terça-feira, 8 de outubro de 2013

O assassinato de um presidente



O assassinato de um presidente
            Alcançamos um contexto histórico onde se tornaram comuns os atentados a pessoas inocentes sem nenhuma razão aparente. Chegam a ser tantos que as pessoas parecem ter aprendido a lidar com eles, especulando um motivo x e seguindo com a vida, sem precisar como um ser humano atingiu tamanho nível de desespero. Geralmente os culpados são as drogas, a violência na televisão e o heavy metal, mas talvez possam ser indício de uma realidade cancerosa que está na raiz de tudo isso. Tal é o assunto da seguinte película, inspirada em fatos reais.
            Acompanhando a trajetória do desafortunado Samuel J. Bicke percebemos como seu espírito romântico foi quebrado a ponto de transformá-lo em alguém tão angustiado e frustrado a ponto de acreditar que a eliminação do Chefe de Estado é a única maneira de alcançar sua paz interior. Vendedor de móveis, precisa aturar os desaforos de seu chefe que o força a mentir para fechar negócio com os fregueses. Constantemente reprimido no trabalho e passando por um difícil processo de divórcio, não entende como sua ex-mulher e seu amigo se resignam tão facilmente ao sistema.
            Apesar de ambientado em 1974 a projeção trata de um tema bastante atual que é a eliminação da liberdade e independência do indivíduo para dar lugar à hipocrisia e o cinismo funcionais de uma sociedade pós-moderna que apresenta claros sinais de decadência.
            A força do filme deriva da motivação do protagonista, já que sua revolta é a do homem comum, que busca nada além de um trabalho honesto para sustentar sua família, mas que para isso precisa mentir a enfrentar uma enfastiosa burocracia.  A narração em off ao longo da narrativa é uma carta ao maestro Leonard Bernstein, pois ele seria alguém com sensibilidade suficiente para compreender a atitude do desesperado personagem.
            O presidente republicano Richard M. Nixon é visto como o símbolo de uma ideologia onde tudo é justificável se o objetivo é o arrendamento de lucros e acumulação de poder. Isso é demonstrado de forma bem clara nas sucessivas declarações do mesmo na televisão, que chegam inclusive a fazer referência ao assassinato do presidente chileno Salvador Allende, que foi eliminado por agentes da CIA.
            O personagem principal guarda semelhanças com Travis Bickle, o protagonista de Tavi Driver: cansados de uma realidade opressora e injusta, ambos sentem a profunda necessidade de realizar um ato simbólico que trará sentido às suas existências. A diferença é que para o motorista de táxi trata-se de um processo catártico enquanto o outro sente que é seu destino mandar uma mensagem a todos aqueles que subestimam a força do povo.
            Impossível mencionar o elenco sem comentar o excelente desempenho de Sean Penn, na pele do personagem principal. Seu genuíno amor por sua família e a frustração de suas expectativas cativa o espectador e o ajudam a compreender sua atitude desesperada e leviana. A sempre ótima Naomi Watts também merece destaque interpretando uma mulher que rejeita o ex-marido, mas não quer magoá-lo e coloca as necessidades dos filhos acima de sua dignidade.
            Um filme interessante sobre uma pessoa que sentiu a necessidade de se posicionar frente a uma realidade deprimente onde os detentores do poder manipulam a verdade para alcançar seus propósitos, buscando justiça por uma sociedade que se acostumou a viver sem ela.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

