sábado, 25 de outubro de 2014

Louca lua


Louca lua

Louca lua
Ilumina a rua
E me faz viver
Vem toda nua
Eterna viúva
Do amanhecer
Brilha eterna,soberana
Sensual
Radiante
Insana
Guia de marinheiros e profetas
Musa dos namorados e dos poetas
Tímida e mundana
Tirana da escuridão
Afasta do peito
Minha solidão
Guia minh’alma
Na imensidão
Me ajuda a crescer
Neste mundo cão
Não quero vagar
Por aí sem solução
Só peço amor
Luz

E paz no coração.

Outra vez você


Num oceano de pétalas cristalizadas
Rabisquei a sombra furtiva do teu nome
Nas azáleas diáfanas de minh'alma
Agonizei o lembrar de cantar o seu toque
A pureza da tua voz mergulha um clarão de perfumes
Trevas de louvores descarnados
Luzágrimas do meu dorviver
Os suspiros ofegantes do seu olhar
Refrescam nuvens negras numa manhã cáustica
A tua essência repousa num turbilhão
de estrelas cadentes suspensas
Vapores levianos valsam na delicadeza desencantada da tua cabeleira
Na clareza ofuscada e labiríntica do afã da eterna distância próxima...
do seu carinho....
Traço tortos versos encadeados
Embaraçosamente desconexos
Assim como o titânico e avassalador prazer
Que é decifrar suas indagações viscerais
Sufrágios de um náufrago moribundo
Submerso em desinências elementares
Cárcere do cálice dos teus beijos
Tormento de amar doer.

Para uma estranha

Para uma estranha

(Uma pequena homenagem a Charles Baudelaire)

Tua boca é uma transmutação de contradições que se encerra nos meus lábios, traduzindo a quintessência luminosa e agridoce de um vernáculo antigo. Seus olhos são duas chamas de lágrimas que explodem perfumes noturnos, enfeitiçando e afogando em delírios aqueles que as percebem.Seu sorriso é uma cascata de pérolas inundando o infinito e descortinando fortalezas de névoa fincadas em ventres de vidro.Se o mundo soçobrar debaixo dos meus pés, certamente será a tua mão, com dedos fortes, ágeis e suaves que me impedirá de sobrar em um abismo qualquer, vítima de minhas próprias idiossincrasias.Contarei sempre com a tua voz orvalhada para embalar minhas noites perturbadas. Por você eu despedaçaria constelações inexistentes e faria um cordão com o choro das estrelas! Escalaria o mais alto abismo para esculpir o teu relicário de memórias que nunca serão lidas!Porque você é o desespero do sábio e a loucura do forte, a inverdade do indeciso e a confusão do confiante. A ti todas promessas serão feitas, mas poucas serão cumpridas. Talvez porque você desperte algo maior e mais puro que o próprio desconcerto da vida.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A dama etérea

Perdido em vales etéreos de estrelas cáusticas rabisquei teus sonhos em nuvens de cristal lagrimadas em perfumes adormecidos. Suspirando numa jangada quebradiça percebi a incompreensão despedaçada em silêncios constrangedores. A eterna angústia disfarçada nos enigmáticos intervalos onde projetei minhas dúvidas em seus olhos. O abraço imaginário que finalmente dissipará todas as dúvidas enquanto fundirá nossas essências na certeza de que todos os desencontros serão aquecidos, confortados em sorrisos desencantados. 
Tuas palavras ecoam enigmas remendados em desamores ressecados.Sua essência tem o odor inebriante de um lírio adormecido em luares imaginados. Basta um sorriso teu para desabrochar um relicário de esperanças perdidas, remendadas em desenganos torturados, devolvendo promessas antigas que teimamos em acreditar, mesmo antecipando a óbvia desilusão.  
A sugestão do reencontro dissipa a angústia bordada em cálices invernais transbordados de acácias pulsantes, reluzindo teus lábios como pétalas perdidas e mistificadas em sonetos atemporais. Teu olhar desdobrando um vasto universo de enigmas que inebria e desnorteia, convidando enquanto conduz à perdição os pobres marinheiros que ousarem navegar em teus segredos. 
Cada gesto vacilante traduz um caleidoscópio de nuances descortinadas, indecifráveis enquanto sedutoras, entrelaçadas por esperanças agridoces, sublimadas por vapores cálidos que conduzem lembranças ofuscadas  por carícias suspensas em gritos abafados, costurados em desespero e luxúria. 

