quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O Cheiro do Ralo



O Cheiro do Ralo
A recente safra de cinema nacional tem produzido basicamente dois tipos de filmes: aqueles protagonizados por estrelas globais, com histórias fracas e visando o lucro das bilheterias ao lado de outros que primam pela originalidade, brindando o espectador com montagens alternativas, histórias inteligentes e atuações inspiradas.
 O problema encontra-se na divulgação. Enquanto o primeiro “vende” fácil, o segundo precisa ganhar algum prêmio ou contar com um ator famoso no elenco, ou então ficará vagando no limbo dos festivais de cinema, o que é incrivelmente injusto, mas real.
A projeção a seguir conseguiu emergir um pouco, o suficiente para que ficasse conhecida, graças ao seu ator principal, que além de ser conhecido pelo grande público, ajudou divulgando quando e como pôde principalmente em programas de TV.
Baseado na obra homônima de Lourenço Mutarelli, a narrativa acompanha a trajetória de Lourenço, o dono de uma loja de penhores que passa o dia atendendo pessoas que o procuram para vender objetos, pois precisam desesperadamente de dinheiro. Indiferente ao sofrimento alheio, suas únicas obsessões são o traseiro de uma garçonete e o cheiro do ralo do banheiro de seu escritório que gradativamente vai se tornando insuportável.
  A frieza desenvolvida para a obtenção de lucro transformou-se em prazer na decisão do destino daqueles que o procuram, jogando com a angústia de terceiros.
  Esse distanciamento terminou incrementando também uma rejeição a qualquer tipo de envolvimento emocional, a ponto de não mesurar o quanto suas palavras podem magoar alguém, guardando semelhança com o protagonista do filme “Melhor é Impossível”.
Um detalhe interessante é que todos os personagens são anônimos, já que observamos tudo pela ótica do perturbado e instável Lourenço.
Sua relação de amor e ódio com o ralo é interessantíssima: a principio tenta de todos os modos suprimi-lo e abafá-lo (como a Lady Macbeth shakespeariana, que não conseguia se livrar do sangue do homicídio em suas mãos) esclarecendo aos visitantes que o cheiro não vem dele, mas sim do ralo. Aos poucos, percebemos que há uma relação intrínseca entre ambos, já que o encanamento fedido é um espelho da essência do protagonista.
Nesse ponto lembro um ensaio escrito por Milan Kundera em sua obra máxima, “A insustentável leveza do ser”, onde ele pondera sobre a analogia entre a natureza humana e o esgoto como depositório de todas as fraquezas e defeitos expurgados e isolados a uma distância segura de forma rápida e segura, como se nunca estivéssemos ligados a eles.
O olho de vidro adquirido em certo ponto da narrativa é uma tentativa de Lourenço de atribuir um aspecto humano à sua personalidade, enriquecendo a complexa psique do personagem. Nesse ponto destaco o fenomenal trabalho de Selton Mello, que consegue trazer à tona todas as nuances deste tragicômico personagem, condenável em alguns aspectos, mas incrivelmente carismático.
“O cheiro do ralo” é um exemplo da potencialidade do cinema nacional, que tem bastante a oferecer, desde que se concentre na história e nas atuações _ o básico e essencial para uma projeção de qualidade.
Veja o filme online clicando AQUI