As invasões bárbaras



As invasões bárbaras
Em nosso tempo é alarmante notar que nossa experiência histórica contribuiu muito pouco para nosso amadurecimento emocional e psicológico, de forma que acabamos repetindo os mesmo erros cometidos no passado.
Todos os paradigmas que foram se derivando para buscar uma melhor compreensão do pensamento humano e sua conseqüente decodificação dos sinais que se apresentam ao nosso redor foram suprimidos pela ideologia calcada no imediatismo, pragmatismo e eficiência, especialmente a nível financeiro. Esta projeção traça um interessante paralelo entre essas duas formas de pensamento.
A narrativa acompanha os últimos dias de Rémy, um professor de história cuja doença terminal o enclausura em uma enfermaria no Canadá. Seu pensamento anarquista e liberal sempre divergiu dos ideais capitalistas de seu filho Sebastien, um administrador de riscos financeiros para grandes empresas, mas as diferenças são postas de lado quando o rapaz busca todas as formas possíveis para que seu pai aproveite ao máximo seus últimos dias, ainda que seja em uma cama no hospital.
É importante informar também que apesar da doença e das dores, o protagonista nunca perde o seu bom humor e seu carisma contagiante, embora tema a morte iminente em certos momentos.
O filme é uma seqüência de outro intitulado “A queda do Império Americano” que conta com os mesmos personagens quando eram mais jovens discutindo temas semelhantes, tais como o sentido da violência no século XX, ascensão e decadência da hegemonia ideológica americana no planeta, assim como relações amorosas e ponderações filosóficas a respeito da trajetória do espírito humano ao longo de sua vida na Terra.
Ressalto que embora seja uma continuação, é perfeitamente viável assistir a esta película sem ter assistido à primeira. São dois contextos completamente diferentes que se completam apesar de independentes um do outro.
Enquanto na primeira projeção foi discutida a questão de limitação comportamental dentro de uma sociedade normativa, a segunda trata do conflito de ideologias com a nova geração que não mais lê livros, vivendo de videogames e internet, sem pensar no próprio contexto histórico enquanto raciocina de forma simples e cartesiana. O dionisíaco versus o apolíneo.
Essa temática pode ser confirmada não somente no distanciamento do professor de seu filho, mas de seus alunos. As seqüências em que ele comunica sua retirada por motivo de doença e os garotos só indagam a respeito do calendário de provas mostra a indiferença dos mesmos pela disciplina e por seu antigo mestre.
O cineasta Deny Arcand apresenta um relato agridoce sobre este período de transição onde aqueles que refletiam e buscavam uma realidade mais interessante a nível emocional estão dando passagem para um novo grupo que tem sua mente direcionada para a praticidade e o sucesso monetário.
Uma belíssima obra sobre a necessidade que temos de aproveitar cada momento, absorvendo intensamente todas as experiências possíveis, pois são elas que constituem nossa essência, traduzindo a verdadeira realização do espírito humano.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.

