sábado, 22 de março de 2014

O último dos moicanos

O último dos moicanos
Nosso cotidiano é repleto de escolhas que irão implicar nos acontecimentos a seguir, sejam eles a longo ou curto prazo. Decisões que irão inferir no futuro que se projeta à nossa frente. Considerando a conjuntura de um território em conflito, a urgência por uma opção torna-se ainda mais importante, já que ela decidirá o destino de muitos.
Adaptada do romance homônimo de James Fenimore Cooper, a narrativa ambientada em território norte-americano no ano de 1757 segue a história de Hawkeye, filho de colonos ingleses que é criado por índios após a morte de seus pais biológicos. O conflito entre ingleses e franceses pelo território faz com que os britânicos comecem a recrutar milícias locais para lutar contra os seus oponentes, mas ele se mostra indiferente à situação, que aparentemente não lhe diz respeito. Após resgatar um grupo de soldados bretões do ataque de uma tribo indígena aliada ao inimigo, ele termina se envolvendo com a filha do Coronel Munro que estava sendo escoltada para ir ao encontro de seu pai ao lado de sua irmã Alice.
A partir daí fica clara sua posição no combate, mas a situação se complica quando os colonos percebem que foram ludibriados para ajudarem o exército inglês, pois este lhe garantiu liberdade para defenderem suas casas e famílias se necessário, mas quando isso aconteceu os mesmos foram impedidos de sair do forte onde estavam, correndo o risco de serem acusados de traição.
Outro fator agravante é a vingança jurada pelo índio Magua que não mede esforços para assassinar o militar e suas filhas pelos danos que este causou à sua família, acentuando a periculosidade do contexto apresentado.
O período histórico abordado é interessante porque permite várias angulações de um mesmo acontecimento, o que torna a história mais complexa e menos previsível.  Neste sentido temos a disputa entre os dois países europeus que se respeitam apesar do embate juntamente com o ponto de vista das diferentes tribos indígenas, cuja noção de justiça varia de acordo com o seu conjunto de regras e limites.
O cineasta Michael Mann mostra de forma bastante eficiente as divergências de pensamento entre os europeus, que visam somente o território sem mesurar o efeito das eventuais baixas e suas implicações dentro da guerra e os nativos, colonos e índios, forçados a defender um dos lados em meio a uma guerra que não lhes interessa.
O romance na projeção é tratado de forma bastante sutil, evoluindo de forma gradativa e reforçando a eficácia do sugestivo sobre o explícito. As relações amorosas têm um poder decisivo sobre o destino dos personagens envolvidos e funcionam com o propósito de incitar suas atitudes dentro da história.
No tangente ao elenco é imperativo citar o excelente desempenho de Daniel Day-Lewis, já que seu personagem é uma metáfora da confluência cultural onde o embate está imerso. O filme também traz a interpretação sublime de Madeleine Stowe, como a jovem inglesa que vai percebendo as variadas nuances da guerra na medida em que se envolve com o rastreador que se oferece para guiar a sua comitiva. Vale também a referência à notável performance dos atores nativo-americanos, já que grande parte da história está fundamentada neste núcleo.
Uma formidável projeção sobre a obsessão tragada pelo ódio e o amor que suspende e liberta, dois sentimentos instigando comportamentos e decidindo o que será reservado a cada um dos envolvidos.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Chocolate