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O operário




O operário
O inconsciente humano revela surpresas a respeito de nossa verdadeira identidade, pois muitas vezes reprimimos nossas idéias e ações por medo da reação social ou até mesmo uma situação traumática. A razão costuma tomar o controle de nosso comportamento, mas nem sempre.
A emoção desvia o raciocínio gerando um ato leviano. Quando a mente não consegue seu necessário repouso, o pensamento lógico pode ser desviado gerando uma distorção da realidade, tendo como base o arquivo de memórias que permaneceu abafado por alguma razão.
A seguinte projeção acompanha a história de Trevor Reznik, operário industrial que não dorme direito há um ano, ocasionalmente tirando cochilos que não duram mais que dois minutos. A insônia gerou um definhamento de seu corpo, transformando-o em um “esqueleto ambulante”. Sujeito reservado, ele possui duas confidentes: a garçonete do aeroporto e a vizinha prostituta com quem mantêm uma relação amorosa.
Sua situação começa a piorar quando ele começa a ter visões de um estranho funcionário da fábrica que começa a pôr idéias em sua cabeça. O problema é agravado pelo estranho “Jogo da Forca” que aparece pendurado na porta de sua geladeira, criando um clima de paranóia e neurose entre o protagonista e todos ao seu redor.
A montagem brilhante do cineasta Brad Anderson apresenta Trevor perdendo gradativamente o controle de seu corpo e de sua mente de maneira tão alarmante que muitos colegas de trabalho chegam a imaginar que o mesmo está usando drogas.
A atmosfera sombria da fotografia e a trilha sonora dão o tom preciso neste intrigante suspense psicológico onde o protagonista busca por explicações a respeito do que está acontecendo, quando na verdade está realizando uma jornada interior enquanto tenta discernir o real do imaginário.
Interessante como o jogo de palavras vai criando diferentes hipóteses sobre quem esteja fazendo um jogo psicológico com a mente de Trevor, que por sua vez terminam revelando pistas importantes a respeito de eventos no passado que levaram o protagonista a tal estado auto-destrutivo.
Interessante notar o comentário ácido do diretor sobre a negligência do supervisor em relação às travas de segurança o que denota um desrespeito às leis trabalhistas para obtenção de lucro.
A película vai apresentando as peças do quebra-cabeça e o espectador é convidado a se juntar ao protagonista para decifrar este enigma e entender o que está realmente acontecendo, o que reforça a natureza complexa da narrativa, tornando-a mais envolvente.
O grande tema da projeção é universal, pois mostra a busca de um homem pela paz de espírito para finalmente descansar o corpo. O antigo ditado grego “mente sã em corpo são” confirma essa eterna necessidade que temos de criar uma sintonia entre a alma e o físico. O estado cadavérico de Trevor é um espelho de seu estado psicológico.
Um filme intrigante e inteligente sobre o impacto que certos eventos geram em nossa vida e a forma como nossas reações a eles acabam se manifestando em nosso cotidiano, independente de nossa aparente conduta racional.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Blackfish


Quando criança assisti ao filme “Orca: a baleia assassina”, por isso minha primeira impressão desse majestoso mamífero não foi das melhores. O documentário "Blackfish:fúria animal" investiga a morte da experiente treinadora Dawn Brancheau pela orca Tilikum no Sea World e as circunstâncias que levaram a essa fatalidade.
Conferir toda a história de maus tratos do mamífero, separado da mãe desde cedo, apanhando das outras baleias (as fêmeas são estremamente territoriais), confinado numa caixa de metal apertada, recebendo alimentação reduzida para depois de tudo terminar condenado a nadar cabisbaixo, frustrado, entediado,deprimido e isolado num tanque minúsculo é de cortar o coração. Igualmente podre é a empresa jogar a culpa da tragédia na treinadora e seu rabo de cavalo solto. A película retrata ainda uma série de incidentes envolvendo treinadores e orcas, demonstrando que esse tipo de incidente, embora freqüente, continua ocorrendo.
Uma crítica ácida a todo esse sistema de parques aquáticos, que coloca os treinadores em constante risco, iludindo os mesmos com a fantasia de que os animais estão realmente se divertindo enquanto fazem as acrobacias enquanto sacrifica as pobres criaturas marinhas para o entretenimento rentável e cretinamente disfarçado, ou alguém realmente acha que as baleias preferem saltitar e brincar num tanque de concreto a desfrutar do vasto oceano?

domingo, 12 de janeiro de 2014

Tão perto da distância (Um pequeno roteiro de minha autoria)

Tão perto da distância

CENA 1/INT/NOITE – SALA DA CASA DE FÉLIX E TOMAS ( FÉLIX ESTÁ SENTADO OLHANDO MELANCÓLICO PARA UM COPO DE VINHO QUE SEGURA COM AS DUAS MÃOS. TOMAS CHEGA TRISTE DA RUA)

TOMAS

OI, FÉLIX. NOITE RUIM, HEIM?

FÉLIX

NEM TANTO...

TOMAS

ENTÃO PORQUÊ ESSA CARA?

FÉLIX

QUE CARA?

TOMAS

PARECE ATÉ QUE ALGUÉM MORREU....

FÉLIX

NÃO, ESTÁ TUDO BEM, NADA ALÉM DO NORMAL. DO MEU NORMAL....

TOMAS

EU JURO QUE TENTO TE ENTENDER MAS NÃO CONSIGO. REALMENTE NÃO CONSIGO...

FÉLIX

SÃO ANOS DE DOR ARMAZENADOS, MEU AMIGO. ANOS DE DOR.