quinta-feira, 23 de outubro de 2014


A dama etérea 

Perdido em vales etéreos de estrelas cáusticas rabisquei teus sonhos em nuvens de cristal lagrimadas em perfumes adormecidos. Suspirando numa jangada quebradiça percebi a incompreensão despedaçada em silêncios constrangedores. A eterna angústia disfarçada nos enigmáticos intervalos onde projetei minhas dúvidas em seus olhos. O abraço imaginário que finalmente dissipará todas as dúvidas enquanto fundirá nossas essências na certeza de que todos os desencontros serão aquecidos, confortados em sorrisos desencantados.
Tuas palavras ecoam enigmas remendados em desamores ressecados.Sua essência tem o odor inebriante de um lírio adormecido em luares imaginados. Basta um sorriso teu para desabrochar um relicário de esperanças perdidas, remendadas em desenganos torturados, devolvendo promessas antigas que teimamos em acreditar, mesmo antecipando a óbvia desilusão.
A sugestão do reencontro dissipa a angústia bordada em cálices invernais transbordados de acácias pulsantes, reluzindo teus lábios como pétalas perdidas e mistificadas em sonetos atemporais. Teu olhar desdobrando um vasto universo de enigmas que inebria e desnorteia, convidando enquanto conduz à perdição os pobres marinheiros que ousarem navegar em teus segredos.
Cada gesto vacilante traduz um caleidoscópio de nuances descortinadas, indecifráveis enquanto sedutoras, entrelaçadas por esperanças agridoces, sublimadas por vapores cálidos que conduzem lembranças ofuscadas por carícias suspensas em gritos abafados, costurados em desespero e luxúria.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Elias Canhoto e a Onça Caolha