O doce alimento que dá o nome à película em questão é revestido de certa dose de sedução e mistério, desde que foi criado pelos astecas.  É curioso notar sua incrível inclinação para aproximar as pessoas, tendo em vista que sua oferta sempre denota um gesto de carinho.
Sua variada gama de combinações está intimamente ligada à sua diversificada esfera de consumidores, refletindo um traço de suas respectivas personalidades.
A narrativa mostra um pacato vilarejo na França que recebe a visita de uma estranha mulher e sua filha às vésperas da quaresma. O prefeito Paul de Reynaud fica particularmente incomodado quando é informado de que a moça abrirá uma chocolateria em plena época de jejum, encarando tal atitude como afronta à ordem local.
A dona do novo estabelecimento, utilizando seu dom de associar cada pessoa ao seu sabor predileto, faz com que suas verdadeiras essências aflorem, contribuindo para uma série de mudanças na vida dos residentes locais.
O curioso embate entre o moralismo repressivo e os instintos libertados pelo chocolate levanta uma questão relevante sobre a importância de sermos fiéis à nossa identidade, já que ela nos define e diferencia perante os outros.
Cada indivíduo é especial em função de suas particularidades, assim como as inúmeras combinações e preparos do chocolate.
A questão da representatividade social também é amplamente explorada na projeção, já que o prefeito, não satisfeito com o sucesso da nova loja instaura uma rede de intrigas usando inclusive a Igreja para minar sua adversária.Quando esta começa a perder terreno na cidade um grupo de ciganos surge nas redondezas para reforçar sua mensagem.
O falso valor da opinião alheia, a intolerância e o preconceito, bem como a repulsa ao novo contribuem para que a convivência no vilarejo seja artificial e mecanizada, sem nenhuma forma de questionamento e engessada por um conjunto de regras que chegam a ser nocivas até mesmo para aquele que as cria e regula, o Conde Paul de Reynaud, pois este precisa viver uma mentira sobre a esposa ausente que o afasta de seu real interesse amoroso_ a bela Caroline Clairmont.
A montagem do cineasta Lasse Hallström faz com que a história nunca perca seu aspecto de fábula poética, trabalhando de forma gradativa o encantamento e a ruptura que o chocolate traduz através de suas inúmeras misturas, agindo como elemento catártico na vida dos habitantes.
Vale mencionar ainda as alusões à origem da iguaria, enriquecendo o ensaio idílico a respeito do assunto e revelando desde cedo sua natureza inebriante e transformadora.
O riquíssimo elenco enaltece a história de forma significativa com destaques óbvios para Juliette Binoche e Alfred Molina, ambos aprendendo que as mudanças mais significativas acontecem quando menos se espera.O filme ainda conta as ótimas interpretações de Carrie-Anne Moss, Judi Dench, Johnny Depp, Lena Olin e Peter Stormare.
Um libelo sobre a mudança de perspectiva da realidade a partir de um simples gesto fora da rotina carregada de vícios e normas sociais. Um convite para transcender e encontrar sua própria natureza.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Disque M para matar

Disque M para matar
            O cineasta inglês Alfred Hitchcock recebeu a alcunha de “mestre do suspense” por suas histórias de mistério engenhosamente construídas que exigem a atenção do espectador a cada detalhe, exibindo as peças do quebra-cabeça para depois montá-lo de forma sutil ao longo da narrativa.
            A película a seguir, adaptada da peça de Frederick Knott, apresenta Tony Wendice, um ex-tenista que, ao descobrir que sua esposa o traía com um escritor de romances policiais, resolve chantagear um velho conhecido para que ele a mate.
            Todos os passos são meticulosamente calculados pelo marido, mas quando sua mulher termina matando o assassino em legítima defesa ele se vê forçado a mudar de estratégia, plantando pistas no local para incriminá-la.
Margot é condenada e a data de sua execução marcada, mas seu amante e o Inspetor Hubbard não se dão por convencidos e continuam investigando para descobrir o que realmente aconteceu naquela noite.
A trama é incrivelmente bem traçada e Tony é um personagem formidável. A frieza com que calcula cada passo e seu raciocínio rápido diante de cada imprevisto é impressionante, podendo ser comparada à genialidade maquiavélica do Ricardo III de Shakespeare.
Todo grande personagem merece um antagonista à altura e o Inspetor o desempenha de forma magnífica e seu pensamento ágil não deixa escapar nem um detalhe, obrigando o verdadeiro criminoso a ficar sempre atento e cobrindo suas pistas.
A montagem é primorosa e cada take apresenta um elemento que será trabalhado ao longo da projeção, exigindo um carinho especial na apreciação da mesma. A agilidade dos diálogos enriquece a narrativa, trabalhando todas as possíveis versões do ocorrido.
O elenco merece uma menção honrosa, com destaque para a belíssima Grace Kelly, interpretando uma Margot que embora envolvida com outro homem ainda ama muito o marido e não hesita em seguir suas instruções para responder as perguntas da polícia. Outro destaque vai para Ray Milland que mostra um Tony cínico e calculista, sendo impossível não admirar sua engenhosidade apesar da cruel natureza de seus atos.
            É interessante notar que o diretor usa o plano aberto na maior parte do filme, apresentando o cenário como o palco de um teatro onde o drama e a trajetória dos personagens vão sendo expostos. Esse tipo de enquadramento é interessante porque permite que analisemos as diferentes impressões dos envolvidos à medida que a narrativa avança.
            Vários filmes e obras literárias já esmiuçaram a respeito da análise do crime perfeito. Desde o romance “Crime e Castigo” de Fiodor Dostoievski o homem tem se perguntado se é possível, tendo sido apresentadas desde então várias leituras diferentes. A película em questão também o faz de forma ímpar, com o refinamento próprio deste cineasta.
            É através de clássicos como este que percebemos como uma história intrigante deve ser contada, usando os elementos apresentados de forma simples e efetiva. Sua leitura original e brilhante só enriquece a cada leitura.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.