TOMAS

MAS COMO? NUNCA TE VEJO CHORANDO OU SE LAMENTANDO PELOS CANTOS...

FÉLIX

AÍ É QUE VOCÊ SE ENGANA. EU CHORO O TEMPO INTEIRO...
TOMAS (ESPANTADO)
MEU DEUS!

FÉLIX

NÃO FIQUE TÃO ESPANTADO. EU JÁ APRENDI A LIDAR COM ESSE SENTIMENTO.ALIÁS, LIDO TÃO BEM QUE OS OUTROS NEM PERCEBEM...

TOMAS

ISSO É VERDADE. E EU QUE SEMPRE ACHEI QUE VOCÊ SÓ GOSTAVA DE FICAR SOZINHO E MEDITAR SOBRE A VIDA...

FÉLIX

EU FAÇO ISSO TAMBÉM. EU NÃO FICO CHORANDO O DIA INTEIRO. GOSTO DE ANÁLISES.ANALISO TUDO O QUE POSSO. CADA PEDAÇO DE VIDA QUE ME PREENCHE ACABA SE AFUNDANDO EM TRECHOS DOS MEUS LIVROS...

TOMAS

MANEIRO. GUENTA A MÃO AÍ QUE EU VOU PEGAR UMA CERVEJA NA GELADEIRA E JÁ VOLTO...
(TOMAS SAI. FÉLIX DÁ UMA GOLADA NO VINHO E SUSPIRA. TOMAS VOLTA)
TOMAS
PÔ, FÉLIX, ACHO QUE PISEI NA BOLA HOJE.

FÉLIX

O QUE FOI?

TOMAS

SABE A LISANDRA, MINHA NAMORADA?

FÉLIX

SEI, VOCÊ ME DISSE QUE IA PEDIR A MÃO DELA EM CASAMENTO, O QUE ALIÁS ME SURPREENDEU BASTANTE, TENDO EM VISTA O SEU RELACIONAMENTO EFÊMERO COM O UNIVERSO FEMININO.

TOMAS

POIS É, EU IA PEDIR, MAS RECUEI

FÉLIX

RECUOU? O QUE ACONTECEU?

TOMAS

SEI LÁ, DE REPENTE PERCEBI TODA A MINHA VIDA MUDANDO E, SEI LÁ, FIQUEI COM MEDO, NEM CHEGUEI A TIRAR O ANEL DO BOLSO. VOCÊ SABE QUE EU NÃO GOSTO DE MUDANÇAS...

FÉLIX

VOCÊ SABE QUE A VIDA PRECISA DE MUDANÇAS, TOMAS

TOMAS

NÃO NECESSARIAMENTE...

FÉLIX

MAS É CLARO QUE PRECISA! O MUNDO EVOLUI E CRESCE, ASSIM COMO AS PESSOAS QUE VIVEM NELE. PENSE NISSO...
(FÉLIX BATE NO OMBRO DE TOMAS E SAI. TOMAS FICA SENTADO NO CHÃO, PENSATIVO)
CENA 2/INT/NOITE- SALA ( FÉLIX ESCREVE NUM PAPEL COM OS OLHOS CHEIOS DÁGUA. UMA LÁGRIMA CAI NA FOLHA)
TRECHO ESCRITO: NAS MÁGOAS DE ONTEM EMBRIAGUEI A SOLIDÃO DO MEU SER


CENA 3/INT/DIA – COZINHA ( FÉLIX OLHA TRISTE PARA UMA XÍCARA DE CAFÉ ENQUANTO TOMAS COME SUCRILHOS)

TOMAS

CÊ PRECISA COMER ALGUMA COISA. VAI ACABAR PASSANDO MAL.
FELIX ( OLHANDO PARA O VAZIO)
NAS MÁGOAS DE ONTEM EMBRIAGUEI A SOLIDÃO DO MEU SER
TOMAS (SEM GRAÇA)
DESCULPA,CARA. SÓ FALEI PRA TE AJUDAR
FELIX (“SAINDO DO TRANSE”)
DESCULPE, O QUE VOCÊ DISSE ?
TOMAS ( CONFUSO)
AAHN?

FÉLIX

ESQUECE

CENA 4/INT/DIA-ESTÚDIO DE TV (TOMAS CHEGA E UMA EQUIPE AVANÇA EM SUA DIREÇÃO)

TOMAS

CALMA,GENTE! EU SEI QUE O TEMPO É CURTO MAS VOCÊS JÁ CONHECEM O MEU LEMA!

