quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Obrigado por fumar



Obrigado por fumar
O atual contexto comportamental gira em torno de argumentação e imagem. A mídia tem o poder de formar opiniões usando imagens ou depoimentos precisamente editados. A película a seguir é uma visão bem humorada deste fenômeno.
A narrativa acompanha a trajetória de Jack Naylor, lobista das empresas de tabaco americanas cuja retórica é imbatível. Ele tem consciência do efeito do seu trabalho e não se envergonha nem se orgulha disso. Quando interrogado sobre suas motivações apenas responde. “Todos têm de pagar uma hipoteca.”
O filme apresenta os fatos através do ponto de vista do protagonista, pois de outra forma seria impossível transformá-lo em uma figura carismática. É curioso perceber como sua mente funciona e os jogos psicológicos que usa para manipular as pessoas. O relacionamento com o filho é igualmente interessante e aberto, chegando a fazer questão de explicar o que faz a ele de forma bastante clara, ao invés da esperada hipocrisia que a situação pede.
A projeção também procura explicitar o caráter debochado da história, fazendo uma crítica inteligente à falta de escrúpulos daqueles que vivem do vício de terceiros, seja ele bebida, tabaco ou armas.
O diretor Jason Reitman também aproveita para fazer um comentário ácido sobre os grupos politicamente corretos ao mostrar que eles procuram usar as mesmas táticas de persuasão, incluindo uma jornalista que chega a driblar a ética em seu próprio benefício. Uma realidade onde ninguém é confiável e um precisa pisar no outro para sobreviver.
O filme ainda adiciona uma observação sobre a forma como Hollywood auxilia a indústria do cigarro usando imagens de celebridades fumando em filmes e na televisão, a fim de torná-lo atraente para jovens e adultos.
A trilha sonora é um dos grandes destaques, com destaque para a letra da música que toca durante os créditos iniciais e que traduz a essência da história que será apresentada, inclusive sua inflexão cômica sobre o assunto.
O elenco também merece uma atenção especial, especialmente Aaron Eckhart, que interpreta um personagem cuja autoconfiança permite que ele escape de qualquer situação. Outra menção vai para Sam Elliott, que faz uma ponta como o primeiro caubói da Malboro numa cena que é um dos pontos altos do filme. Outra presença de respeito é o lendário Robert Duvall como o mentor do protagonista que consegue marcar presença apesar das poucas aparições.
O cineasta foi eficaz em escolher o humor para introduzir uma discussão sobre um assunto polêmico como esse porque a divergência de opiniões e muito grande, mesmo com todos os estudos e pesquisas indicando os males da nicotina. A essa altura do campeonato, que fuma já está mais do que informado a respeito dos efeitos da droga em questão.
A película merece crédito também por esclarecer que a formação da cabeça das crianças é responsabilidade dos pais e dos professores, pois são eles que indicarão o melhor caminho a ser seguido, criando uma consciência crítica na nova geração. Somente a partir daí teremos uma sociedade com verdadeiro poder de decisão.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Encontros e Desencontros