domingo, 6 de outubro de 2013

Anti herói americano

Anti herói americano
A primeira sequência do filme “Anti-herói americano” apresenta de forma genial o seu protagonista: Na década de 50, em meio a uma fileira de crianças fantasiadas para o Halloween e pedindo doces, uma delas não está. Quando indagada sobre o porquê de tal comportamento ela responde: “sou apenas um garoto da vizinhança, ok ? Deus! Porque as pessoas tem que ser tão idiotas?”
Assim é Harvey Pekar. Excluído desde cedo do convívio “normal” por causa de seu aguçado senso crítico, não mede palavras para dizer o que pensa. Emocionalmente cansado e com uma baixa auto-estima, recebe duas péssimas notícias: está sendo abandonado pela namorada e perdendo a voz por causa de um nódulo nas cordas vocais, que por sua vez está relacionado ao fato de o mesmo estar sempre nervoso e gritando.
Trabalhando como arquivista em um Hospital de Cleveland, está constantemente frustrado e seus únicos prazeres são seus quadrinhos underground e os LPs de Jazz que coleciona compulsivamente. Deseja deixar seu “recado” para as gerações posteriores e a angústia é tanta que, mesmo sem sabendo desenhar, escreve uma HQ subversiva onde se insere como personagem principal.
Percebendo o potencial do conteúdo, o amigo e famoso cartunista Robert Crumb pede para ilustrar a história. Nasce então “Esplendor Americano”, uma revista em quadrinhos que serve como espelho das decepções e anseios do homem pós-moderno, onde Harvey relata o seu cotidiano, pontuando de forma crítica tudo aquilo que presencia.
Harvey tem uma relação simbiótica com seu simulacro, que está sempre mudando de forma em função da variedade de ilustradores que o retrata. Em um certo ponto do filme, ciente de sua mortalidade, ele pergunta à sua esposa Joyce: “Eu sou apenas uma pessoa que expõe sua vida num gibi ou meu personagem sobreviverá à minha morte?”
Além da sinopse genial, o filme dirigido por Shari Springer Berman e
Robert Pulcini
ainda nos brinda com uma estrutura igualmente interessante, confrontando o verdadeiro Harvey (que narra o filme em off), sua esposa e amigos com a versão ficional dos mesmos.Em uma determinada seqüência ele comenta ”Esse sou eu, ou o cara que me interpreta.Ele não é parecido comigo, mas tudo bem.”
 O enquadramento da película dialoga com o da HQ nas várias seqüências em que os mesmos são intercalados. Em certos pontos do filme eles chegam inclusive a se fundir.
 Vale chamar a atenção para a atuação ímpar de Paul Giamatti, que retrata o cartunista como alguém que parece estar sempre com um peso nos ombros, como se carregasse nas costas o fardo de todo o seu inconformismo. Hope Davis está igualmente fantástica como a esposa que, apesar do apoio freqüente, insiste em diagnosticar os problemas psicológicos do cônjuge e de todos que o rodeiam.
O que torna o filme e o quadrinho tão interessantes e únicos é que ambos relatam um universo de pessoas comuns, com sonhos e mágoas próprias de todos nós.Nada é maquiado ou romantizado. A complexidade está nos pequenos detalhes que revelam as singularidades de cada personalidade. É o particular que se projeta universalmente.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O cisne negro


O cisne negro
            O “lago dos cisnes”,composto por Tchaikovsky, é um ballet em quatro atos baseado na versão francesa de um conto de fadas alemão. Conta a história de uma princesa que foi transformada em cisne por um feiticeiro e somente o amor verdadeiro poderia libertá-la.
            A situação sofre um revés quando o princípe que a salvaria é seduzido pela irmã gêmea da mesma, o cisne negro, deixando para a pobre moça o suicídio como única alternativa de liberdade. A pureza frágil corrompida pela violência passional.
            A narrativa desta película acompanha a trajetória de Nina Sayers, uma dedicada bailarina que deseja muito o papel principal neste clássico que será apresentado pela sua Companhia. O único problema apontado pelo diretor da peça reside no fato de que ela é fria e pragmática demais para interpretar a antagonista, já que a estrela do espetáculo precisa desempenhar as duas performances.
            Ela consegue o papel, mas é instruída para acessar seu lado mais passional e imprevisível, ou não conseguirá alcançar a essência sedutora e charmosa da outra personagem.
            Consumida por suas incertezas, a dedicada dançarina vai lentamente perdendo sua sanidade, tendo alucinações enquanto busca ser mais espontânea e fiel aos seus instintos. Seu desejo pela perfeição a obriga a seguir um caminho sem redes de segurança, que possivelmente transformará sua vida para sempre.
            A montagem do cineasta Darren Aronofsky retrata com perfeição a lenta metamorfose de Nina,cuja devoção é percebida no toque de seu celular e nas horas praticando depois que todos se foram do estúdio.A irritação em sua pele é uma materialização de sua angústia, que vai se agravando com o desenrolar dos fatos.
            Interessante apontar também a estreita relação que a protagonista tem com sua mãe, uma ex-dançarina que abandonou a arte para cuidar da filha. O demasiado esforço da garota pode ser entendido como uma maneira de compensar os sonhos dela.
            A chegada de Lily, a nova integrante que é a personificação da rival na peça, ajuda a moça a encontrar o espírito livre e sedutor da ave negra e ao mesmo tempo desperta ciúmes na moça, surgindo como a substituta ideal caso aconteça algum imprevisto.
            O diretor mostra ainda a curta “vida útil” das bailarinas, que enfrentam a iminência da aposentadoria aos trinta anos, sendo sempre preteridas em função das mais jovens, que possuem mais energia e desenvoltura.
            Uma projeção onde a vida imita a arte e vice-versa. O delírio agindo como ponte para encontrar a natureza do desempenho necessário. O sacrifício pessoal para oferecer à platéia algo que elevará seus espíritos e os transportará para uma dimensão de beleza divinal.
            O grande destaque no elenco é  Natalie Portman, ilustrando a confusa e frágil protagonista, que se entrega completamente pela beleza dessa arte, a ponto de abstrair sua consciência em prol da dança. O filme traz outras contribuições igualmente memoráveis, como as de Mila Kunis, Vincent Cassel e Winona Ryder.
            A técnica não se sustenta sozinha. Ela precisa da paixão para direcioná-la, podendo ser derivada de uma enxurrada de sentimentos conflitantes que traduzem a complexidade da existência.A urgência da ruptura com a segurança emocional para compreender suas verdadeiras motivações.
            Um filme sobre se perder no próprio inconsciente para encontrar o elo em comum com a personagem que interpreta, compartilhando com a mesma suas dúvidas e desejos,amadurecendo com essa experiência para conseguir o objetivo máximo: encantar e seduzir o público.

            Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.
E-mail para contato: gilson.salomao@gmail.com
           
           

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Medo e Delírio

Medo e Delírio
O cineasta Terry Gilliam é famoso por explorar a linha tênue entre fantasia e realidade, o que explica o seu interesse pela obra do jornalista Hunter S. Thompson, o criador do jornalismo gonzo, caracterizado por seu estilo mais autoral e espontâneo, terminando com a distinção entre autor e sujeito, ficção e não-ficção. Escreveu diversos artigos onde pregou a contracultura e criticou a estrutura reacionária de pensamento da extrema direita norte-americana.
Baseado na obra homônima do mesmo, “Medo e Delírio” acompanha o escritor e seu advogado numa viagem a Las Vegas em 1971 para fazer a cobertura de um rally de motocross patrocinado por um dos hotéis locais. Usando pseudônimos (Raoul Duke e Dr. Gonzo, respectivamente) e embriagados por todos os tipos de entorpecentes conhecidos pelo homem eles viajam em busca do “Sonho Americano”, impulsionado pela ideologia de Timothy Leary, que pregava o uso de drogas para a expansão da consciência.
O filme retrata o efeito massacrante do governo americano na década de 70, que varreu qualquer traço de desconstrução e anarquia tão comuns na década anterior. Em certo momento o protagonista afirma, olhando para a janela “Nós realmente tínhamos a sensação universal de que fazíamos a coisa certa. Estávamos no pique da onda. Hoje, com o tipo certo de olhar, podemos perceber onde foi que a onda rebentou... e recuou”.
A dupla busca permanecer sempre entorpecida, pois não se encontram em sintonia com a realidade vigente. São como fantasmas de uma geração que enxergava o mundo através de uma outra perspectiva. O uso de uma pequena bandeira americana para cheirar éter ilustra bem esse contraste.
A cidade de Las Vegas termina por transformar-se em um personagem na história, ícone da angústia e do desespero por alguma forma de recompensa ao final da jornada, mesmo que isso custe o definhamento do próprio espírito.
O cineasta usa a película para criticar não apenas a ideologia do poder, representada pela convenção de promotores, mas também os entusiastas da “onda do ácido” que não entenderam o conceito e tornaram-se catatônicos e escravos do vício ao invés de usarem o narcótico para evoluir mentalmente.
A narrativa por vezes desconexa e a câmera cambaleante funcionam perfeitamente para criar a ambientação, aproximando o espectador da mente confusa do protagonista. Os flashbacks surgem como lampejos de memória tentando construir a trajetória de alguém que viu sua utopia social desmoronar, tanto que Hunter Thompson se suicidou com um tiro de espingarda na cabeça em 20 de fevereiro de 2005. Ele deixou um bilhete em que se mostrava deprimido e sofrendo de terríveis dores após uma cirurgia na região da bacia.
A fotografia e a trilha sonora pontuam de forma perfeita, ao lado das interpretações impagáveis de Johnny Depp e Benício Del Toro como a dupla que busca as drogas para encontrar algum tipo de explicação para a opressão moralizante que tinha tomado conta do país naquela época.
Interessante comentar que apesar de todo o contexto trágico apresentado, o cineasta montou um filme leve, onde o contraste e o humor emergem de forma natural nas situações apresentadas. O triste é notar que a grande maioria enxerga essa projeção como um filme de comédia, quando há bem mais a ser percebido. A sutileza pode causar esse efeito.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.