TODOS

SE ESTRESSAR, SÓ VAI PIORAR!

TOMAS

ISSO MESMO. AGORA VAMOS RESOLVER TUDO COM CALMA PRA GENTE TERMINAR RÁPIDO, OK PESSOAL?

TODOS

OK TOMAS!

TOMAS

ÓTIMO
(AS PESSOAS COMEÇAM A ARRUMAR TUDO E, AOS POUCOS VÃO CONVERSANDO COM TOMAS E RESOLVENDO SEUS PEQUENOS PROBLEMAS TÉCNICOS. AO FINAL, QUANDO SENTA EM SUA CADEIRA DE DIRETOR E OLHA O CENÁRIO PRONTO, FICA SUBITAMENTE DEPRIMIDO)
TOMAS (GRITANDO)
INTERVALO!

PRODUTOR

FICOU LOUCO? A GENTE TÁ COM O TEMPO CONTADO PRA GRAVAR ESSE COMERCIAL E AGORA VOCÊ VEM COM ESSA MERDA?

TOMAS

NÃO ESTOU ME SENTINDO BEM, PORRA!

PRODUTOR

O QUE VOCÊ TEM?

TOMAS

NÃO SEI, DE REPENTE PELA PRIMEIRA VEZ TUDO ME PARECEU TÃO VAZIO...TÃO SEM SENTIDO. EU PRECISO DE UM TEMPO PRA PENSAR. MINHA NAMORADA VIAJOU ONTEM E EU ACHO QUE ESTOU COM...SAUDADE.
PRODUTOR ( SARCÁSTICO)
SAUDADE DE MULHER? VOCÊ? AH, NÃO ACREDITO. O GRANDE TOMAS OLIVEIRA DE QUATRO POR UMA MULHER? SINCERAMENTE, NÃO AHEI QUE FOSSE VIVER PARA PRESENCIAR ISSO!

TOMAS ( COM RAIVA)
NÃO ESTOU DE QUATRO PORRA NENHUMA! UM POUCO CONFUSO, TALVEZ, MAS DE QUATRO NUNCA, ENTENDEU? DE QUATRO NUNCA!

ENTRA SECRETÁRIA CORRENDO


SECRETÁRIA
SENHOR TOMAS, TELEFONE!
TOMAS (RADIANTE)
LISANDRA!

TOMAS SAI CORRENDO EUFÓRICO. PRODUTOR PASSA A MÃO NA NUCA EM SINAL DE PREOCUPAÇÃO...


CENA 5 /INT/ DIA ESCRITÓRIO –TOMAS ENTRA CORRENDO E ATENDE O TELEFONE. CENA DIVIDIDA AO MEIO MOSTRANDO TOMAS E LISANDRA CONVERSANDO EM LUGARES DIFERENTES

TOMAS (CONTIDO)
ALÔ.
LISANDRA (EMPOLGADA E TRISTE)
TOMAS? NOSSA, QUE BOM PODER OUVIR A SUA VOZ!

TOMAS

EU ESTOU COM...SAUDADES.

LISANDRA

PENSEI EM VOCÊ A VIAGEM INTEIRA

TOMAS

JURA?

LISANDRA

É A MAIS PURA VERDADE. E VOCÊ? TAMBÉM PENSOU EM MIM?
TOMAS ( SUFOCADO)
CLARO! TODO O TEMPO!

LISANDRA

TODO O TEMPO?

TOMAS

OLHA, LISANDRA, ME DESCULPE MAS EU ESTOU OCUPADO AGORA E VOU TER QUE DESLIGAR...

LISANDRA

NÃO, POR FAVOR NÃO DESLIGA...
TOMAS ( COM UM NÓ NA GARGANTA)
MAS EU TENHO QUE TRABALHAR...

LISANDRA (QUASE CHORANDO)

E EU PRECISO DE VOCÊ! ESTOU ME SENTINDO UMA JANGADINHA NO MEIO DO OCEANO E VOCÊ É A MINHA ÚNICA LIGAÇÃO COM O CONTINENTE....

TOMAS

DESCULPE, AMOR MAS EU TENHO QUE DESLIGAR
LISANDRA (RESIGNADA)
TÁ BOM. TE AMO. TCHAU ...

TOMAS

IDEM. TCHAU
TOMAS DESLIGA O TELEFONE E SE SENTE ESTRANHO. CHEGA O PRODUTOR NERVOSO
PRODUTOR
VAMO LÁ, TOMAS! O PESSOAL TÁ ESPERANDO!
TOMAS (OLHANDO PARA O CHÃO)
NÃO POSSO FILMAR HOJE.

