segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Pequena Miss Sunshine



Pequena Miss Sunshine
O Existencialismo é uma corrente filosófica e literária que destaca a liberdade individual, a responsabilidade e a subjetividade do ser humano, considerando cada homem como um ser único que é mestre dos seus atos e do seu destino. A película a seguir segue essa linha de pensamento. 
Dirigido por Jonathan Dayton e Valerie Faris, o filme mostra a trajetória de uma família disfuncional formada por um fracassado guru de auto-ajuda, seu cunhado que está saindo da clínica psiquiátrica após uma tentativa de suicídio, o filho que adora o filósofo existencialista Friedrich Nietzsche e fez um voto de silêncio até entrar na Força Aérea e seu pai que é viciado em heroína, além da filha menor cuja jornada será o fio condutor da narrativa. 
Desde a primeira seqüência a garotinha já encanta o espectador, espelhando-se na expressão de vencedora de um concurso de miss, já que sua vida parece girar em torno disso. O brilho em seus olhos mostra o quanto essa competição significa para ela. O interessante em tudo isso é que ela não segue os padrões requeridos, usando óculos relativamente grandes e uma barriga proeminente, como a de toda criança saudável. 
A história tem início quando a garota é convocada para o concurso do título em um outro estado e a família a acompanha numa Kombi caindo aos pedaços, um ambiente onde esses personagens são obrigados a conviver, compartilhando suas diferentes experiências e ideologias, o que enriquece de forma considerável o roteiro da película. 
Todos na família, com exceção da mãe da protagonista parecem sofrer algum tipo de limitação imposta pela sociedade. Frank é um acadêmico que ficou deprimido e tentou se matar porque alguém medíocre foi considerado genial na mesma especialidade que ele, chegando a perder alguém que amava por causa disso. Richard realmente acredita no seu “programa de nove passos” ( a ponto de policiar todos a seu redor), mas não consegue um editor para lançar o seu livro e mesmo Dwayne encontrará um empecilho que porá em cheque o seu grande desejo de se tornar um piloto. 
Todos seguem em busca de um mesmo objetivo que dará sentido às suas vidas, mas no decorrer da viagem percebem a futilidade dos padrões que usam como medida de comparação em suas respectivas vidas. 
Nesse ponto a temática do filme mostra como todo esse conjunto normativo acaba reprimindo várias pessoas que tem potencial para irem muito além de suas expectativas, mas acabam se rendendo aos estigmas impostos pela sociedade reguladora. 
A belíssima trilha sonora e a fotografia inspirada dão o tom agridoce e tragicômico da projeção, onde a cada momento surge uma adversidade que obriga esses personagens aparentemente díspares a entrar em sintonia para seguir adiante. O elenco também merece uma menção especial, com destaque para Alan Arkin como o avô hedonista e Steve Carell, que mostra seu verdadeiro potencial como ator, mostrando que tem algo mais a oferecer que papéis humorísticos. 
O final surpreendente mostra a força da essência interior e como todos os nossos problemas parecem pequenos quando observamos o contexto social do qual aparentemente precisamos ou queremos fazer parte.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.

domingo, 29 de setembro de 2013

O caçador de pipas



O caçador de pipas
O Talibã é um movimento que se propunha a  implantar a lei islâmica no Afeganistão, desagregado pela queda do regime comunista.  Era composto por  jovens treinados em   escolas religiosas rurais,  surgidas  ao longo da década de 1980. Estas escolas  haviam sido  berço de militantes que lutaram contra a ocupação soviética no país. Seu governo tem-se caracterizado pela aplicação rígida de seu código religioso. Dois grandes filmes foram feitos retratando esta realidade, o belíssimo “Osama” e a película em questão.
Baseado no livro de Khaled Hosseini, o filme acompanha a trajetória de Amir Jan, desde sua infância abastada em Cabul, onde passava os dias junto a seu servo e amigo Hassan. Sua índole passiva e introvertida sempre contrastou com a coragem e a energia do companheiro, gerando um ressentimento que é incrementado pela lealdade cega do mesmo. Apesar de tudo, são visíveis o carinho e respeito que um nutre pelo outro.
A invasão soviética no território faz com que o protagonista emigre para os Estados Unidos junto ao pai, onde consegue fazer carreira como escritor. Anos mais tarde, termina descobrindo segredos sobre sua família, sendo forçado a retornar à cidade natal, agora governada pelo regime do Talibã, para resgatar um parente que não conhecia.
O perfil psicológico dos personagens é bastante trabalhado, especialmente o do protagonista que busca a qualquer custo conquistar o orgulho e o respeito de seu pai e se sente culpado pela morte da mãe, já que a mesma morreu no parto.
A competição de pipas (onde o vencedor deve eliminar as adversárias usando cerol, uma mistura de cola de madeira com vidro moído na linha) acentua o contraste entre os dois tempos históricos ilustrados na película: enquanto o primeiro é marcado por uma inocência trágica em certos aspectos, a contemporaneidade denota uma região completamente destituída de qualquer resquício de humanidade, impacto que pode ser claramente percebido nas diferenças arquitetônicas dos dois períodos.
Um aspecto do filme que merece ser ressaltado é a fidelidade à língua original da região, o que é importante num filme que tem um apelo tão forte para a ancestralidade, dignidade e nacionalidade. O Talibã afirma estar fazendo o que é melhor para o seu país, quando na verdade é o contrário.
A pipa pode ser interpretada como uma metáfora do espírito humano em meio à série de distorções e contradições que constituem nossa pós-modernidade. O pensamento poético e independente trafegando com dificuldade em meio aos contratempos históricos e sociais.
É interessante perceber também a evolução dos personagens ao longo da projeção. Amir, que era covarde e passivo, buscando sempre a fuga da realidade através da ficção torna-se alguém preocupado com a realidade de seu país, escrevendo livros que relatam as tragédias em sua nação, enquanto seu pai, que foi sempre uma figura distante durante sua infância, passa a desempenhar um papel mais participativo, chegando inclusive a apoiar a carreira do filho, mesmo que não a aprovasse.
O diretor Marc Forster realizou um filme belíssimo usando uma narrativa lenta, criando uma atmosfera idílica com bastante cuidado para que sua degradação fosse digerida com a devida atenção, sensibilizando o espectador para a perda de identidade de um povo.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.


