mercado editorial.
            A montagem da diretora Nora Ephron é eficiente mostrando de forma alternada a ascensão das cozinheiras, traçando um paralelo entre elas. A delicada química dos ingredientes estabelece um diálogo e cria uma interessante conexão que ultrapassa a sala de jantar.
            Vale apontar que enquanto uma vai gradativamente transformando-se em uma “celebridade virtual” a outra vai ganhando espaço numa escola de culinária, território até então ocupado exclusivamente pelo gênero masculino.
            Interessante comentar também que Julie tem uma séria tendência a dramatizar grande parte dos eventos de sua vida enquanto sua mentora possui uma postura quase sempre positiva, mesmo diante dos piores obstáculos.
            A diretora ilustra ainda o curioso contraste entre os dois cotidianos. Julia busca uma ocupação para escapar do tédio enquanto sua admiradora precisa manter seu emprego diário para colaborar no orçamento da casa.
            A disparidade de tempos históricos contribui para destacar o valor da obra daquela que tornou a encantadora culinária francesa acessível para o público americano, o que causou uma verdadeira revolução no paladar daqueles que verdadeiramente apreciam a boa cozinha.
            O elenco traz as excelentes performances de Meryl Streep,
Amy Adams e Stanley Tucci, entre outros nessa cativante história sobre duas mulheres que enxergaram na comida o caminho para sua realização profissional e espiritual.
            Um filme sobre como paladar pode inspirar a alma, transcendendo tempo e espaço enquanto cria um canal de comunicação entre duas pessoas que compartilham uma só sintonia.

Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.
Email para contato: gilson.salomao@gmail.com


segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Camille Claudel




Camille Claudel 



A seqüência inicial desta película diz muito a respeito de sua protagonista, que por sua vez se encontra em uma vala em Paris, tarde da noite, em meio à neve espessa, pegando barro verde para sua escultura. O ano é 1885.
Extremamente dedicada à sua obra, Camille Claudel busca a orientação de Auguste Rodin, escultor famoso na época e conhecido até hoje por sua estátua do pensador (um homem sentado com o queixo apoiado nas costas da mão). Este por sua vez logo percebe o talento dela e a acolhe como assistente.
Eventualmente acabam se tornando amantes, o que traz uma série de complicações, já que Rodin é casado. Além disso o romance não recebe a aprovação de seu pai (que acredita que ela está se anulando para viver à sombra do amante) e nem de seu irmão, o poeta simbolista Paul Claudel, com quem ela tem uma relação quase incestuosa.
Apesar de tudo o enlace beneficia o casal. Camille aprimora suas técnicas e ganha prestígio, enquanto o escultor redescobre sua paixão pela arte, uma vez que estava muito preso à forma e deixando a essência em segundo plano.
O diretor Bruno Nuytten ilustra com maestria o duelo de estilos. Ela é delicada e passional, se entrega de corpo e alma à sua obra (reparem na cena onde ela escolhe um bloco de mármore para esculpir, acariciando as pedras, até finalmente se decidir pela de consistência mais frágil), sem medo de se arriscar. Seus temas ilustram dor e agonia, a frustração perfumada de beleza. Modela com o coração.
Rodin por sua vez procura ser mais seguro em relação às suas obras, optando por referências neoclássicas, exaltando na maioria das vezes os belos contornos do corpo feminino, já que era mulherófilo.
Neste ponto quero destacar as excelentes atuações de Isabelle Adjani, que mostra uma artista segura de seu valor e disposta a se entregar por sua arte e seu amante. Gerard Depardieu por sua vez exibe um Rodin que tem um carinho imenso pela técnica, confiando mais nas mãos que nos olhos,entretanto dividido entre a opinião pública e seu amor por Camille.
É interessante também notar, ao longo da narrativa, as várias referências históricas apresentadas, tais como a construção da Torre Eiffel em 1889 para as celebrações do centenário da Revolução Francesa, o impacto da morte do escritor Victor Hugo, especialmente nas camadas mais populares e a briga entre os artistas e os fotógrafos que começavam a surgir na época.
Poético e emocionalmente intenso,“Camille Claudel” discursa sobre o compromisso do artista com sua obra, a relação de amor, entrega e cumplicidade e o medo de que a idéia se dissipe no ar, remetendo à dialética do esgrimista do ensaísta alemão Walter Benjamin, onde o artista precisa se esquivar das armadilhas do mercado enquanto luta para que a inspiração não lhe escape.
Ao final da película a artista, como o poeta Baudelaire, ao lado dos pintores Van Gogh e Toulouse Lautrec, acaba corroída por dentro, já que sua alma era pura e passional demais para a Paris Moderna que emergia no final do século XIX. Uma escultora que fez a dor pulsar de forma única nas obras que esculpiu e seu canto agridoce ecoa em sua arte até os dias atuais.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.