Elias Trancoso nasceu em uma solitária tarde de Setembro, com o inverno teimando em se despedir e a primavera já acenando convidativa. Veio ao mundo numa pequena estância do interior de Minas Gerais, isolada do mundo civilizado numa época onde a moral e os bons costumes ainda serviam como bússola para a conduta dos cidadãos.
Filho do tropeiro Matias Trancoso com a lavadeira Sebastiana Gusmão, cresceu em comunhão com a natureza, pescando, tomando banho de cachoeira e comendo frutas no pé. Um traço o caracterizou desde cedo: usava a mão esquerda com mais frequência que o normal, causando um estranhamento em seus pais, que tentaram a todo custo "corrigir este problema". Por fim acabaram desistindo, depois de perceber que isso não afetava a sua saúde nem sua personalidade.
Quando completou seis anos seu irmão Quincas nasceu. Desde então tornaram-se parceiros inseparáveis. Como o pai estava frequentemente distante em viagens, Elias acabou por se tornar o seu protetor e guia na maior parte do tempo, respondendo aos questionamentos do pequeno e cuidando para que nenhum mal lhe acontecesse.
Assim seguiram até o impensável acontecer. Depois que o pequeno completou dez anos, seu irmão concluiu que estava na hora de ensiná-lo a pescar. Decidiram ir num rio que ficava a umas duas horas de distância a pé, seguindo por uma estrada de terra enfeitada por flores e árvores frutíferas variadas.
Elias escolheu com cuidado o melhor bambu para fazer o caniço de seu aprendiz. Estava extremamente feliz por poder compartilhar uma de suas grandes paixões com seu mais fiel companheiro. Preparou o instrumento com um carinho ímpar e enquanto colocava a isca no anzol ia repetindo as instruções até o pequeno se cansar de ouvi-lo.
Quincas logo pegou o jeito e em pouco tempo já estava quase tão bom quanto o seu professor. Elias olhava orgulhoso o menino lançar sorridente o anzol na água e aguardar ansioso pela sua próxima vítima. A dupla se divertiu tanto que acabou perdendo a noção do tempo. Quando perceberam já tinha começado a escurecer. O pequeno ficou com medo e segurou forte no braço de seu irmão, enquanto eles retornavam pela estrada agora escura e cujo silêncio só era quebrado pela sinfonia das cigarras.
De repente Elias viu um par de olhos brilhando na beira da estrada. Era uma onça pintada e ele só tinha trazido uma faca de limpar peixe, pois nunca tinha encontrado um predador tão feroz naqueles arredores. Por outro lado ele nunca tinha ficado até aquela hora da noite fora de casa. O animal fez menção de avançar e Elias se interpôs para defender o irmão menor. Ela recuou, inclinando seu corpo para depois saltar sobre o jovem, que mal teve tempo de pegar sua arma. Elias usou todas as suas forças para empurrar a jugular da onça, que avançava ferozmente em sua direção.
A faca tinha caído a alguns centímetros de distância. Quincas pegou a faca e enfiou no olho esquerdo do animal, que desviou sua atenção para o pequeno e avançou sobre ele, rasgando sua jugular e o matando instantaneamente.Elias mal teve forças para se levantar,
quando conseguiu, percebeu que o animal tinha arrastado o garoto para dentro da escuridão, que agora estava em sua plenitude.
Voltou andando para casa, mal conseguindo raciocinar direito. Sua mãe veio correndo desesperada em sua direção e quando recebeu a notícia desmaiou no mesmo instante. A partir daquele momento Sebastiana deixou de se alimentar direito e foi definhando até falecer, sem nunca perdoar o seu primogênito pela tragédia.
Após enterrar sua mãe no quintal de sua casa, Elias partiu antes que seu pai retornasse, levando a velha carabina que ficava em cima do armário no quarto de sua mãe, para proteção de possíveis assaltantes ou animais ferozes. Partiu montado no único cavalo da família, um pangaré branco chamado Barbante. Foi andando em direção ao Leste, seguindo a onça caolha que havia arruinado a sua vida.
Cavalgou por algumas horas até chegar ao vilarejo de Calda Seca. O sol começava a se despedir e o cansado cavaleiro viu os últimos raios daquele longo dia iluminando uma bela morena com um vestido de renda branco enquanto ela tirava as roupas do varal.
Procurou uma hospedaria mas não encontrou. Acampou nos arredores e dormiu sentindo fome. No dia seguinte acordou com cheiro de café que vinha de uma casa próxima. A boa senhora que ali morava o viu se levantando e lhe ofereceu uma caneca com pão de milho e queijo minas. Enquanto se alimentava ia meditando sobre o que faria a seguir. Depois começou a caminhar pelo vilarejo, procurando por alguém que tivesse pistas de seu nêmesis.
Quando reencontrou a morena do dia anterior, percebeu que ela estava carregando uma enorme trouxa de roupas para lavar no rio ali perto e se ofereceu para ajudá-la. Seu nome era Dália e ao contrário do que ele havia imaginado, a moça era confeiteira, fazendo pães e bolos para serem vendidos na mercearia do seu pai.
Dias viraram semanas, que viraram meses, que viraram anos. Assim os dois foram ficando cada vez mais íntimos, chegando inclusive a morar juntos, enquanto ele ia melhorando gradativamente a sua pontaria na carabina. Conseguiu um emprego na venda de seu sogro, ajudando no transporte de mercadorias das cidades vizinhas e servindo bebidas aos fregueses que ocasionalmente apareciam para molhar a goela e trocar dois dedos de prosa.
Seu habitual uso da mão esquerda chamava a atenção dos habitantes da cidade, que ficavam intrigados com essa peculiaridade, como se de certa forma, ele fosse marcado de forma especial. O estigma virou benção.
Ela trouxe alívio para a sua alma e por um momento Elias até pensou em abandonar sua vingança, imaginando que a besta de um olho só provavelmente já estaria a caminho da morte, com suas habilidades predatórias prejudicadas, definhando solitária e ansiosa pelo fim de seu sofrimento. Apesar de tudo isso, nada conseguia aplacar os pesadelos que invadiam o seu sono todas as noites.
Era sábado. Estava sentado na varanda da casa de sua amada após o almoço quando recebeu a notícia que tanto esperava: dois pescadores lhe disseram que viram uma onça com
o olho esquerdo furado, deitada embaixo de uma mangueira a algumas horas dali. Sem hesitar ele passou a mão na arma e foi atrás da maldita.
Conseguiu chegar no local com certa facilidade, seguindo as instruções que lhe foram dadas. Quando finalmente a reencontrou magra e pálida, deitada na sombra da frondosa árvore, sentiu suas pernas tremerem com a lembrança da noite fatídica onde sua vida tinha começado a desmoronar. Preparou a carabina e mirou, mas não conseguiu atirar. Estaria aliviando seu sofrimento. Não, não, ela não poderia se livrar tão fácil. Não depois de toda a dor que tinha causado. Resolveu acompanhá-la de longe, sorver lentamente a sua agonia.
Assim Elias foi seguindo o animal que andava com dificuldade e conseguia pegar apenas alguns pequenos animais que tinham o infortúnio de cruzar o seu caminho. Sem a sua visão periférica, estava com os seus dias contados e de certa forma sabia disso. Olhava moribunda para o rio, sentindo o cansaço nos ossos e ao longe seu algoz sentia uma certa justiça agridoce acontecendo.

Depois de uma semana a onça finalmente caiu para não mais levantar. Os urubus que já estavam a rodeando há alguns dias pousaram e começaram a devorar suas entranhas. Sentiu então uma estranha sensação alívio percorrer pelo seu corpo, que fez com que ele caísse ajoelhado no chão e começasse a chorar, percebendo assim a cicatrização interior que lentamente começava.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Dândis, capuccinos e um pouco de xerez