sábado, 28 de setembro de 2013

A fita branca



A fita branca
            A educação é um processo deveras delicado, pois ele afeta diretamente a evolução do caráter de seus aprendizes. O ambiente de convivência contribui para cultivar o sentimento que irá perseverar através das próximas gerações.
            O espírito humano é incrivelmente maleável. As experiências que vivenciamos, especialmente no seio familiar, serão aquelas que irão direcionar nossa conduta. As respostas emocionais que derivam de determinada interação espelham a natureza da mesma.
            Ambientada em um vilarejo alemão, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, a narrativa acompanha uma série de misteriosos eventos que afetam seus moradores. Essa sociedade patriarcal e protestante transpira crueldade através das punições que as crianças sofrem por suas desobediências.
            A frieza e indiferença latente nos diferentes núcleos familiares revelam o nascimento de uma mentalidade nociva que se espalharia por todo o país. O uso da fita branca no braço como “punição purificadora” antecede o raciocínio tão evidente no nazismo.
            A montagem do cineasta Michael Haneke ilustra com eficiência o espírito que paira sobre os habitantes da região. A opção pela fotografia em preto e branco reforça o tema proposto. A intolerância mascarada pela moral instituída.
            Narrada em off pelo professor da cidade, os fatos ocorridos, isolados a princípio vão gradualmente se conectando e descobrindo o véu que disfarça a verdadeira essência da comunidade.A sombra que calmamente vai encobrindo e corroendo a humanidade dos personagens, tão comum nos filmes do diretor sueco Ingmar Bergman.
            O suspense é construído no silêncio inscrito na lentidão das tomadas que somente sugere a violência e nunca a retrata, tornando-a assim mais impactante. A brutalidade adormecida que emerge de forma sutil e incisiva.
            A sensibilidade fria que denota um abismo de medo e respeito entre pais e filhos. A depressão enrustida que explode em raiva crua e voraz. A perversidade projetada que perfura a malha da sociedade como uma lâmina certeira e fria.
            Não há espaço para eufemismos nos núcleos familiares do vilarejo. A sinceridade abre caminho sem pesar seu efeito naqueles que entram em contato com ela. Desde cedo as crianças já são introduzidas à certeza de sua mortalidade e a de seus pais. O ceticismo é escarrado de forma bastante brutal e assimilado da mesma forma.
            O cerne da maldade pulsa de maneira bastante silenciosa e eficaz, medindo seu tempo com calma até perfurar o seu alvo no momento exato. O poder instituído representado pelo Barão (Estado), o pastor (Igreja), o médico e o administrador gerenciam o local de acordo com os seus próprios interesses e não toleram nenhuma forma de questionamentos. Resta aos populares sofrerem calados, entregues ao seu próprio desespero.
            Uma película sobre a distorção da índole durante o período de sua formação, criando feridas emocionais e psicológicas que dificilmente serão sanadas.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.
E-mail para contato: gilson.salomao@gmail.com
           