sábado, 17 de agosto de 2013

Antes do pôr do sol



Antes do pôr do sol
Jesse e Celine se encontraram num trem e passaram uma noite romântica em Viena. Nove anos depois se reencontram em uma livraria em Paris, onde ele escreveu um livro sobre esta experiência.
            A história é contada em tempo real, ou seja, o tempo do filme equivale ao pouco tempo que ele tem antes de ir para o aeroporto.
Enquanto o casal anda pelas ruas da cidade, comentam sobre o que fizeram durante o tempo em que estiveram separados e o rumo que suas vidas tomaram. Ele é um escritor e ela trabalha para uma organização de proteção ao meio-ambiente.
Vários assuntos surgem, desde política internacional a existencialismo e romance no contexto pós-moderno.Nesse ponto o filme mostra como estamos constantemente preocupados em seguir uma carreira e garantir um futuro e acabamos não apreciando o presente e a beleza em cada pequeno detalhe da vida.
Jesse é romântico e otimista enquanto Celine é mais realista e melancólica.O diálogo é interessantíssimo, politizado e nos leva a pensar sobre os vários tópicos abordados, como se o telespectador estivesse acompanhando e curtindo a caminhada com o casal.
O diretor Richard Linklater conduz a trama com suavidade, através de uma fotografia fascinante (Paris durante o crepúsculo _ precisa dizer mais?) e uma trilha sonora belíssima.
Os atores retratam com brilhantismo o amadurecimento dos personagens, realçando algo muito comum, que é o fato de querer ter ontem o amadurecimento de hoje, apesar de reconhecer que foi graças aos percalços e desencontros no passado que obtivemos o crescimento emocional e espiritual.
É interessante notar a progressão da conversa, onde podemos perceber os antigos sentimentos subindo a tona, mostrando que apesar de seguirem diferentes rumos, ambos nunca conseguiram superar a noite em Viena, aquela ocasião especial em que eles realmente se entregaram.
Nesse aspecto o filme aponta para algo muito comum em nossa vida e que vale um comentário: qual é o peso das pequenas concessões que fazemos ao longo da vida, em nome de uma boa convivência social?Enterrar o peso de nossas decisões é mais seguro, mas até que ponto elas trouxeram alguma forma de realização?
Outro ponto a ser mencionado é a angústia de que Jesse fala no filme. Somos escravos de um desejo infindo, mas precisamos dele. Assim que saciamos nossa vontade, uma outra nasce, remetendo às teorias do filósofo alemão Arthur Schopenhauer.
Um libelo que nos suspende e faz pensar nas grandes histórias, nos amores que marcaram e que agora repousam num canto seguro do cérebro, porque despertá-los pode acabar nos forçando a uma leitura não muito agradável da realidade que enfrentamos, como Celine afirma em uma seqüência: “Eu estava bem até ler o seu maldito livro!”
Finalizando: a última seqüência, onde Julie Delpy canta uma valsa e imita Nina Simone é memorável, como um sonho do qual não queremos acordar. E quem quiser saber como foi a noite romântica do casal em Viena assista o filme “Antes do Amanhecer”.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Edifício Master