Fico feliz em poder reaver uma série tão querida graças à “magia do torrent”. Procurei esta série para baixar, vender e não achei em lugar nenhum, foi um sufoco. Estou falando de “Frasier”, série famosa na década de 90, que começou como “spin off” de uma série mais antiga ainda que ironicamente, eu achei para vender. Conta a história de um psiquiatra que, após se divorciar da mulher em Boston, volta para a Seattle, sua terra natal onde reencontra seu irmão Niles, que também exerce a mesma profissão, e seu pai, um policial aposentado por invalidez após tomar um tiro no quadril.
Interessante perceber como a série trabalha a interação entre esses três personagens. Os dois irmãos, intelectuais com gostos bastante parecidos, são como dândis que tem pouquíssimo ou quase nenhum traquejo social e vivem como se estivessem numa bolha, com seus capuccinos no café Nervosa, óperas, discussões literárias embaladas por xerez e gastronomia refinada no “Le Cigare Volant”, enquanto o pai deles é altamente sociável, desprendido de praticamente tudo, prefere o conforto ao luxo sempre e quase sempre está bem humorado, pronto para tomar uma cerveja no McGintys, um pub frequentado por policiais. O embate entre esses dois pontos de vista gera curiosas discussões, onde não existe um lado que está certo o tempo todo. Estão o tempo todo querendo chegar a um meio termo, um estado de equilíbrio, que enriquecerá os dois lados da balança.
O embate entre os dois irmãos é igualmente fascinante. O mais velho, seguidor da linha freudiana de pensamento, está sempre buscando interagir mais com as pessoas. Trabalha num programa de rádio dando conselhos aos ouvintes que ligam. Seu irmão mais novo, seguidor de Jung, possui um escritório e não respeita o ofício do irmão, embora tenha ressinta sua notoriedade, enquanto o outro, apesar da fama na cidade, não possui o apreço da comunidade psiquiátrica, onde seu irmão caçula é altamente considerado.
Os relacionamentos amorosos dos irmãos também valem um comentário à parte. Casados outrora com mulheres frias e emocionalmente distantes, a dupla tem o péssimo hábito de racionalizar a exaustão todo tipo de comportamento feminino, o que os leva ao óbvio fracasso. Niles, por sua vez, se apaixona pela fisioterapeuta de seu pai, uma garota humilde com quem não tem nada em comum, o que gera uma situação interessante, onde ele é obrigado a sair de sua zona de conforto.
Inteligentes, solitários, sofisticados e algumas vezes escravos de sua própria vaidade, ocasionalmente terminam presos em armadilhas projetadas em seu próprio raciocínio, analisando em excesso as coisas belas e simples da vida, que merecem ser apreciadas como são. Afinal, como diria Freud: “às vezes um charuto é apenas um charuto.”

quarta-feira, 11 de junho de 2014

O DEMÔNIO AZUL




O DEMÔNIO AZUL
            Vento. Choro. Febre. Su Lin. Meu Yin. Começo e fim de todas as minhas angústias . Perfume forte de Lótus perturbando a névoa do pensamento. Difícil explicar como tudo começou.Imagens vão se acertando aos poucos, ofuscadas pela raiva que sobe nas veias e cega na ponta de minha adaga. Corro matas, rios e montanhas esperando pelo fim. Fang. Canalha.
            Conheci minha amada faz tempo. Carregava vaso de porcelana em ponte de bambu. A pele pura branca  contrastando com cabeleira negra mística. Sopro de Rouxinol em noite cálida de inverno. Rosto delicado como choro de pétala em noite de luar...Percebi a eternidade sobejando cristais aromáticos na grande lagoa da existência. Perguntei pelo nome. Recuou assustada. Amor verdadeiro e puro nasceu para ser tratado com leveza. Implorei com cuidado. Falou como quem sopra névoa perfumada: Su Lin.
            Indaguei seu destino. Respondeu receosa. Casa. Ofereci para acompanhá-la. Quis saber o meu nome. Voz traiu harmonia, grosseira: Matsurato, samurai com orgulho. Sorriu, admirada. Agradeceu e seguiu caminho. Segui, torturado.
            Lar cercado de flores. Lótus. Enterrei espada no chão. Chorei. Se aproximou piedosa . Enxugou minhas lágrimas. Seda verde guiada por mão doce. Chorei mais ainda. Abraço amoroso. Beijo na fronte de marfim. Outro recuo.
            Desfalecer sofrido. Olhar caridoso. Arrependido. Suspiro cansado. Nívea mão estendida. Sonho de tocar infinito. Lábios na ponta dos dedos. Magnitude em pequenos frascos. Convite para chá.
            Carícia de flerte em borda de xícara. Sedução do espírito na intenção do querer. Lábios de pétala sorvendo néctar. Cabeleira valsa em vento de crepúsculo. Sorriso escondido nas mãos peroladas. Olhar recompensado de guerreiro. Chegada no paraíso das essências.
            Passeio por jardim. Doçura no andar. Ousadia de toque. Recuo. Lótus. Tristeza delicada de olhar feminino. Carícia na face. Flor que desabrocha em sorriso. Fuga.
            Noite brumosa cai. Negrume embriagado de estrelas. Perfume nas mãos e nos lábios. Lótus. Desfaleço em relva molhada. Eternidade de sonhos. Lembranças se tornam séculos. Conflito de alma guerreira. Entrega de armas. Lufada de folhas assobia no firmamento. Insônia de coração que borbulha.
            Retorno. Camuflagem soturna. Companheira escuridão. Luz na janela. Aproximação.Su Lin escova os cabelos. Pente de ossos. Lótus. Quietude disparada. Alvura de pele em luar azulado. Sabor de divindade.
Dia seguinte. Samurai adormecido. Paz. Despertar em cama de bambus. Surpresa. Casa conhecida. Fina textura de cobertor. Suspiro sonhador de corpo. Gosto de imobilidade.
Porta. Olhos preocupados na fresta. Sorriso de guerreiro cansado. Alívio de bem-estar. Convite para conversa. Receio de dama ao entrar. Aproximação com cuidado. Nobreza de felino no agachar. Dedos perolados na testa. Lábios desejam tocar. Mão recua assustada.. Choro calado de leviano. Pano de seda que volta. Pétalas tocam meu olhos. Delírio para nunca mais acordar.       
           