Encontros e Desencontros

            A película em questão narra a trajetória de Bob Harris, um ator americano em decadência que vai a Tóquio para ser a estrela de um comercial de uísque. Casado, mas emocionalmente distante da esposa e filhos, acaba tendo problemas de adaptação, não somente no que se refere às diferenças de fuso horário mas na disparidade cultural, embora Tóquio esteja hoje bem ocidentalizada.
           É então que ele cruza com Charlotte, uma hóspede do mesmo hotel que está acompanhando o marido John, um fotógrafo contratado por uma banda local. Recém-formada em Filosofia, ela sente a mesma inadequação.
Em pouco tempo os dois acabam se tornando confidentes e desenvolvendo uma relação platônica, retratada de forma bastante sutil pela diretora Sofia Coppola.
“Encontros e Desencontros”poderia ser filmado em qualquer outra grande metrópole, já que o foco do mesmo não é a cultura japonesa, mas a atomização do homem pós-moderno dentro do espaço urbano da metrópole. Solidão em meio ao funcionalismo anti-séptico.
O ensaísta José Ortega y Gasset afirmou certa vez que a verdadeira identidade de um país está em suas cidades interioranas, onde a arquitetura popular predomina ao invés da praticidade uniforme arquitetônica cosmopolita.
O ator Bill Murray apresenta sua melhor performance, mostrando um Bob Harris cansado de brigar com a esposa, indiferente ao reconhecimento pelos fãs e que se sente mal por se rebaixar ao esquema mercadológico para conseguir dinheiro.
Scarlett Johansson, em seu início de carreira exibe uma Charlotte que tenta buscar algo além da vida cotidiana e trivial. Busca um transcendentalismo e para isso visita templos japoneses, ouve cds de filosofia e chega até a tentar o Ikebana, a arte de construção de arranjos japoneses.
Vale acrescentar também que o filme critica a invasão ideológica ocidental no oriente, na seqüência em que John comenta o fato de os integrantes da banda se renderem ao “estilo Keith Richards” (e como isso acabou isso acabou descaracterizando os mesmos) e na atriz Kelly, amiga do fotógrafo que vai ao Japão para lançar um filme. Esta personagem é incrivelmente fútil e estúpida, mostrando a postura pasteurizada e condescendente do cinema comercial americano.
Outro ponto a ser comentado é a resistência da cultura tradicional e milenar japonesa, apesar da massificação trazida pela homogeneização americana.O humor advindo das diferenças culturais jamais soa preconceituoso ou pejorativo em relação aos cidadãos locais, que por sua vez são retratados como pessoas prestativas e gentis.
Contando com uma fotografia inspirada e trilha sonora agridoce, esta película ilustra de forma bastante fiel o homem perdido no contexto contemporâneo, imerso num caldeirão de diferentes culturas, embora todas estejam submissas a uma só língua: a do capital. Um alerta sobre a eventual perda de nossa identidade frente aos avanços do nivelamento ideológico que acompanha a globalização, sendo o amor como a única forma de construir uma imunidade.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O Labirinto do fauno

O Labirinto do fauno

           Espanha, 1944. Ofélia, uma menina apaixonada por contos de fadas, viaja com a mãe grávida e doente para morar junto com o padrasto, um insensível capitão a serviço do ditador Franco que está perseguindo um grupo de guerrilheiros escondidos nas montanhas.
Nesse contexto ela é atraída por uma fada a um labirinto nas redondezas, onde conhece um fauno, que por sua vez a reconhece como reencarnação de uma princesa do mundo subterrâneo há muito tempo atraída pelo mundo exterior, tendo sucumbido a ele e morrido.Para provar que sua essência continua intacta, ela precisa passar por três provas antes da lua cheia, onde será testado seu grau de comprometimento com o reino que irá herdar.
Assim é a sinopse de “O Labirinto do fauno”, filme de Guillermo Del Toro que apresenta uma fábula poética, sombria e trágica.
O mundo fantástico é apresentado de forma bastante obscura,mais ligado ao folclore popular do que os contos de fadas perfeitinhos e asseados que a empresa Disney costuma mostrar.
Tomemos o fauno como exemplo: tem cheiro de terra, não é esteticamente aprazível e sua voz gutural assustaria qualquer criança.Enigmático, nunca explica a razão dos testes que a garota deverá fazer. É interessante notar que ele usa o pronome vos, ao invés de tu ou usted, o que denota uma relação com o espanhol arcaico, dando um traço especial ao personagem.
Apesar de relacionado a um contexto no passado, o filme é atualíssimo.Impossível não relacionar o Capitão Vidal com George W.Bush. Cresceu admirando a imagem de seu pai, um general valoroso e usa termos como “Espanha pura e limpa” para justificar seus atos sanguinários. A cena em que ele mata um jovem com garrafadas no rosto deixa bem claro seu caráter violento. O mundo real é mais aterrorizante que o idílico.
A película trata de sacrifício e os desafios que precisamos enfrentar pela recompensa maior no final. Uma fábula adulta sobre o valor do desprendimento de bens e idéias materiais para alcançar um enriquecimento da alma. Um sopro de fantasia numa época de tanto cinismo e hipocrisia.
Ofélia precisa conquistar o respeito dos seus súditos, o que enriquece ainda mais a narrativa. Precisa mostrar que se entregará totalmente, abrindo mão de tudo que ama e possui, sem ceder às tentações do mundo exterior.
Os cenários são belíssimos e a trilha sonora suspende o espírito. Um libelo sobre a beleza do obscuro, da essência lírica escondida em lugares fora da percepção viciada do olho humano. Os quadros mais belos são aqueles pintados com cores escuras e tristes.
Em uma seqüência do filme é contada a história de uma rosa azul que oferecia imortalidade e ficava no alto de uma montanha. Ao final de todo dia ela murchava pois ninguém tinha coragem de enfrentar os espinhos venenosos para obtê-la. Que este filme sirva de incentivo para que enfrentemos nossas eventuais agruras em busca de uma beleza há muito tempo perdida e esquecida.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.






quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

70 anos de Robert Crumb



70 anos de Robert Crumb
No último dia 30 de agosto o cartunista Robert Crumb completou 70 anos. Um dos maiores representantes da contracultura norte-americana, famoso por criações como Fritz the Cat e Mr. Natural, ganhou notoriedade por discutir sexos, drogas e violência num período de intensa repressão nos Estados Unidos.
Seus primeiros trabalhos foram publicados na revista Zap Comix, criada por ele no final dos anos 60 e que fazia frente à forte censura e ao autoritarismo da época, marcando desta forma o início da era dos quadrinhos underground.
Com seu humor ácido e corrosivo ele expôs a hipocrisia da sociedade americana através de seus personagens politicamente incorretos. Desprezando completamente a intenção de ser didático ou pragmático, sua obra descontraída exalta o hedonismo e o confronta com a moral americana conservadora e coercitiva.
Robert Crumb também foi essencial para a carreira de outro grande autor que tinha muito a dizer, mas não sabia desenhar. Seu nome era Harvey Pekar e suas primeiras histórias foram adaptadas para os quadrinhos através dos desenhos do mesmo, revelando assim o seu potencial e abrindo um precedente para que outros desenhistas fizessem o mesmo para ajudá-lo. O entrosamento dessa dupla pode ser conferido no excelente livro “Bob & Harv - Dois Anti-heróis Americanos”.
            Ilustrou também várias capas de discos de Janis Joplin e outros artistas consagrados, incluindo os de sua banda de blues: “R. Crumb and his Cheap Suit Serenaders.”
Sua admiração por este estilo musical também fez com que ele lançasse um livro sobre o assunto. O álbum intitulado “Blues” traz quadrinhos que relatam a vida do cantor Charley Patton e a maldição que teria se abatido sobre Jelly Roll Morton, além das aparições do próprio Crumb e de Mr. Natural.
Outra obra sua que merece menção é “Kafka de Crumb” uma livre biografia do escritor tcheco, famoso por suas histórias claustrofóbicas e sombrias. Além de apresentar a trajetória de um dos maiores autores do século XX, O livro traz o resumo, análise e desenhos de suas principais obras: O Veredito, A Metamorfose, A Toca, Na Colônia Penal, O Processo, O Castelo, Um Artista da Fome e Teatro da Natureza de Oklahoma (ou Amérika).  Nessa mesma linha, desenhou em cima dos textos de Bukowski e Phillip K. Dick.
Em 1994 o desenhista foi tema de um filme documentário, intitulado “Crumb”, do diretor Terry Zwigoff. O filme é focado no relacionamento do mesmo com seus dois irmãos, sendo que os três possuem certo grau de sociofobia, em grande parte relacionada ao seu pai severo e mãe superprotetora.
Sua visão de mundo bastante sincera e por vezes debochada contribui em grande parte para compor a aura de carisma que o envolve. Sem preocupação em agradar ou ofender, ele rasga o verbo e brinca com essa contravenção, batendo de frente com os conservadores americanos. Apesar de grande apreço pela cultura de seu país, já fez questão de deixar bastante claro que possui problemas de incompatibilidade com a sociedade do mesmo, tanto que se mudou com sua família para o Sul da França e lá mora até hoje.
Um de seus lançamentos recentes mais comentados foi sua adaptação do Gênesis, o primeiro livro da Bíblia, para os quadrinhos, que demorou quatro anos para ser concluído, lançado em Outubro de 2009. Em 2010 esteve na Flip_ Feira Literária de Parati, onde se definiu como "um artista do século 19, que gosta de molhar a pena na tinta e desenhar." Um espírito nobre revelando que muitas vezes os avessos são aqueles que estão na direção certa.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Chinatown