PRODUTOR

MAS QUE PORRA É ESSA? PRIMEIRO FOI A MERDA DO INTERVALO PORQUE VOCÊ ESTAVA COM FOGO NO RABO E AGORA VOCÊ ME VEM COM ESSA? ASSIM É FODA!

TOMAS

EU NÃO VOU FAZER NADA PARA ME ARREPENDER DEPOIS. CHEGA DE ARREPENDIMENTOS, OUVIU, CHEGA!

PRODUTOR

MAS DE QUE MERDA VOCÊ ESTÁ FALANDO? VOCÊ É ALTAMENTE CONCEITUADO, TEM VÁRIOS PRÊMIOS E...

TOMAS

DESCULPA CARA, EU PRECISO DE UM TEMPO SOZINHO PRA ENTENDER UMAS COISAS...

PRODUTOR

QUE COISAS?
TOMAS ( SAINDO SEM OLHAR PARA TRÁS)
É PESSOAL....

PRODUTOR

É ESSA MULHER, NÃO É? OLHA O QUE EU TÔ TE AVISANDO, HEIM TOMAS! ESSA MULHER VAI FUDER COM A SUA VIDA, TÁ ME OUVINDO? ELA VAI FUDER COM A SUA VIDA!
CENA 6 – CASA  (FÉLIX ESTÁ SENTADO NO CHÃO, TOMANDO VINHO. AO FUNDO OUVE-SE UMA MÚSICA DE BEETHOVEN)

FÉLIX (OFF)
ESTOU SÓ. INCRIVELMENTE SÓ.GIGANTESCAMENTE SÓ.TENHO MUITO PARA COMPARTILHAR E QUASE NINGUÉM PARA ENTENDER...OU OUVIR. AS ÚNICAS PESSOAS QUE ENTENDEM O MEU UNIVERSO SÃO VELHOS FANTASMAS PRESOS EM PÁGINAS DE LIVROS, EXPERIMENTANDO O MESMO DESPREZO E A MESMA IGNORÂNCIA ALHEIA QUE CORROEM A MINHA ALMA NESSE INSTANTE E QUE SE ESVAI EM VERSOS FROUXOS NOS MEUS POEMAS CANSADOS...ESTOU SÓ...ATÉ QUANDO? SÓ O TEMPO PODE RESPONDER....

ENTRA TOMAS DEPRIMIDO

TOMAS
POSSO DESLIGAR ESSA MÚSICA SÓ UM POUQUINHO?

FÉLIX

PORQUÊ?

TOMAS

ELA  É DEPRÊ DEMAIS!

FELIX

E DAÍ? “ENCONTREI A DEFINIÇÃO DO BELO, DO MEU BELO. É ALGO DE ARDENTE E DE TRISTE”.

TOMAS

EU NÃO PRECISO DE MÚSICA PARA FICAR DEPRIMIDO, TÁ BOM?

FÉLIX

EU DESISTO DE TENTAR EXPLICAR QUALQUER COISA PRA VOCÊ...

TOMAS

VOU ARRASTAR MEUS PROBLEMAS PARA OUTRO LUGAR... DESTA VEZ NEM VOCÊ PODE ME AJUDAR

FÉLIX

POR QUÊ?

TOMAS

PORQUE O MEU PROBLEMA É COM MULHER, TÁ BOM? NÃO ENVOLVE LIVROS E TEORIAS.....

FÉLIX

VOCÊ É UM PRECONCEITUOSO IMBECIL! EU ENTENDO O UNIVERSO FEMININO  MELHOR DO QUE VOCÊ JAMAIS COMPREENDERÁ!
TOMAS (CÉTICO)
É MESMO? COM QUANTAS MULHERES VOCÊ JÁ TRANSOU?

FÉLIX

PREGAR MARCAS DE MULHERES NA CABECEIRA DA CAMA NÃO FAZ DE NINGUÉM UM EXPERT, SEU IDIOTA! VOCÊ NÃO FAZ IDÉIA DO QUANTO AINDA TEM QUE APRENDER.

TOMAS

AMOR É CARNAL. O RESTO É PUNHETA ORAL.

FÉLIX

TAÍ UMA FRASE QUE MERECE O NOBEL DA CRETINICE. UMA PERGUNTINHA RÁPIDA: QUEM É MAIS PREPARADO PARA FALAR SOBRE LIBERDADE? UM PRESIDIÁRIO OU UM MERO CIVIL?