quinta-feira, 5 de junho de 2014

Navegando na solidão incompreensível



Lua cheia. Estava andando descalço na areia fofa e fria da praia, deixando me inundar pelos raios frios da Mãe Celeste quando olhei para o mar e vi uma coisa absolutamente fantástica que mais tarde acabou se tornando uma revelação: um barco de pesca balançava levado pelo vento enquanto o luar o rodeava, deixando o resto do oceano completamente negro. Era como estar dentro da tela “Pescadores no Mar” do artista plástico inglês William Turner. Enquanto me maravilhava com o espetáculo percebi outra coisa ainda mais fantástica: aquele barquinho acabou se revelando uma metáfora de minha jornada existencial.
            Sim, uma pequena embarcação navegando  ao sabor do lirismo, combatendo tempestades de mediocridade e enfrentando trovoadas e relâmpagos da vida. A vela principal sopra com o desfalecer manhoso das musas que me inspiram, assim como o sabor acidamente doce da melancolia.
            A alma leve segura com firmeza o leme do barco, enquanto o corpo balança no valsar da embarcação. A bússola é o pensamento livre, embalado por Bach e Beethoven.
            O motor deste barco tão potente é movido pelo simples prazer de estar vivo na Terra, sentindo a pureza de cada gesto inocente e esgotando ao máximo cada toque de amor, maravilhando-se com borboletas e tentando se igualar a elas, sentindo as delicadezas com que lábios femininos vibram de ternura num momento de vitória, deliciar-se com cada cabeça que descansa em nossos ombros cansados, inebriando-se com perfumes que nos transportam para o transcendentalismo da raça humana, sugando com fervor cada momento de tristeza, transformando lágrimas indecisas em pétalas de rosas e mergulhando calidamente em explosões de cristais coloridos e sonoros, perdendo-se do corpo para encontrar a nossa verdadeira essência, em meio a um oceano de embriaguez e loucura.
            Vou flutuando na incerteza aquática da existência, abastecendo nos grandiosamente pequenos poços de mistérios que se escondem sob corpos de fêmeas com fome de dominar o mundo e ao mesmo tempo tão frágeis quanto ele.
            A única meta é descobrir um enigma tão presente e ao mesmo tempo tão distante da minha compreensão: a raça humana.
            Somos um imenso quadro vivo: os líricos pintam as emoções enquanto os cartesianos as emolduram....

sábado, 22 de março de 2014

O último dos moicanos

O último dos moicanos
Nosso cotidiano é repleto de escolhas que irão implicar nos acontecimentos a seguir, sejam eles a longo ou curto prazo. Decisões que irão inferir no futuro que se projeta à nossa frente. Considerando a conjuntura de um território em conflito, a urgência por uma opção torna-se ainda mais importante, já que ela decidirá o destino de muitos.
Adaptada do romance homônimo de James Fenimore Cooper, a narrativa ambientada em território norte-americano no ano de 1757 segue a história de Hawkeye, filho de colonos ingleses que é criado por índios após a morte de seus pais biológicos. O conflito entre ingleses e franceses pelo território faz com que os britânicos comecem a recrutar milícias locais para lutar contra os seus oponentes, mas ele se mostra indiferente à situação, que aparentemente não lhe diz respeito. Após resgatar um grupo de soldados bretões do ataque de uma tribo indígena aliada ao inimigo, ele termina se envolvendo com a filha do Coronel Munro que estava sendo escoltada para ir ao encontro de seu pai ao lado de sua irmã Alice.
A partir daí fica clara sua posição no combate, mas a situação se complica quando os colonos percebem que foram ludibriados para ajudarem o exército inglês, pois este lhe garantiu liberdade para defenderem suas casas e famílias se necessário, mas quando isso aconteceu os mesmos foram impedidos de sair do forte onde estavam, correndo o risco de serem acusados de traição.
Outro fator agravante é a vingança jurada pelo índio Magua que não mede esforços para assassinar o militar e suas filhas pelos danos que este causou à sua família, acentuando a periculosidade do contexto apresentado.
O período histórico abordado é interessante porque permite várias angulações de um mesmo acontecimento, o que torna a história mais complexa e menos previsível.  Neste sentido temos a disputa entre os dois países europeus que se respeitam apesar do embate juntamente com o ponto de vista das diferentes tribos indígenas, cuja noção de justiça varia de acordo com o seu conjunto de regras e limites.
O cineasta Michael Mann mostra de forma bastante eficiente as divergências de pensamento entre os europeus, que visam somente o território sem mesurar o efeito das eventuais baixas e suas implicações dentro da guerra e os nativos, colonos e índios, forçados a defender um dos lados em meio a uma guerra que não lhes interessa.
O romance na projeção é tratado de forma bastante sutil, evoluindo de forma gradativa e reforçando a eficácia do sugestivo sobre o explícito. As relações amorosas têm um poder decisivo sobre o destino dos personagens envolvidos e funcionam com o propósito de incitar suas atitudes dentro da história.
No tangente ao elenco é imperativo citar o excelente desempenho de Daniel Day-Lewis, já que seu personagem é uma metáfora da confluência cultural onde o embate está imerso. O filme também traz a interpretação sublime de Madeleine Stowe, como a jovem inglesa que vai percebendo as variadas nuances da guerra na medida em que se envolve com o rastreador que se oferece para guiar a sua comitiva. Vale também a referência à notável performance dos atores nativo-americanos, já que grande parte da história está fundamentada neste núcleo.
Uma formidável projeção sobre a obsessão tragada pelo ódio e o amor que suspende e liberta, dois sentimentos instigando comportamentos e decidindo o que será reservado a cada um dos envolvidos.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Chocolate