Chinatown
            O roteiro da película em questão encontra-se em grande parte dos manuais de roteiros espalhados pelo mundo, em função de sua estrutura perfeita, complexa, repleta de reviravoltas e diálogos memoráveis.
O filme mostra a trajetória do detetive particular J.J.Gittes, que recebe a visita de uma mulher que deseja contratá-lo, pois acredita que seu marido, o engenheiro-chefe do Departamento de Águas e Energia de Los Angeles, tem um caso. Porém, ele logo descobre que sua cliente na verdade era uma farsante, mas a verdadeira esposa do mesmo o encontra. Quando o marido aparece morto no reservatório de água da cidade, Gittes percebe a gravidade do caso.
Na medida que a investigação se aprofunda, o detetive acaba se envolvendo numa conspiração que tem interesses ilícitos em terras próximas ao reservatório.
Dirigida com excelência por Roman Polanski (que também faz uma pequena participação em uma seqüência, cortando o nariz de Gittes com um punhal) a projeção traz todos os elementos clássicos do cinema noir, como os chapéus, a música, os cigarros e a entonação dos diálogos. Além disso, apresenta aquilo que torna este gênero tão fascinante: o envolvimento com uma enigmática femme fatale, aqui interpretada pela belíssima Faye Dunaway.
O elenco dispensa comentários. Além dos dois nomes previamente citados, Jack Nicholson está perfeito como o protagonista, interpretando um investigador distante e ao mesmo tempo vulnerável. John Huston também está fabuloso nas poucas, mas cruciais seqüências em que aparece.
É interessante pontuar que a narrativa segue do ponto de vista do detetive, o que torna a história fascinante e instigante, pois o espectador termina sendo convidado a decifrar o mistério apresentado junto ao protagonista.
As inúmeras reviravoltas nunca se tornam cansativas, sendo transmitidas de forma fluida ao espectador no decorrer da narrativa intrínseca e somente enriquecem a complexidade da trama, realçando a tridimensionalidade do caráter humano dos personagens envolvidos , algo comum ao gênero, que teve início com o escritor Edgar Alan Poe, sendo seguido por outros grandes, tais como Dashiel Hammett e Raymond Chandler.
O número de qualidades da obra não se resume apenas ao resgate da nostalgia, à fotografia, ao roteiro e ao trabalho de direção. Não há como não citar a belíssima trilha-sonora de Jerry Goldsmith, que sem dúvida faz parte de qualquer compilação de seus grandes trabalhos no cinema, criando um clima místico e tenso fundamental à história.
Contando com um desfecho surpreendente e trágico, “Chinatown” é um clássico que merece ser revisitado, especialmente nos dias atuais, onde a trama dos exemplares deste gênero é simplesmente ignorada, priorizando tiroteios e explosões sem sentido.
Um filmaço que prende pela riqueza da trama e das interpretações. Cinema feito por amor à linguagem e não pelo dinheiro das bilheterias.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O último rei da Escócia



O último rei da Escócia
            Idi Amin foi um ditador populista que governou a República da Uganda de 1971 a 1979. Teve uma infância difícil e foi praticamente criado pelo exército britânico, onde se fortaleceu o bastante para depor o presidente comunista Obote e subir ao poder. O filme a seguir procura traçar um perfil deste emblemático e perturbado governante, mostrando seus conflitos pessoais e motivações.
            A história é narrada pelo ponto de vista de Nicholas Garrigan,um médico escocês recém-formado que emigra de sua terra natal por não suportar a comparação com seu pai, tendo que viver à sombra do mesmo. Parte então para o referido país africano, onde Amin havia acabado de subir ao poder.
            O jovem idealista começa trabalhando junto a um casal de médicos, mas sua vida muda quando atira em um boi moribundo para aliviar seu sofrimento enquanto cuidava do presidente, que tinha torcido a mão em um acidente envolvendo o citado animal.
Ao notar que o rapaz escolheu o sacrifício em prol de um bem maior, Idi estabeleceu uma conexão quase instantânea com ele e essa admiração cresceu ainda mais quando ficou sabendo a sua nacionalidade, pois já havia lutado ao lado do exército escocês.
            Garrigan é então convidado a ocupar o cargo de médico pessoal de Amin, tornando-se o seu assessor pessoal. A partir desse ponto a narrativa faz um estudo da complexa personalidade do tirânico personagem, inicialmente apresentado como alguém simpático e carismático que aos poucos vai revelando seu lado paranóico e violento.
            O diretor Kevin MacDonald é eficiente ao abordar todos os aspectos da narrativa, procurando mostrar de forma clara como o contexto da Guerra Fria e o imperialismo inglês na África contribuíram para gerar um líder instável que não hesita em usar de violência para alcançar seus objetivos.
            A trajetória do jovem médico é igualmente interessante, pois o protagonista que viaja para a África com o simples propósito de buscar “fazer a diferença” acaba envolvido em uma intrínseca teia de intrigas e conspirações. Além disso, seu medo e vontade de abandonar o local só fazem crescer depois que ele conhece o lado perverso e distorcido de Amin.
            É interessante como a projeção revela-se fiel aos fatos narrados sem apresentar o governante de forma maniqueísta e superficial, expondo sua insegurança e seu carisma frente à mídia e as massas.
            Nesse ponto destaco a excelente atuação de Forest Whitaker, que consegue apresentar de forma clara todas as nuances do sanguinário Idi Amin sem ser caricato ou exagerado, mas alguém que acreditava que “os fins justificam os meios”. O ator James McAvoy também merece menção por mostrar como a ingenuidade de Nicholas vai sendo gradativamente deturpada ao longo da narrativa.
            Interessante e original, a projeção busca mostrar o ditador africano sob uma nova perspectiva, revelando o poder do momento histórico na geração de seus líderes, o que ajuda a refletir sobre o nosso tempo histórico e os monstros que ele está gerando.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