Edifício Master
É curioso pensar na imensa quantidade de “estranhos conhecidos” que compartilham apartamentos num mesmo prédio. Diferentes trajetórias de vida, escolhas frustrações, aspirações, conflitos e perspectivas a respeito de vida, morte, amor, amizade e família.
As pessoas se esbarram no elevador, se cumprimentam e seguem vivendo muitas vezes trocando poucas palavras entre si, com suas existências tão próximas e, no entanto tão distantes.
Uma intensa miscelânea de etnias, origens e lições de vida dividindo a mesma habitação. Foi pensando nesse conceito que o cineasta Eduardo Coutinho decidiu alugar um apartamento no prédio do título em Copacabana e acompanhou o cotidiano de trinta e sete famílias vivendo em uma estrutura de doze andares com vinte e três apartamentos por andar.
Ao longo da projeção somos apresentados aos variados e simpáticos moradores, cada qual com uma história de vida fascinante à sua maneira.
A escolha do prédio foi interessante, pois permitiu exibir grande parte do passado histórico do Rio de Janeiro, sejam nos casos dos inquilinos, muitos deles idosos, na peculiar arquitetura ou nos móveis dos inquilinos.
O painel exibido pode ser analisado enquanto análise da sociedade pós-contemporânea, a fusão de diferentes origens e experiências gerando depoimentos que denotam uma realidade de pessoas sorrindo apesar de todo o tipo de dificuldades, imersas na mais profunda solidão, neurose e desconfiança.
Vale mencionar como o diretor ilustrou através das inúmeras declarações como o amor é imprevisível, trágico e redentor.
Esse gigantesco apanhado nos permite observar as diferentes escolhas que são tomadas em situações limite e como elas afetam seu futuro, tomando como exemplo o caso da mulher que não se matou porque tinha contas em aberto.
Um olhar sobre as diversificadas maneiras pela qual o destino acaba apontando nossas metas e caminhos, mostrando os valores de ontem e de hoje, como o porteiro órfão que encontrou um bebê abandonado e viu refletida naquela cena a sua trajetória.
Uma película direcionada para todos aqueles que observam as pessoas andando nas ruas ou sentadas no banco do ônibus e imaginam o que elas estariam pensando, como lidam com as dificuldades do cotidiano enquanto enfrentam seus próprios conflitos psicológicos e emocionais.
Vivemos em uma realidade onde o narcisismo é uma constante crescente e abandonamos todos os ideais de convivência e solidariedade. O documentário mostra indivíduos vivendo bens próximos uns dos outros que desejam se isolar entre si, ignorando a idéia de que vivem em comunidade e que deveriam pensar em uma forma de respeito mútuo, tomando como base a situação da criança pequena que termina ouvindo constantemente as brigas dos vizinhos por causa de um estreito vão entre os apartamentos formando um canal sonoro que expõe o privado ao público.
Um interessante panorama do variado e conflituoso circo de experiências humanas. O microcosmo que é projetado a nível existencial espelhando nossa própria essência.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.



terça-feira, 6 de agosto de 2013

Tristão e Isolda

Tristão e Isolda

O escritor argeliano Albert Camus afirmou certa vez que toda grande história de amor necessita de um alto teor de tragédia para alcançar sua magnitude. Um grande exemplo desta premissa é a versão escrita da lenda celta cujas origens remontam ao século IX e que foi adaptada recentemente para o cinema, pela força e a beleza de sua essência.
A narrativa da película se apóia em uma das várias versões da história, onde clãs lutam pelo poder na Inglaterra e com os irlandeses que se aproveitam de sua fragmentação política após a queda do Império Romano. Tristão, jovem inglês cujos pais são assassinados pelo povo inimigo, é adotado por seu tio, Lorde Marke, e vira seu maior guerreiro.
Dado como morto, Tristão é encontrado e tratado clandestinamente no território rival pela bela Isolda, com quem se envolve amorosamente, mas ela mantém seu nome em segredo.
Ele ganha em um torneio de lutas a mão da princesa irlandesa para Lorde Marke, sem saber que ela é na verdade Isolda. O casamento trará a paz e a unificação dos clãs, mas a paixão faz com que Tristão e Isolda arrisquem tudo para viver seu amor proibido.
O filme desenvolve com calma a personalidade do casal envolvido para depois introduzir o romance, criando a necessária atmosfera para que o relacionamento aconteça.
Tristão cresceu pensando em lutar para vingar seus pais e derrotar os irlandeses, basicamente abrindo mão de quaisquer outros interesses que não estivessem direcionados para esta causa, enquanto a bela moça é constantemente usada por seu pai como troféu para motivar seus guerreiros ou gerar discórdia entre os bretões, privando a mesma de qualquer tipo de livre arbítrio.
O triângulo amoroso formado por Marke, Isolda e Tristão revela-se interessantíssimo, pois o lorde é gentil e atencioso com sua esposa, além de ter sacrificado sua mão direita no passado para salvar Tristão da morte enquanto este ainda era pequeno.
Todos esses conflitos sentimentais mergulhados num complexo contexto histórico remetem às grandes tragédias shakespearianas, sendo a peça “Romeu e Julieta” basicamente inspirada nesta história tradicional da região.
O diretor Kevin Reynolds constrói uma narrativa fluida apresentando a história de forma envolvente e gerando um carisma pelo casal que só faz crescer na medida em que a jornada trágica de ambos evolui.
A fotografia e a trilha sonora composta por músicas folclóricas celtas merecem seu devido destaque e contribuem para enriquecer o painel onde a narrativa se desenvolve.
O elenco conta com as ótimas interpretações de James Franco e Sophia Myles apresentando um casal que tem pleno conhecimento de que sua relação amorosa já nasceu condenada, mas mesmo assim persistem porque é exatamente este amor maldito que oferece sentido à suas vidas. O ator Rufus Sewell também merece menção por interpretar um Lorde Marke que tem profundo carinho pela esposa e por aquele que criou como filho, enredando complexidade à trama.
Uma projeção belíssima que traz o espírito de romantismo e honra tão necessários em nosso triste contexto pós-moderno.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Imensidão Azul