terça-feira, 1 de outubro de 2013

A rainha Margot



A rainha Margot
O poder exerce uma curiosa influência no psicológico de quem o detém, dando vazão a  levianas atitudes que podem colocar várias vidas em risco. Uma ordem pensada num momento de fraqueza pode levar à queda de um Estado ou causar um genocídio de proporções épicas. Ao longo da história tivemos vários exemplos desta afirmação, desde a época dos faraós e imperadores romanos aos dias de hoje.
A seguinte projeção tem sua narrativa baseada no romance homônimo de Alexandre Dumas que por sua vez usou de fatos reais para arquitetar sua obra. Ambientada em 1572, durante o período de conflito entre protestantes e católicos na França, ela tem início com o casamento entre Margerithe de Valois e Henrique de Bourbon (Rei de Navarra) com o objetivo de consolidar a paz e estabelecer uma aliança entre as duas facções divergentes.
A medida tomada não surte o efeito desejado pois o clima de desconfiança continua aumentando da mesma forma, chegando ao seu limite com a tentativa de assassinato do Almirante Coligny (líder dos protestantes e amigo do rei Carlos IX).
Temendo uma represália, o governo católico condena à morte todos aqueles que pertencem à outra religião, resultando em um dos maiores genocídios da história conhecido como “A noite de São Bartolomeu”,onde morreram aproximadamente seis mil pessoas.
 O rei de Navarra, temendo por sua própria vida, já que foi um dos poucos sobreviventes do massacre, é forçado a se converter e torna-se um refém da situação, sem condições de retornar a seu governo enquanto escapa das tentativas de assassinato engendradas pela rainha Catharina, que manipula o filho Carlos IX enquanto prepara a ascensão de Anjour, o seu predileto.
O cineasta Patrice Chéreau apresenta de forma eficiente a complexa rede de intrigas familiares e conflitante contexto histórico que a sustenta assemelhando-se em vários aspectos às tragédias shakespearianas, onde todos são escravos do destino.
Interessante notar o amadurecimento da protagonista ao longo da película: sendo inicialmente retratada como apenas um objeto de barganha de sua mãe ela aos poucos vai percebendo todo o esquema sórdido articulado por sua família para consolidar o poder.
O elenco confere perfeição a esta película, com destaque para Isabelle Adjani que transpira toda a força e independência de uma Margot que luta para conquistar sua autonomia. O sempre ótimo Daniel Auteuil merece a devida menção ao retratar um rei completamente indefeso que passa a temer por seu próprio destino ao perceber que está lidando com pessoas emocionalmente instáveis que não respeitam nem os próprios laços familiares para consolidarem seu poder.
Contando com fotografia e trilha sonora belíssima (especialmente a música que toca durante os créditos finais), esta película narra de forma belíssima a triste arquitetura de poder gerada pela sede de conquista que vai sepultando inocentes sem mesurar o quanto isso é nocivo para a própria sociedade que estará sob a sua administração.
Um painel que infelizmente não se renova e infelizmente reflete a situação de alguns governos ao redor do globo, onde o interesse de um é mais relevado que o interesse de todos.
Música Mencionada na Resenha 
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.