terça-feira, 4 de março de 2014

O amor nos tempos do cólera

Diversas histórias de amor já foram escritas, cada uma adotando uma angulação diferente deste sentimento que nos invade, completa e corrói ao mesmo tempo. Em 1985 o escritor Gabriel García Márquez escreveu um belíssimo livro que leva o mesmo nome de sua adaptação para a película em questão..
É natural que em casos como esse a obra escrita seja superior, especialmente pelo talento ímpar do referido escritor em tecer as palavras de forma tão rica e fluida que sua leitura torna-se uma experiência única.
Felizmente a projeção manteve a essência da história ambientada na Colômbia durante o final do século XIX, que acompanha o jovem Florentino Ariza, um operador de telégrafo cujo amor à primeira vista pela bela Fermina faz com que o mesmo dedique sua vida a amá-la para todo o sempre, apesar de quais quer obstáculos que surjam.
Ela corresponde aos galanteios do rapaz e começam a se comunicar através de cartas secretas, mas a garota é enviada para o campo pelo pai que deseja alguém melhor sucedido para ela.
Quando a mesma retorna, está convencida de que tudo não passou de uma ilusão e rejeita aquele que nunca deixou de pensar nela. Com o tempo, a jovem acaba se envolvendo e casando com o doutor Juvenal Urbino, um médico que acredita que a estabilidade é mais importante que a felicidade num matrimônio.
Florentino por sua vez não consegue superar o amor que sente pela garota e apesar de se envolver com várias mulheres e ascender socialmente, sente que sua vida está sempre incompleta sem aquela que jurou amar eternamente.
A projeção e o livro tratam do sentimento em questão como um estado de total entrega, remetendo ao poeta Charles Baudelaire (Amar é sair de si mesmo), que está além de nosso controle, trazendo êxtase e dor em dosagens proporcionais ou não.
O filme consegue traduzir de forma bem sutil a passagem de tempo, acompanhando os avanços tecnológicos que vão surgindo, como a advento da luz elétrica e dos automóveis, mesurando o tamanho da devoção do protagonista pelo objeto de seu desejo.
A trilha sonora e a fotografia são belíssimas, sempre fazendo alusão à riqueza de imagens e sons que o texto do autor denota.
O variado elenco também merece aplausos, especialmente Javier Bardem, que interpreta um homem cujo único objetivo é tornar-se alguém merecedor de quem ama, aguardando pacientemente pela oportunidade de demonstrar seu afeto. As participações especiais de Fernanda Montenegro, Liev Schreiber e John Leguizamo incrementam a riqueza da narrativa e merecem menção.
O amor tem potencial para transformar-se em algo épico, ultrapassando barreiras de tempo e espaço, fortalecendo e definhando na mesma medida aqueles que se prezam a viver sob suas regras.
Uma película importante numa época em que os relacionamentos humanos tornaram-se tão distanciados e funcionais. O instinto passional não mais define nossa identidade, tudo segue um propósito definido, racional. O diretor Mike Newell conseguiu fazer uma adaptação belíssima, mas é essencial que a obra literária seja lida em conjunto neste caso, pois há algo nas palavras que não pode ser traduzido.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.