Imensidão Azul
            O oceano, como já mencionei antes, é alvo de minha mais profunda admiração, sendo um espaço cuja vastidão remete à idéia de um “infinito palpável”, onde é possível se deixar absorver, seduzido por seus encantos. Esta é a temática da seguinte película.
            O filme acompanha a trajetória de dois mergulhadores, que cresceram compartilhando uma profunda ligação com o mar desde crianças na Grécia.Um deles é Enzo Molinari: mulherengo, vaidoso, pragmático na hora de mergulhar e um profundo admirador de seu país natal _ a Itália, o que é facilmente percebido nas cores de seu uniforme e o laço forte com seus familiares, especialmente sua “mama”.
            O outro nadador é Jacques Mayol. Filho de um francês com uma americana, ele cresceu em comunhão com o mar e a cena de seu primeiro encontro com um golfinho, cercada de fascínio e espanto, é antológica. Este mantém uma relação bem mais profunda com o oceano, chegando a desenvolver uma técnica onde reduz seus batimentos cardíacos, concentrando todo o sangue no cérebro, algo próprio dos cetáceos.
            Separados por um acidente que levou a vida do pai de Mayol (que era pescador), se reencontram depois de vinte anos, porque Enzo, agora já declarado campeão mundial mais de dezessete vezes, sabe que não estará convencido de seu título enquanto não derrotar o francês.
            É fascinante notar a relação de respeito, amor e pertencimento que Jacques tem pelo mar. Sua essência está presa de tal forma que se torna algo além de seu controle e sua compreensão. Destaco aqui a excelente atuação de Jean Marc Barr, realçando seu desprendimento em relação a tudo que está “em terra firme”, inclusive sua amante Johana, uma agente de seguros americana.
            Vale comentar o contraponto interessante entre a Sicília e Nova York: enquanto esta é retratada como um país nublado pela poluição, repleto de criminosos e pessoas grosseiras, aquela é sempre banhada pela luz solar, onde todos andam tranqüilamente e são mais amistosos.
            “Imensidão Azul” mostra um embate entre a paixão e a técnica: o italiano sempre interessado em títulos enquanto o outro está completamente absorto em relação a isso. Jean Reno também merece aplausos por interpretar um Enzo que, apesar de estar sempre buscando reiterar sua superioridade, mostra ser um adversário que tem um carinho ímpar por seu oponente.
            É bacana perceber como os golfinhos parecem saber e celebram todos os momentos de glória de Jacques, reafirmando o estreito relacionamento entre eles.
O oceano sempre surge como visto como algo misterioso, fascinante e imprevisível, sendo comparado a uma mulher pelo tio de Jacques e sempre referido pelo mergulhador italiano como uma presença feminina.
            Uma projeção que, contando com uma trilha sonora e fotografia espetaculares, traz uma mensagem sobre transcender além das coisas mundanas, achando um lugar para se encontrar e repousar a alma.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.