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Budapeste

Budapeste
            O ofício da escrita exige bastante daqueles que a ela se dedicam, dada a complexidade que a sua significação sugere. Para construir um belo texto é preciso amar as palavras, escolher com carinho o seu posicionamento nas frases a fim de lançar a mensagem desejada.
            É preciso se apaixonar pela riqueza das imagens sugeridas pelo texto para logo em seguida se desprender do mesmo, deixando que as múltiplas interpretações o absorvam e construam seus inúmeros significados.
            Adaptada do livro homônimo de Chico Buarque a narrativa desta película acompanha o escritor José Costa que exerce a função de “ghost writer”, alguém que escreve diversas obras mas não recebe o crédito por elas, sendo o mesmo transferido para aqueles que o contrataram.
            A grande mudança na vida do protagonista acontece quando,  em função de uma suspeita de ameaça terrorista, o avião no qual ele retornava de uma convenção é forçado a aterrisar na cidade de Budapeste.
            O inesperado contato  com a língua local faz com que ele se apaixone por ela. Fascinado pela línguística e fonética húngara, ele retorna ao Rio de Janeiro onde escreve a biografia de um alemão que se enamora pelo Brasil. Utilizando a sua própria experiência ele cria um best-seller.
            O sucesso da obra é tanto que sua esposa termina seduzida pelo pseudo-autor do mesmo, embriagada pela força do texto atribuído a ele. Cansado do casamento e angustiado pelo constante esforço não reconhecido ele retorna à cidade européia, onde reencontra sua alma na gramática estrangeira e nos braços da psicóloga Kriska que lhe ensina este novo idioma.
            A montagem do cineasta Walter Carvalho retrata como José vai sendo gradativamente cativado pela estrutura gramatical estrangeira, sendo tomado a princípio pelo  caráter exótico da mesma para depois tornar-se completamente submisso a ela, a ponto de ouvir um samba e traduzi-lo inconscientemente em húngaro.
            Interessante perceber o carinho que o personagem possui pela pronúncia em geral, seja no deleite do eco produzido pela ligação interurbana ou na simples repetição das palavras novas que vai aprendendo durante a sua estadia neste velho novo país.
            Vale comentar a desmistificação feita ao Leste Europeu, geralmente retratado como decrépito e decadente. O diretor realça o charme arquitetônico das construções além da beleza histórica local.
            Importante mencionar também o debate sugerido na projeção sobre a necessidade de reconhecimento pela criação de uma obra literária. A estátua do escritor anônimo preza acima de tudo o valor do texto e o seu impacto sobre aqueles que o lêem, mas a interação entre criador e criação é tanta que é difícil manter uma postura indiferente, permanecendo incógnito enquanto terceiros levam a glória por algo que não fizeram.
            Um filme sobre a reconstrução de uma nacionalidade a partir da desconstrução do espírito que interfere por sua vez na própria leitura da vida através de uma nova linguagem.
            Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.
Email para contato: gilson.salomao@gmail.com 


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Abraços partidos



Abraços partidos
            É interessante perceber como o amor é um tema que apesar de antigo, nunca se esgota nas tramas cinematográficas, pois está sempre ganhando novos contornos e  interpretações.
Sentimento espontâneo,egoísta e imprevisível que motiva as pessoas a cometerem leviandades, resultando em sérias consequências para todos os envolvidos. Pulsão que enevoa o raciocínio, despertando nossas vontades mais primárias e sinceras.
A narrativa da seguinte projeção mostra a história de um homem envolvido no meio cinematográfico que ficou cego por causa de um acidente de carro e passou a trabalhar como roteirista. O pedido de um antigo conhecido para escrever uma ficção baseada em fatos reais e a morte de um velho rival despertam nele antigas lembranças de um romance trágico.
O relacionamento em questão seria entre o diretor e a atriz principal de seu filme, namorada de um poderoso empresário ciumento que se voluntariou para produzir a referida obra.
A montagem do cineasta Pedro Almodovar define com a sua elegância habitual o perfil psicológico de cada um de seus personagens emocionalmente perturbados, cada um com seu passado amargo.
Destinos cujas trajetórias são condicionadas pela paixão exacerbada, ocasionalmente conduzidas ao cuidado ou mesmo ao ódio.
O uso de flashbacks para contar o acontecido permite uma análise do quanto o protagonista foi atingido pela fatalidade (ele chegou a mudar de nome, adotando o pseudônimo de Harry Caine, condizente com sua nova postura após o ocorrido) e como as outras pessoas envolvidas lidaram com o peso da mesma ao longo dos anos que se passaram, como a sua agente, corroída de remorso.
O estilo de filmagem do diretor espanhol coloca personas com um forte impulso passional que não temem o preço pelo seu comportamento, consumidas por uma espécie de “febre instintiva”, onde o prazer do instante supera qualquer inconveniência futura. A intensidade acalorada do flamenco traduzida em imagens de cores vivas e apaixonadas.
O filme trabalha o compromisso da sétima arte em registrar e expor a verdade das intenções amorosas que pulsam e conduzem seus respectivos comportamentos, por mais que se tente modificá-los ou distorcê-los.
O uso de metalinguagem, adicionando histórias dentro da história, enquanto ilustra o processo de criação e filmagem, ao mesmo tempo contribui para enriquecer a trama.
O mosaico de relações humanas onde os desejos projetam o real caráter que se esconde sob suas respectivas atitudes.
O elenco traz a excelente performance de Penélope Cruz e vários outros nessa poética projeção sobre um romance condenado desde o início que ousou seguir seu rumo, pois nada seria pior que a idéia de terminá-lo.
Um filme onde a vontade atua como bússola, oferecendo escolhas enquanto aponta a chance de redenção, ainda que ela esteja num take aparentemente perdido na sala de edição.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.
E-mail para contato: gilson.salomao@gmail.com