TOMAS

É O PRESIDIÁRIO. MAS ISSO NÃO TEM NADA A VER.

FÉLIX

É CLARO QUE TEM. BASTA FAZER A ANALOGIA

TOMAS

LÁ VEM VOCÊ ME EMPURRAR ESSA MERDA PLATÔNICA DE NOVO

FÉLIX

EU  ESTOU FALANDO DE SENTIMENTO A NÍVEL ESPIRITUAL

TOMAS

NEM VEM COM ESSA PORRA!

FÉLIX

VOCÊ ESTÁ SE  NEGANDO UMA CHANCE DE AMAR REALMENTE UMA PESSOA E ISSO NÃO É NEM UM POUCO SAUDÁVEL.

TOMAS

PORQUE VOCÊ SE PREOCUPA COMIGO?

FELIX

NÃO ESTOU FAZENDO ISSO POR VOCÊ, É POR ELA. NÃO SUPORTO VER MULHERES SOFRENDO NA SUA MÃO E VOCÊ PRECISA AMADURECER PARA QUE ESTE CÍRCULO VICIOSO ACABE.

TOMAS

NA BOA, CARA, ESSE LANCE TODO DE AMOR ESPIRITUAL E AMADURECIMENTO JÁ ME ENCHEU O SACO BASTANTE POR HOJE, TÁ BOM? TUDO O QUE EU QUERO AGORA É TOMAR UM BANHO E FICAR SOZINHO UM TEMPO ( VAI SAINDO DA SALA, MAS ANTES VOLTA-SE PARA FÉLIX UMA ÚLTIMA VEZ) AH, E VÊ SE TIRA ESSA MÚSICA HORRÍVEL DO ALCANCE DOS MEUS OUVIDOS...

FELIX

A SUA ALMA VAI QUERER OUVIR NOVAMENTE. VOCÊ NÃO PODE PRIVÁ-LA DESSE DIREITO.

TOMAS

NÃO VAI PORRA NENHUMA!
( TOMAS SAI. FÉLIX SORRI. TRIUNFANTE)

ÚLTIMA CENA- TOMAS DISCA O TELEFONE ENQUANTO OLHA PARA O ANEL DE NOIVADO.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Brinquedos

Brinquedos

Já dizia o grande escritor Luís da Câmara Cascudo que as brincadeiras na infância podem ser vistas como tendências comportamentais para a fase adulta. Um simples brinquedo já pode dar uma idéia de como a criança será mais tarde. Essa teoria é dertamente endossada pelo teórico Roland Barthes (1915-1980), que afirmava que o brinquedo serve para socializar a criança, constituído pelas técnicas da vida moderna adulta: o exército, a rádio, o correio, a medicina ( estojo com instrumentos de plástico).O fato de os brinquedos prefigurarem funções adultas serve para preparar a criança para aceitá-las.Eles fornecem um catálogo de tudo aquilo que não espanta o adulto : guerra, burocracia,violência, alienígenas...Não é tanto a imitação que constitui um signo de abdicação mas a literalidade dessa imitação.A boneca condiciona a menina para a função de mãe, bem como o fogãozinho, o ferro de plástico...Perante esse universo de objetos fiéis e complicados, a criança só pode assumir o papel do proprietário, nunca o do criador.Não inventa o mundo – utiliza-o.Os brinquedos a transformam num pequeno proprietário a burguesado que nem sequer tem de inventar os mecanismos da causalidade adulta, pois já lhe são fornecidos prontos.Roland Barthes termina seu ensaio fazendo uma ode nostálgica aos brinquedos de madeira. Segundo ele, é uma substância familiar e poética, que deixa a criança permanecer numa continuidade de tato com a árvore, a mesa e o assoalho.Enfim, após toda essa explanação, fica o conselho: deixar a criança criar e não ser criada por seus próprios brinquedos.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Cinema: Distribuição e Mídia no Brasil