O clã das adagas voadoras



O clã das adagas voadoras
A cultura milenar asiática é riquíssima, tendo rendido belíssimas histórias contadas através das formas mais variadas como músicas, livros e filmes. Assim como ocorre com os gregos e mouros, suas narrativas sempre usam a tragédia como pano de fundo para ilustrar a natureza humana querendo transcender um código de regras previamente estabelecido. A seguinte projeção acompanha esta linha de pensamento.
Ambientada na China em 859, mostra a Dinastia Tang em sua fase decadente, onde a corrupção era uma constante e o povo sofria com os abusos de um governante fraco e incompetente. Neste contexto surge a organização secreta que leva o nome do título cujo objetivo é ajudar os mais desfavorecidos lesando os donos do poder. Seu líder foi assassinado, mas seu lugar foi tomado por um líder novo e misterioso.
A história tem início quando dois soldados têm um plano para descobrir o esconderijo do grupo rebelde e render o novo chefe, prendendo uma guerreira cega que trabalhava escondida em um bordel da região para depois simular sua fuga e deixar que ela conduzisse o caminho inadvertidamente, acompanhada por um deles que estaria disfarçado de andarilho.
A estratégia funciona, mas enquanto o casal segue sua jornada em direção à base da confraria, terminam se envolvendo romanticamente, arriscando desta forma os dois lados envolvidos na disputa.
O cineasta Zhang Yimou conduz a história de forma dinâmica e poética, revelando as pequenas reviravoltas que vão surgindo ao longo da trama. A beleza do enquadramento das imagens merece a devida atenção, especialmente nas seqüências de danças e lutas.
O conceito de cegueira é interessante se analisarmos o relacionamento amoroso na projeção, onde ninguém é realmente honesto com o próximo. É a essência da tragédia shakespeariana onde todos mentem e são testados.
A deficiência visual da protagonista define sua personalidade, realçando sua sensibilidade auditiva e permitindo que a subestimação dos outros seja sua ferramenta de dominação. Neste ponto faço uma menção especial para a bela atriz Zhang Ziyi, cuja performance mostra uma Xiao Mei dividida entre a fidelidade à sua organização e o crescente amor por aquele que a acompanha e está sempre salvando sua vida.
O enlace do casal é tratado de forma fluida e o estreitamento da relação vem das adversidades que enfrentam juntos e a sensação de segurança criada pela idéia de que tudo não passa de uma encenação termina surtindo o efeito contrário, tornando ambos vulneráveis.
A película em questão trata da imprevisibilidade do amor, mas cuida bastante de como o excesso de confiança pode vir a ser nossa maior fraqueza. O cinema oriental costuma tratar este tema com bastante carinho, tomando como exemplo várias obras-primas do cineasta japonês Akira Kurosawa, dentre elas “Trono Manchado de Sangue”, “Ran” e “Os sete samurais.”.
Um filme belíssimo que resgata toda a beleza ancestral da cultura chinesa, realçando traços estéticos e emocionais há muito soterrados pelo pós-modernismo funcional e pragmático. Que o folclore seja o espectro da identidade de seu país, a fim de que a beleza, embora referente a uma particularidade regional, possa ser projetada universalmente, tal como aconteceu com esta obra.

sábado, 1 de fevereiro de 2014