terça-feira, 24 de setembro de 2013

O segredo de seus olhos

O segredo de seus olhos
            O cineasta francês Jean Luc Godard afirma que “a lembrança é o único inferno ao qual fomos condenados em inocência.”. Algumas pendências ecoam e exigem um desfecho, perturbando aqueles envolvidos e levando-os a questionar o sentido de suas respectivas jornadas.
            Todos possuem momentos na vida cujas escolhas definem caminhos a serem seguidos. O peso dessas decisões recai sobre os envolvidos e muitas vezes interrompem suas rotinas.
            A narrativa da película que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro este ano acompanha Benjamín Espósito, um Oficial de Justiça aposentado que deseja aproveitar o seu tempo livre escrevendo um romance.
            A falta de idéias o leva a escrever sobre um caso não resolvido do passado, onde uma professora foi estuprada e morta. Tal investigação terminou sendo arquivada na época por ocasião da ditadura que estava vigente naquele período.
A releitura deste acontecimento o leva a refletir sobre os seus atos naquela época, especialmente os relacionados a um amor platônico por sua superior.
            A montagem do cineasta argentino Juan José Campanella alterna os eventos do presente com flashbacks que relatam os eventos do passado. A alternância entre tais momentos permite analisar como os personagens sobrevivem com as escolhas que fizeram, apesar de certos sentimentos persistirem estacionados no tempo.
            O diretor disserta com elegância sobre a mudança de conjunturas e como o conceito de justiça vai se modelando de acordo com as necessidades da máquina governamental, que esconde sua conduta distorcida no viés burocrático.
            As diferentes personalidades dos investigadores permitem uma pluralidade de posicionamentos em relação ao fato. Suas diferentes reações enriquecem a trama e trazem uma discussão madura sobre a sentença ideal para este crime.
Enquanto alguns buscam sublimar a dor de um passado sofrido, enterrando os aborrecimentos na distância dos anos, outros ficam remoendo cada passo que foi dado e como este caso pode ser encerrado.
Nesse ponto é importante destacar a determinação do marido da vítima em encontrar o agressor e puni-lo, não com a morte, mas com um encarceramento perpétuo que o faça refletir sobre sua atitude.
            A busca de Benjamin por um novo fim para o seu livro projeta a redefinição de suas prioridades a partir de uma leitura crítica de sua jornada. Antigas promessas e desejos o impulsionam para encontrar o seu caminho.
            Vale comentar também como um simples olhar pode carregar consigo um imenso potencial comunicativo. O flagrante num determinado momento revela as reais intenções daqueles que tentam disfarçá-las.
            Um thriller policial com uma trama envolvente que adiciona momentos refinados de drama e comédia. Os planos seqüência inspirados, como o da perseguição no estádio de futebol, atestam a excelência dessa fina obra do cinema argentino.                   
            Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.
E-mail para contato: gilson.salomao@gmail.com

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O desastre de Chernobyl




O desastre de Chernobyl
            A Guerra Fria teve momentos onde o mundo esteve no limiar de grandes catástrofes que custariam a vida de várias pessoas inocentes.A corrida armamentista gerou a busca pela manipulação da energia nuclear, haja vista a sua “eficiência” em Hiroshima e Nagasaki.
            O problema reside no fato de que o material utilizado neste processo, além de bastante nocivo ao meio ambiente é altamente instável.O vazamento dessa substância pode implicar num sério risco para a região local ou afetar áreas imensas, de acordo com o seu grau de dispersão.
            O documentário em questão apresenta imagens inéditas de um evento que causou um número incrível de vítimas, semelhante a uma guerra ou epidemia e continua perigoso até os dias de hoje.
            O problema começou na noite do dia 25 de abril de 1986, quando a explosão do quarto gerador da usina de Chernobyl começou a irradiar uma enorme quantidade de elementos tóxicos na atmosfera.A desinformação a respeito do assunto foi um poderoso agravante pois impediu que providências fossem tomadas previamente. Os técnicos afirmaram que tudo estava sob controle e tudo seria resolvido rapidamente. Até o presidente Mikhail Gorbachev foi instruído para não se alarmar.
            A gravidade da situação foi sublimada, pois as autoridades não queriam despertar pânico na situação, mas essa demora para evacuar a cidade ucraniana de Prypiat, onde a instalação se localizava teve consequências gravíssimas para os habitantes da mesma.
            O espaço de tempo de 48 horas desde o momento do acidente até a constatação da gravidade do mesmo foram mais que necessárias para espalhar a nuvem radioativa que atingiu grande parte da Europa.
            A situação ficou crítica quando os técnicos afirmaram que se o material incandescente do reator alcançasse a água no reservatório embaixo do mesmo, uma bomba atômica seria desencadeada  de dimensão dez vezes maior que aquelas jogadas nas cidades japonesas ao final da Segunda Guerra, varrendo cerca de dois terços do território europeu num piscar de olhos.
            O diretor Thomas Johnson coletou depoimentos de especialistas, técnicos e jornalistas envolvidos, inclusive do presidente do país na época, revelando informações que até então vinham sendo mantidas em segredo pela ex-União Soviética, em função da política da “cortina de ferro”.
            A película dá o merecido destaque aos heróis anônimos, militares e bombeiros que foram submetidos a doses semi-letais de radiação para evitar uma tragédia ainda maior no continente, forçados a trabalhar sem descanso e recebendo um salário irrisório.Vale comentar que os humanos foram solicitados depois que os robôs empregados para esta tarefa foram completamente inutilizados pela radiação.
            O filme mostra ainda como tal desastre contribuiu para aproximar as relações entre o país soviético e a Europa capitalista, iniciando o processo de abertura política conhecido como Glasnost que poria fim ao conflito entre as duas potências da época.
            A projeção também retrata como a radiação continuou afetando a todos que tiveram contato com ela, anos depois do acontecido.Aponta também para a urgência de instalar uma segunda vedação no reator, pois a primeira estava prevista para durar apenas vinte anos.
            Uma tragédia que não recebeu a devida atenção na época por motivos políticos e cujas complicações perduram até o presente momento, onde os “sobreviventes” ficam num hospital, aguardando a própria morte, já que sua situação é irreversível.
            Um valioso alerta  para a potencialidade danosa envolvida na utilização dessa forma de energia, cujo período de deterioração de seus resíduos demora 250 anos ou mais.A lembrança de um problema recente que motiva a reflexão sobre essa alternativa para resolver a crise energética que aponta no horizonte.