 Cinema: Distribuição e Mídia no Brasil

No presente século, a integração do trabalho imaterial no trabalho industrial e terciário torna-se uma das principais fontes da produção e atravessa os ciclos de produção definidos precedentemente, que por sua vez a organizam. O trabalho imaterial não se reproduz ( e não reproduz a sociedade) como forma de exploração, mas como forma de produção de subjetividade, o que por sua vez se torna potencialmente delicado quando adentramos no terreno audiovisual, considerando-se o fato de que muitas vezes o poder visual pode ser bastante persuasivo.
A sétima arte, enquanto mídia audiovisual direcionada para as massas ocupa um lugar importantíssimo dentro do contexto global, no que se refere à povoação do imaginário coletivo como fábrica de mitos e máquina publicitária.
No panorama do cinema Hollywoodiano, encaixa-se a visão do teórico alemão Walter Benjamin: “Todo o desenvolvimento econômico moderno tem a tendência a transformar a sociedade capitalista cada vez mais numa gigantesca casa de jogo internacional, onde os burgueses ganham e perdem capitais.”
O processo de distribuição de um filme comercial nos Estados Unidos nasce na pré-produção do mesmo. Todos os elementos que serão utilizados para a divulgação da película são cuidadosamente pensados antes mesmo que esta fique pronta. Um deles chama-se junket(Recurso bastante utilizado pelos estúdios americanos para divulgar seus filmes e que consiste em uma espécie de 'excursão' – que pode durar dias – na qual jornalistas convidados viajam até um local pré-determinado e têm acesso aos filme em questão e aos seus astros – e também a fartas refeições e a caros brindes oferecidos pelos produtores). Há indícios, inclusive, de que alguns estúdios já tenham o hábito de preparar, de antemão, os artigos que serão assinados por alguns destes jornalistas[1].
Como esse processo influencia na distribuição de filmes brasileiros?
De acordo com o teórico Edgar Morin[2], há um problema que é o da dialética entre o sistema de produção cultural e as necessidades culturais dos consumidores.
Essa dialética é muito complexa, pois, por um lado, o que chamamos de público é uma resultante econômica abstrata da lei da oferta e da procura e por outro lado existem os constrangimentos do Estado e as regras do sistema industrial capitalista que pesam sobre o caráter mesmo desse diálogo.
Vejamos como essa afirmação se aplica em nosso país.
A Ancine (Agência Nacional de Cinema) está subordinada ao Ministério de Indústria e Comércio, e não ao da Cultura[3]. O mercado, a indústria cinematográfica está com o Ministério da Indústria e Comércio. É a mesma lógica da Warner, da Columbia, da Fox. O cineasta Luís BOLOGNESI[4] afirmou, em entrevista ao site Cinemando:
 “Há um monopólio no Brasil no processo de distribuição e veiculação, seja na TV ou nas salas de cinema. Não temos um espaço aberto para encontrar o público, tudo é extremamente fechado e as distribuidoras americanas tem reserva de mercado dentro dos nossos cinemas, o que é um absurdo”[5].

Os diretores brasileiros enfrentam, hoje em dia, dois calvários: a produção e a distribuição. Eles afirmam que a lei está articulada de uma maneira que o dinheiro sai do governo, mas quem diz para onde o dinheiro vai são as pessoas do mercado financeiro ou da área de marketing, que tem de modo geral uma mentalidade muito estreita. Isto está começando a mudar, mas o Brasil vem de um mercado muito perverso, onde praticamente as classes A e B consomem. As pessoas de marketing acabam tendo um olhar obtuso, em que só interessa produtos de alto glamour. Eles não sabem olhar para um projeto e avaliar seu conteúdo, avaliar a sua abrangência ou conteúdo enquanto cultura.
            Quando se acabou com a Embrafilme, a classe cinematográfica apoiou mas hoje carecemos de uma distribuidora brasileira que efetivamente acredite no cinema brasileiro como uma estratégia de interesse nacional frente ao domínio avassalador das distribuidoras internacionais. As parcerias com a TV e estúdios estrangeiros são interessantes como uma possibilidade adicional e não como uma solução final do problema.
            No que se refere à distribuição por parte das emissoras televisivas, o assunto é delicado. a  Rede Globo tem interesse em se associar, dar apoio institucional ao cinema brasileiro, mas eles ainda não sabem como. De acordo com o cineasta André Klotzel[6] os executivos da empresa citada estão, na verdade, preocupados com a abertura do mercado ao capital estrangeiro e a entrada de outras empresas internacionais no país. Ela está interessada porque o cinema seria um "algo a mais" para garantir sua estabilidade. Agora, existe uma outra necessidade: ter alguns nomes em determinados filmes, pois pessoas conhecem mais os atores que são expostos pelas emissoras.
                        Segundo o jornalista Gabriel Priolli[7], “a inovação como ruptura não existe na televisão porque ela tem um papel de manutenção, de reforço da ideologia vigente.”. As novas tendências são externas à ela e só são enfocadas no momento em que conseguem ter uma certa legitimidade social.
            A TV pode ser parceira, e é isso que se tenta no Brasil. Agora a nova legislação permite que a televisão aberta se associe ao cinema. Ela diz que 4% da receita bruta das emissoras deve ser investido na co - produção de películas[8]. André defende que deve ser montado aqui no Brasil um esquema com a TV de co - produção de filmes e estabelecer cotas de exibição do cinema brasileiro.
            E quanto às outras mídias? Como a internet e a imprensa escrita se relacionam com o cinema brasileiro?
                Para analisar o tratamento que a nossa sétima arte recebe na web, buscou-se visitar os portais mais famosos, já que estes servem como “ponto de encontro” de internautas, por causa das salas de bate-papo e o serviço de e-mail grátis, que é praticamente oferecido por todos. Outro ponto a ser considerado é que eles ainda são provedores de acesso. Isso sem mencionar que eles são apoiados pela publicidade televisiva.
Em nossa contemporaneirade, é comum encontrarmos várias publicações direcionadas para a área de cinema, sendo que a maioria delas comunga de estratégias ligadas a sedução e venda.
Em relação a este fato, o teórico Jean Baudrillard afirma que trata-se uma soberania de modelos efêmeros, paixão frágil e total que exclui qualquer sentimento, metamorfose arbitrária, superficial e regulamentada_ ligados a uma recusa potencial de qualquer juízo de valor. Ele afirma que:
“o êxtase de um objeto vulgar leva ao mesmo tempo o ato pictural a sua forma estática, doravante, sem objeto, ele vai girar sobre si mesmo e praticamente desaparecer, não sem antes exercer em nós uma fascinação definitiva”[9].