O doce alimento que dá o nome à película em questão é revestido de certa dose de sedução e mistério, desde que foi criado pelos astecas.  É curioso notar sua incrível inclinação para aproximar as pessoas, tendo em vista que sua oferta sempre denota um gesto de carinho.
Sua variada gama de combinações está intimamente ligada à sua diversificada esfera de consumidores, refletindo um traço de suas respectivas personalidades.
A narrativa mostra um pacato vilarejo na França que recebe a visita de uma estranha mulher e sua filha às vésperas da quaresma. O prefeito Paul de Reynaud fica particularmente incomodado quando é informado de que a moça abrirá uma chocolateria em plena época de jejum, encarando tal atitude como afronta à ordem local.
A dona do novo estabelecimento, utilizando seu dom de associar cada pessoa ao seu sabor predileto, faz com que suas verdadeiras essências aflorem, contribuindo para uma série de mudanças na vida dos residentes locais.
O curioso embate entre o moralismo repressivo e os instintos libertados pelo chocolate levanta uma questão relevante sobre a importância de sermos fiéis à nossa identidade, já que ela nos define e diferencia perante os outros.
Cada indivíduo é especial em função de suas particularidades, assim como as inúmeras combinações e preparos do chocolate.
A questão da representatividade social também é amplamente explorada na projeção, já que o prefeito, não satisfeito com o sucesso da nova loja instaura uma rede de intrigas usando inclusive a Igreja para minar sua adversária.Quando esta começa a perder terreno na cidade um grupo de ciganos surge nas redondezas para reforçar sua mensagem.
O falso valor da opinião alheia, a intolerância e o preconceito, bem como a repulsa ao novo contribuem para que a convivência no vilarejo seja artificial e mecanizada, sem nenhuma forma de questionamento e engessada por um conjunto de regras que chegam a ser nocivas até mesmo para aquele que as cria e regula, o Conde Paul de Reynaud, pois este precisa viver uma mentira sobre a esposa ausente que o afasta de seu real interesse amoroso_ a bela Caroline Clairmont.
A montagem do cineasta Lasse Hallström faz com que a história nunca perca seu aspecto de fábula poética, trabalhando de forma gradativa o encantamento e a ruptura que o chocolate traduz através de suas inúmeras misturas, agindo como elemento catártico na vida dos habitantes.
Vale mencionar ainda as alusões à origem da iguaria, enriquecendo o ensaio idílico a respeito do assunto e revelando desde cedo sua natureza inebriante e transformadora.
O riquíssimo elenco enaltece a história de forma significativa com destaques óbvios para Juliette Binoche e Alfred Molina, ambos aprendendo que as mudanças mais significativas acontecem quando menos se espera.O filme ainda conta as ótimas interpretações de Carrie-Anne Moss, Judi Dench, Johnny Depp, Lena Olin e Peter Stormare.
Um libelo sobre a mudança de perspectiva da realidade a partir de um simples gesto fora da rotina carregada de vícios e normas sociais. Um convite para transcender e encontrar sua própria natureza.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Disque M para matar