Achei o link do documentário no Youtube, para quem se interessar: Doc: O Desastre de Chernobyl
           
            Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.
E-mail para contato: gilson.salomao@gmail.com

domingo, 22 de setembro de 2013

Melinda & Melinda

Melinda & Melinda
O cineasta francês Jean Luc Godard perguntou certa vez em um documentário “Porque um homem não pode escorregar em uma casca de banana e logo depois levar um tiro?”, indagando sobre o vício de rotular e dividir tragédia e comédia em categorias separadas.
Na Grécia Antiga tivemos inúmeros exemplos de belíssimas tragédias que mostravam algo engendrado nas teias do destino e impossível de ser modificado. William Shakespeare escreveu várias peças enfocando diferencialmente os seguintes gêneros, usando o amor como força motriz para ambos.
A dúvida permanece_ onde o drama termina e o humor começa? Em certo momento da seguinte projeção, um personagem faz uma pergunta à protagonista, que está chorando: “São lágrimas de alegria ou tristeza?” Ela responde: “Não são as mesmas lágrimas?”.
O filme começa com dois dramaturgos de categorias distintas debatendo sobre o valor de cada uma: uma vista como confronto e a outra como fuga. A fim de resolver o problema eles resolvem desenvolver duas narrativas tendo como base a trajetória de uma estranha que chega a um jantar, porém seguindo diferentes angulações, mas mantendo pontos em comum, para que uma análise visceral dos gêneros possa ser feita.
Ao longo das duas histórias intercaladas, o diretor Woody Allen mostra como o riso e a tristeza brotam com naturalidade ao longo do cotidiano complexo, tortuoso e indefinido, permitindo verificar que os dois conceitos discutidos são díspares e intrínsecos ao mesmo tempo. São duas faces de um mesmo rosto refletido.
É interessante notar que a versão trágica mergulha na psicologia dos personagens, contextualizando suas dores e suas referidas bagagens emocionais, enquanto a comédia, que quase sempre se alimenta do infortúnio de terceiros, joga com a casualidade dos acontecimentos.
A diferença de pontos de vista pode levar a um conflito ou ao riso, dependendo da angulação almejada.
Em vários pontos os temas das histórias se cruzam, enriquecendo a leitura da película: nas duas versões percebemos problemas conjugais que terminam em adultério. Na versão dramática, o homem tem a posição dominante e na outra ele é submisso, dando vazão às diferentes nuances de personalidade humana.
O amor, assim como nas peças shakespearianas, desempenha um papel importantíssimo enquanto motivação dos personagens envolvidos e seu caráter dúbio (salvação ou ruína) está bem especificado neste filme.
Ao final da projeção fica bem clara a intenção do cineasta: a vida está cheia de momentos que podem ser interpretados e contados de diferentes maneiras, dependendo da contextualização e das reações aos fatos que vão surgindo ao longo da narrativa.
Tudo se resume à maneira como encaramos as eventualidades do dia-a-dia_o sofrimento nos leva à reflexão e/ou redenção enquanto a comédia ajuda a relaxar e refletir melhor sobre os percalços que contribuem para criar um painel tão diversificado da personalidade humana desde o início dos tempos.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.





sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Nação Fast Food

Nação Fast Food
Nossa realidade está cada vez mais arraigada à funcionalidade, praticidade e velocidade, sendo as cadeias de “fast food” o triste retrato de uma geração que prioriza o artificial e o efêmero, correndo o sério risco de perder a noção do verdadeiro sabor de um alimento saudável, chegando a colocar na boca sem perceber a sua origem nociva.
A narrativa da projeção acompanha o vice-presidente do departamento de marketing da cadeia alimentícia Mickey’s, que recebe um relatório de um laboratório de pesquisa independente indicando um alto teor de estrume de vaca no hambúrguer mais famoso da franquia, o “Grandão”. Resolve investigar a razão de tal fato e acaba descobrindo mais do que gostaria a respeito de todo o processo de produção.
O filme usa de nomes fictícios para colocar na lente do microscópio toda a realidade por trás de empresas que estão mais interessadas em vender os produtos do que avaliar o seu padrão de qualidade, explorando imigrantes clandestinos de todas as formas possíveis e ganhando fama à custa de um punhado de ilusões que acompanham a imagem do que é vendido.
Uma das seqüências iniciais mostra a inserção de aromas e sabores utilizando produtos químicos, o que indica o claro propósito de oferecer uma idéia e não um alimento para ser consumido.
O diretor Richard Linklater também apresenta uma trama paralela, acompanhando a dura jornada dos mexicanos que enfrentam duras condições para cruzar a fronteira e acabam sendo direcionados para trabalhar no matadouro, onde tudo parece higiênico, mas é na verdade bastante insalubre.
Neste ambiente de trabalho as mulheres sofrem assédios de seu superior e os freqüentes acidentes são disfarçados por mentiras e falsos documentos, como é o caso de um dos funcionários que perde um dos membros em uma máquina e de repente vira um viciado em anfetamina.
O relato triste de um fenômeno onde a linha de produção dita as regras do mercado, colocando em risco a qualidade do alimento e a saúde dos consumidores. As cenas apresentadas são bastante verossímeis e podem acontecer em qualquer lugar, especialmente no que se refere aos empregados insatisfeitos cuspindo na comida e pegando um bife de hambúrguer do chão para colocar na grelha.
A película também aproveita para discutir como as grandes corporações descaracterizam as pequenas cidades, massacrando o comércio local e destruindo sua identidade.
O cineasta também faz um comentário ácido ao Ato Patriota como algo completamente ditatorial e invasor e que de certa forma chega até a lembrar o nosso AI5 da época dos militares.
As vacas que não saem do cercado mesmo depois de libertadas podem ser compreendidas como uma metáfora do pensamento conformado e covarde que ronda todo o nosso contexto, mais preocupado em sobreviver do que fazer a diferença.
As imagens mostradas são impressionantes e revelam de forma chocante toda a verdade intragável (com o perdão do trocadilho) da indústria alimentícia. Não chega a ser novidade, mas ver de perto é ainda mais impactante.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Vicky Cristina Barcelona



Vicky Cristina Barcelona
A arte em geral sempre teve como principal objetivo o incentivo à reflexão sobre o sentido da nossa postura existencial, deslocando um ponto referencial para melhor apreciação da essência dos elementos que contribuem para construir um painel do contexto onde estamos inseridos.
A narrativa acompanha duas amigas que viajam para passar o verão na bela cidade do título, com diferentes objetivos. A pragmática Vicky está pesquisando para escrever sua tese de mestrado sobre a identidade catalã enquanto a espontânea Cristina procura relaxar após o término de um curta-metragem dirigido por ela.
Durante este período elas conhecem Juan Antônio Gonzalo, um pintor local que termina seduzindo as duas em ocasiões diferentes, durante um final de semana. A diretora termina se envolvendo de forma mais intensa porque a outra está noiva e prestes a se casar, embora a noite com o artista a tenha feito questionar tudo o que fora previamente decidido.
O romance entre Antônio e Cristina sofre uma alteração brusca quando Maria Elena, a ex-mulher deste vai morar junto com eles, estando em recuperação após uma tentativa de suicídio e sem condições financeiras para se sustentar sozinha.
A interação do trio, a princípio tensa em função da índole explosiva da pintora que mantém uma relação de amor e ódio com seu ex-marido, vai gradativamente encontrando a harmonia e formando um triângulo amoroso, onde cada um se relaciona amorosamente com duas pessoas.
Esta nova experiência permite à diretora encontrar sua verdadeira inclinação e talento para a arte da fotografia, sendo a máquina digital abandonada para dar espaço para o modelo antigo, dando margem a um interessante debate sobre o assunto.
O cineasta Woody Allen usa a montagem para transformar a belíssima Barcelona em um personagem que revela sua identidade histórica e cultural na arquitetura de Antoni Gaudí e mostra seu charme nos restaurantes e bistrôs. O fato de Vicky não resistir a uma bela execução de guitarra espanhola é outro elemento que ele emprega para reforçar a elegância artística do local.
A belíssima fotografia ao lado de uma inspirada trilha sonora contribui para realçar a essência da história de amores que se completam e se repelem, encontrando equilíbrio na própria natureza de sua inconsistência.
A película faz uma leitura interessante da imprevisibilidade do amor e suas estranhas manifestações que duelam com todas as noções e conceitos elaborados para compreendê-lo.
Interessante notar também como Maria Elena usa o idioma espanhol para compartilhar suas confidências com Antônio, pois Cristina só conhece algumas palavras do mesmo. A língua criando recanto especial para maior privacidade e intimidade do casal.
O elenco magistral conta com as excelentes performances de
Scarlett Johansson, Javier Bardem e Penélope Cruz que merece um destaque especial interpretando uma mulher explosiva e emocionalmente instável permitindo que aflorasse toda a sensibilidade da personagem e evitando assim a representação caricatural da mesma.
Uma projeção agridoce sobre como um relacionamento encontra sua medida através de insólitas maneiras, essenciais embora auto - destrutivas.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.




quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Manhattan

Manhattan
O cineasta Woody Allen sempre foi apaixonado pela cidade do título e sempre fez questão de frisar referências à mesma em seus filmes. Na película em questão ele não somente a usa como cenário, mas como personagem, metáfora da modernização sublimando a civilização romântica de outrora.
O diretor interpreta Isaac Davis, um roteirista de TV divorciado que namora uma garota bem mais nova que ele (42 enquanto ela 17). Dividido entre a pressão social a que ele mesmo se inflige e o amor que ele sente por ela, ainda precisa lidar com a ex-esposa que está lançando um livro onde expõe sua vida conjugal com ele.
Em meio a tudo isso ainda descobre que seu amigo está tendo traindo a esposa com Mary, uma intelectual pedante. Com o tempo, acaba se envolvendo com ela e ambos resolvem terminar seus relacionamentos anteriores para investir no romance, já que esta se apresenta como uma alternativa convencional e mais apropriada aos padrões sociais.
A dinâmica do casal é interessantíssima, dada à disparidade de percepções a respeito do comportamento humano. É o racionalismo dela contra a sensitividade dele. A diferença de opiniões a respeito de artes também rende ótimos debates ao longo da projeção.
Vale acrescentar também que Mary, apesar de se apresentar como uma pessoa de mente aberta e letrada, sempre diz que “veio da Filadélfia e crê em Deus”, o que pode ser percebido como um conservadorismo enrustido da personagem.
O amor é apresentado como algo descartável e imprevisível, que independe de quaisquer valores sociais ou morais que possam existir.
Apesar de apresentar a cidade como o palco de um teatro social onde o comportamento é regulado por seus próprios habitantes, o diretor mostra o lado pitoresco e tradicional da mesma, com passeios de charrete no Central Park, bares e restaurantes antigos, realçados por uma belíssima fotografia em preto e branco ao lado de uma trilha sonora onde o jazz é soberano, marca registrada nos trabalhos do mesmo.
A seqüência de abertura, onde takes da cidade são acompanhados pela imortal Rhapsody in Blue de George Gershwin é primorosa. Nessa mesma cena também percebemos a dificuldade que muitos escritores têm para achar o início certo de um texto, pois é a partir dele que toda a prosa se desenrolará.
O humor refinado de Woody Allen rende ótimos diálogos, fazendo comentários ácidos a respeito da televisão, da elite pseudo-intelectual e todas as regras de pensamento que regem “o bom senso urbano”.
A química entre o cineasta e a atriz Diane Keaton, assim como em “Annie Hall” é um dos grandes destaques do filme, já que a dinâmica das interpretações contribui para a fluidez da narrativa.
Vale comentar como a mensagem do filme continua atual, já que continuamos vivendo dentro de uma realidade onde apesar de todo esclarecimento as pessoas continuam vigiam seus próprios atos, sempre atentas à regularidade e à moralidade de suas ações, sacrificando certas vontades porque tais não se encaixam dentro de um conjunto normativo.
O poeta francês Charles Baudelaire afirmou certa vez que precisamos antes evoluir enquanto seres humanos para depois avançarmos em nível de civilização. A leitura deste filme mostra como os valores mudaram tão pouco.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.