Aqui, a metáfora em torno da imagem não busca um conjuramento ou reflexão, mas sim uma adoração vazia e direcionada ao lucro. Os signos não fazem entre si um contato de troca, mas um pacto de aliança. Em nenhum lugar reina a lei da significação, mas sim unicamente o encadeamento das aparências.
O sociólogo Karl Marx já denunciava a obscenidade da mercadoria ligada ao princípio abjeto da livre circulação. A obscenidade da mercadoria vem do fato de ela ser abstrata, formal e leve, contra o peso e a densidade do objeto. A mercadoria é legível: ao contrário do objeto, que não revela completamente seu segredo, a mercadoria sempre manifesta sua essência visível, que é seu preço.
Os teóricos Horkheimer e Adorno afirmam que, no âmbito da indústria cultural, os objetos estéticos estão sujeitos a uma inversão da “finalidade sem fim”, que o filósofo Kant atribuíra às coisas belas no século XVIII. O “valor de uso”_ essencialmente problemático nos bens culturais_ é absorvido pelo valor de troca: em vez de prazer estético, o que se busca é “estar por dentro”, o que se deseja é conquistar prestígio, e não propriamente Ter uma experiência do objeto.
Vale afirmar, porém, que rosas ainda existem apesar dos espinhos. Algumas publicações procuram direcionar seu enfoque em cima da construção de uma identidade cinematográfica nacional, sobrevivendo em meio ao mercado avassalador que lucra em cima de valores voláteis.



[1] É um processo tão explícito que chegou a ser satirizado pelo próprio cinema, como em “O jogador” de Robert Altman e “Os queridinhos da América”.
[2] [2] Morin,1990, p. 23
[3] A parte cultural do cinema, como festivais,  curta - metragens, a área de formação de profissionais, continua sob a guarda do Ministério da Cultura.
[4]  Diretor de Bicho de Sete Cabeças citado em 15/07/03 no site Cinemando – Revista eletrônica de cinema – www.cinemando.com.br
[5] Um fato ocorrido recentemente exemplifica essa “concorrência desleal”: um prédio no Rio de Janeiro foi envelopado com cartazes publicitários do filme “Hulk”, enquanto filmes brasileiros como o genial “O homem que copiava” precisam contar com a boa vontade da imprensa.
[6] Dirigiu “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, adaptação do livro homônimo de Machado de Assis.
[7] PRIOLLI,1988, p.153

[8] Na Europa, essa contribuição da TV é compulsória porque a programação precisa de filmes, engloba 40% da programação. Se ela usa, tem que produzir também, essa é a lógica.
[9] BAUDRILLARD, 1996, p.10