Disque M para matar
            O cineasta inglês Alfred Hitchcock recebeu a alcunha de “mestre do suspense” por suas histórias de mistério engenhosamente construídas que exigem a atenção do espectador a cada detalhe, exibindo as peças do quebra-cabeça para depois montá-lo de forma sutil ao longo da narrativa.
            A película a seguir, adaptada da peça de Frederick Knott, apresenta Tony Wendice, um ex-tenista que, ao descobrir que sua esposa o traía com um escritor de romances policiais, resolve chantagear um velho conhecido para que ele a mate.
            Todos os passos são meticulosamente calculados pelo marido, mas quando sua mulher termina matando o assassino em legítima defesa ele se vê forçado a mudar de estratégia, plantando pistas no local para incriminá-la.
Margot é condenada e a data de sua execução marcada, mas seu amante e o Inspetor Hubbard não se dão por convencidos e continuam investigando para descobrir o que realmente aconteceu naquela noite.
A trama é incrivelmente bem traçada e Tony é um personagem formidável. A frieza com que calcula cada passo e seu raciocínio rápido diante de cada imprevisto é impressionante, podendo ser comparada à genialidade maquiavélica do Ricardo III de Shakespeare.
Todo grande personagem merece um antagonista à altura e o Inspetor o desempenha de forma magnífica e seu pensamento ágil não deixa escapar nem um detalhe, obrigando o verdadeiro criminoso a ficar sempre atento e cobrindo suas pistas.
A montagem é primorosa e cada take apresenta um elemento que será trabalhado ao longo da projeção, exigindo um carinho especial na apreciação da mesma. A agilidade dos diálogos enriquece a narrativa, trabalhando todas as possíveis versões do ocorrido.
O elenco merece uma menção honrosa, com destaque para a belíssima Grace Kelly, interpretando uma Margot que embora envolvida com outro homem ainda ama muito o marido e não hesita em seguir suas instruções para responder as perguntas da polícia. Outro destaque vai para Ray Milland que mostra um Tony cínico e calculista, sendo impossível não admirar sua engenhosidade apesar da cruel natureza de seus atos.
            É interessante notar que o diretor usa o plano aberto na maior parte do filme, apresentando o cenário como o palco de um teatro onde o drama e a trajetória dos personagens vão sendo expostos. Esse tipo de enquadramento é interessante porque permite que analisemos as diferentes impressões dos envolvidos à medida que a narrativa avança.
            Vários filmes e obras literárias já esmiuçaram a respeito da análise do crime perfeito. Desde o romance “Crime e Castigo” de Fiodor Dostoievski o homem tem se perguntado se é possível, tendo sido apresentadas desde então várias leituras diferentes. A película em questão também o faz de forma ímpar, com o refinamento próprio deste cineasta.
            É através de clássicos como este que percebemos como uma história intrigante deve ser contada, usando os elementos apresentados de forma simples e efetiva. Sua leitura original e brilhante só enriquece a cada leitura.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.

terça-feira, 4 de março de 2014

O amor nos tempos do cólera

Diversas histórias de amor já foram escritas, cada uma adotando uma angulação diferente deste sentimento que nos invade, completa e corrói ao mesmo tempo. Em 1985 o escritor Gabriel García Márquez escreveu um belíssimo livro que leva o mesmo nome de sua adaptação para a película em questão..
É natural que em casos como esse a obra escrita seja superior, especialmente pelo talento ímpar do referido escritor em tecer as palavras de forma tão rica e fluida que sua leitura torna-se uma experiência única.
Felizmente a projeção manteve a essência da história ambientada na Colômbia durante o final do século XIX, que acompanha o jovem Florentino Ariza, um operador de telégrafo cujo amor à primeira vista pela bela Fermina faz com que o mesmo dedique sua vida a amá-la para todo o sempre, apesar de quais quer obstáculos que surjam.
Ela corresponde aos galanteios do rapaz e começam a se comunicar através de cartas secretas, mas a garota é enviada para o campo pelo pai que deseja alguém melhor sucedido para ela.
Quando a mesma retorna, está convencida de que tudo não passou de uma ilusão e rejeita aquele que nunca deixou de pensar nela. Com o tempo, a jovem acaba se envolvendo e casando com o doutor Juvenal Urbino, um médico que acredita que a estabilidade é mais importante que a felicidade num matrimônio.
Florentino por sua vez não consegue superar o amor que sente pela garota e apesar de se envolver com várias mulheres e ascender socialmente, sente que sua vida está sempre incompleta sem aquela que jurou amar eternamente.
A projeção e o livro tratam do sentimento em questão como um estado de total entrega, remetendo ao poeta Charles Baudelaire (Amar é sair de si mesmo), que está além de nosso controle, trazendo êxtase e dor em dosagens proporcionais ou não.
O filme consegue traduzir de forma bem sutil a passagem de tempo, acompanhando os avanços tecnológicos que vão surgindo, como a advento da luz elétrica e dos automóveis, mesurando o tamanho da devoção do protagonista pelo objeto de seu desejo.
A trilha sonora e a fotografia são belíssimas, sempre fazendo alusão à riqueza de imagens e sons que o texto do autor denota.
O variado elenco também merece aplausos, especialmente Javier Bardem, que interpreta um homem cujo único objetivo é tornar-se alguém merecedor de quem ama, aguardando pacientemente pela oportunidade de demonstrar seu afeto. As participações especiais de Fernanda Montenegro, Liev Schreiber e John Leguizamo incrementam a riqueza da narrativa e merecem menção.
O amor tem potencial para transformar-se em algo épico, ultrapassando barreiras de tempo e espaço, fortalecendo e definhando na mesma medida aqueles que se prezam a viver sob suas regras.
Uma película importante numa época em que os relacionamentos humanos tornaram-se tão distanciados e funcionais. O instinto passional não mais define nossa identidade, tudo segue um propósito definido, racional. O diretor Mike Newell conseguiu fazer uma adaptação belíssima, mas é essencial que a obra literária seja lida em conjunto neste caso, pois há algo nas palavras que não pode ser traduzido.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.