terça-feira, 17 de setembro de 2013

Hell on Wheels



Hell on Wheels
O western é um gênero de grande importância tanto na literatura como em várias mídias, pois suas histórias são ambientadas num período onde uma nação estava em fase de desenvolvimento. Pessoas lutavam pela própria sobrevivência em um território inóspito, sendo que muitas delas ainda tinham que servir de modelo de caráter para as futuras gerações que herdariam a civilização que se formava.
Um contexto onde a fragilidade da vida funciona como agente motivador da conduta de muitos indivíduos e estreitando a já tênue linha entre o certo e o errado. A lei funcionava até o momento em que ela se tornava questionável e tal instabilidade permitia que o real perfil de cada um aflorasse com maior intensidade.
            A construção das ferrovias durante esse período foi um marco que alterou profundamente o comportamento e a perspectiva dos americanos, unindo distâncias e transformando a geografia do país, que entrava numa nova fase de desenvolvimento.
            A série exibida no canal AMC, criada por Joe e Tony Gayton é ambientada no ano de 1865, um pouco após o fim da Guerra Civil nos Estados Unidos, onde o ex-soldado confederado Cullen Bohannon parte em busca de vingança pela morte de sua esposa nas mãos de um destacamento militar do norte. Sua jornada o leva à estrada de ferro transcontinental do título, onde ele encontrará um estranho caldeirão étnico no acampamento dos operários da mesma.
            Gerenciada pelo empresário Thomas Durant, que deseja expandir a ferrovia já que está recebendo da União por cada quilômetro construído, o canteiro de obras é formado por uma diversificada gama de trabalhadores, sendo a maioria deles irlandeses e negros que tinham um óbvio conflito racial. O protagonista é contratado para colocar os homens focados no serviço, evitando ao máximo o iminente conflito interno.
            Uma série de eventos termina colocando o mesmo numa posição difícil com o chefe de segurança local, o norueguês Thor Gundersen que é conhecido como “o sueco”. Impiedoso e calculista, ele é capaz de cometer os piores atos de crueldade sem ao menos alterar o seu tom de voz e tornar a vida dos habitantes do acampamento num inferno, se necessário.
            A estrada de ferro gera também um atrito com os indígenas que não desejam ver seu território invadido e modificado. Um deles vive com os operários e foi convertido ao protestantismo, atuando como ajudante do pastor local. É um personagem interessante porque ele termina isolado sem realmente pertencer à comunidade de trabalhadores e ao mesmo tempo deserdado por sua própria raça. Quem termina em uma posição parecida é o negro Elam Ferguson, depois de ser promovido à assistente de Bohannon e se envolver com uma prostituta caucasiana que foi capturada pelos nativos quando era mais jovem.
Outra personagem que chega para incrementar a tensão local é Lily Bell, viúva do engenheiro que trabalhava em parceria com Thomas. Dentro deste universo essencialmente machista ela precisa estar sempre reafirmando sua posição para provar a todos que não é uma donzela frágil num ambiente hostil. Vale mencionar também a presença dos irmãos irlandeses que se instalam na região para oferecer entretenimento através de uma exibição de slides com imagens de sua terra natal, vendendo nostalgia aos imigrantes após um dia cansativo.
A série está atualmente começando sua terceira temporada, acompanhando a curiosa jornada de um forasteiro que foi em busca de vingança e terminou encontrando uma carreira em sintonia com a sua personalidade, revelando que o destino abre portas até mesmo para aqueles que desistiram de procurá-las.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.
Contato por e-mail: gilson.salomao@gmail.com

domingo, 8 de setembro de 2013

Buena Vista Social Club



Buena Vista Social Club
A música latina regional tem fortes raízes hispânico-africanas, uma interessante combinação da melancolia moura com os acordes que celebram a integração do homem com suas tradições mais remotas, construindo desta forma sua identidade. O documentário a seguir busca resgatar este painel através da trajetória de um conjunto musical.
O título da película é o nome da banda, que por sua vez remete a uma antiga casa de shows cubana, que havia deixado de existir por volta dos anos 50. A narrativa do filme acompanha o guitarrista e produtor musical Ry Cooder que depois de ouvir uma fita com belíssimas músicas cubanas decide ir à Havana em 1996 para procurar artistas para a gravação de um disco. Lá ele felizmente encontra ainda vivos os grandes ídolos locais que marcaram gerações como Ibrahim Ferrer, Compay Segundo, Omara Portuondo, Eliades Ochoa Faustino Oramas e Rubén Gonzáles.
A projeção acompanha desde o retorno de Cooder com seu filho Joachim à cidade em 1998 para mostrar as diferentes jornadas de todos os integrantes do conjunto, como foram tocados pela música desde cedo e como desenvolveram uma relação de carinho com o instrumento que tocam.
Cada um tem sua participação essencial e contribui adicionando toda sua experiência dentro da harmonia da orquestra. Destaque para o “alaúde cubano” de Barbarito Torres, que sintetiza a combinação de diferentes culturas para criar um órgão musical único cujo som é inconfundível.
É interessante notar ao longo da película o painel da essência poética cubana que vai sendo formada ao longo dos depoimentos, das canções e dos costumes apresentados.
A montagem intercala os diferentes perfis dos artistas com trechos de apresentações da banda em Amsterdã e no Carnegie Hall, nos Estados Unidos.
As cenas que ilustram os prédios e carros velhos transmitem o caráter de um povo que se mantém fiel aos seus princípios e consegue transcender o espírito através de músicas que foram ultrapassando gerações. Um lugar que sobrevive ao pensamento cartesiano e calculista da pós-modernidade.
É importante mencionar que apesar de todos os esforços, trata-se de uma geração de músicos que está em seu estágio final. Muitos faleceram anos depois do documentário, como Ibrahim Ferrer e Compay Segundo.
O filme também apresenta seqüências que mostram a educação atlética dos jovens desde cedo de forma bastante livre e descompromissada para que os mesmos desenvolvam prazer pela prática do esporte.
O grande tema da projeção é o resgate do cancioneiro regional que traduzia toda a leveza de um tempo romântico de outrora e cujo espírito foi se dissipando com o tempo, mas sempre esteve latente no imaginário popular.
A trilha sonora é belíssima, com menção especial para as músicas Chan Chan e Dos Gardenias que traduzem a beleza da música do grupo.
O cineasta Win Wenders construiu um belíssimo filme sobre “o canto do cisne” de uma geração cuja conquista merece o devido respeito e prestígio.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.