    

segunda-feira, 3 de março de 2014

Luís da Câmara Cascudo-Vida e Obra de um gênio


Filho único de Francisco Justino de Oliveira Cascudo e Anna Maria da Câmara Cascudo, ele comerciante e coronel da Guarda Nacional, ela dos afazeres domésticos, nasceu Luís da Câmara Cascudo em Natal, a 30 de dezembro de 1898, onde viveu 88 anos até seu coração parar na tarde do dia de 30 de julho de 1986.
     Na água do primeiro banho a mãe despejou um cálice de Vinho do Porto para o filho ter saúde e o pai a temperou com um Patacão do Império para merecer fortuna. O padre João Maria, um santo da cidade, batizou-lhe no bom Jesus das Dores, e a poetisa Auta de Souza, amiga de sua mãe, embalou seu choro forte de menino-homem.
     Teve uma infância guardada entre cuidados exagerados, com ama de companhia, professora particular e proibido do encanto das ruas. No verão, vivia os dias na beira do mar, entre barcos e pescadores, e no inverno passava no sertão ouvindo vaqueiros e cantadores. Entre espumas e espinhos sedimentou sua cultura descobridora de homem brasileiro.
     Desejou ser um nobre médico de província e chegou a cursar os primeiros anos na Bahia e no Rio de Janeiro. Mas terminou cumprindo o destino de ser Bacharel em Direito e foi estudar na velha faculdade de Direito do Recife, onde ainda ouviu o eco dos discursos de Joaquim Nabuco e Tobias Monteiro e dos versos de Castro Alves.
     Sonhou ser jornalista e foi. Seu pai nessa época ainda era um homem rico e instalou o jornal A Imprensa para seu filho. Nas suas páginas, o estudante que lia até a madrugada passou a exercitar o gosto de escrever, mantendo uma coluna que chamou de Bric-a-Brac e onde exercitava o olho observando a paisagem humana e cultural da cidade e sua gente.
     Seu primeiro livro, Alma Patrícia, sai em 1921. É a reunião de pequenos estudos sobre poetas e prosadores na Natal de seu tempo. Depois vem Joio, encerrando a fase de crítica. Num breve exercício de ficção sob influência de Viriato Correia, escreve Histórias que o tempo leva, recriando narrativas literárias sobre as ruínas de velhos fatos históricos.
     O professor de História resiste nas biografias de figuras como Lopez do Paraguai, o Conde d'Eu e o Marquês de Olinda, mas não demora a entrar em sintonia com os modernistas do Recife e de São Paulo, o que lhe abre os olhos e os ouvidos para o homem comum nas suas crenças e costumes, seus cantos e suas danças, suas músicas e suas técnicas, sua vida e sua morte.
     Em 1939 lança Vaqueiros e Cantadores e seu nome se coloca, a partir de então, como uma legenda no estudo do saber do povo. Funda a Sociedade Brasileira de Folclore. Propõe uma teoria para a Cultura popular. Ergue com erudição um conceito brasileiro para a Literatura Oral. Viaja para beber nas fontes africanas o vinho arcaico de nossas raízes.
     Autor de clássicos da cultura brasileira como o Dicionário do Folclore, Civilização e cultura, História da alimentação no Brasil, ensaísta da Jangada e da Rede de dormir; antropólogo das Superstições; etnólogo dos Costumes; sociólogo do Açúcar; tradutor de Montaigne e Koster; historiador dos gestos - a obra de Cascudo é continente e ilha.
     Com mais de uma centena de títulos entre livros, traduções, opúsculos e artigos publicados no Brasil e em vários países, viveu a vida vendo e ouvindo, lendo e escrevendo, sem nunca pensar em deixar sua terra. Por isso não aceitou o fardo da Academia Brasileira de Letras nem o convite de Juscelino para reitor da Universidade de Brasília.
     Viveu e morreu na sua aldeia. Genial e humilde. Pobre e feliz.