    

segunda-feira, 3 de março de 2014

Luís da Câmara Cascudo-Vida e Obra de um gênio


Filho único de Francisco Justino de Oliveira Cascudo e Anna Maria da Câmara Cascudo, ele comerciante e coronel da Guarda Nacional, ela dos afazeres domésticos, nasceu Luís da Câmara Cascudo em Natal, a 30 de dezembro de 1898, onde viveu 88 anos até seu coração parar na tarde do dia de 30 de julho de 1986.
     Na água do primeiro banho a mãe despejou um cálice de Vinho do Porto para o filho ter saúde e o pai a temperou com um Patacão do Império para merecer fortuna. O padre João Maria, um santo da cidade, batizou-lhe no bom Jesus das Dores, e a poetisa Auta de Souza, amiga de sua mãe, embalou seu choro forte de menino-homem.
     Teve uma infância guardada entre cuidados exagerados, com ama de companhia, professora particular e proibido do encanto das ruas. No verão, vivia os dias na beira do mar, entre barcos e pescadores, e no inverno passava no sertão ouvindo vaqueiros e cantadores. Entre espumas e espinhos sedimentou sua cultura descobridora de homem brasileiro.
     Desejou ser um nobre médico de província e chegou a cursar os primeiros anos na Bahia e no Rio de Janeiro. Mas terminou cumprindo o destino de ser Bacharel em Direito e foi estudar na velha faculdade de Direito do Recife, onde ainda ouviu o eco dos discursos de Joaquim Nabuco e Tobias Monteiro e dos versos de Castro Alves.
     Sonhou ser jornalista e foi. Seu pai nessa época ainda era um homem rico e instalou o jornal A Imprensa para seu filho. Nas suas páginas, o estudante que lia até a madrugada passou a exercitar o gosto de escrever, mantendo uma coluna que chamou de Bric-a-Brac e onde exercitava o olho observando a paisagem humana e cultural da cidade e sua gente.
     Seu primeiro livro, Alma Patrícia, sai em 1921. É a reunião de pequenos estudos sobre poetas e prosadores na Natal de seu tempo. Depois vem Joio, encerrando a fase de crítica. Num breve exercício de ficção sob influência de Viriato Correia, escreve Histórias que o tempo leva, recriando narrativas literárias sobre as ruínas de velhos fatos históricos.
     O professor de História resiste nas biografias de figuras como Lopez do Paraguai, o Conde d'Eu e o Marquês de Olinda, mas não demora a entrar em sintonia com os modernistas do Recife e de São Paulo, o que lhe abre os olhos e os ouvidos para o homem comum nas suas crenças e costumes, seus cantos e suas danças, suas músicas e suas técnicas, sua vida e sua morte.
     Em 1939 lança Vaqueiros e Cantadores e seu nome se coloca, a partir de então, como uma legenda no estudo do saber do povo. Funda a Sociedade Brasileira de Folclore. Propõe uma teoria para a Cultura popular. Ergue com erudição um conceito brasileiro para a Literatura Oral. Viaja para beber nas fontes africanas o vinho arcaico de nossas raízes.
     Autor de clássicos da cultura brasileira como o Dicionário do Folclore, Civilização e cultura, História da alimentação no Brasil, ensaísta da Jangada e da Rede de dormir; antropólogo das Superstições; etnólogo dos Costumes; sociólogo do Açúcar; tradutor de Montaigne e Koster; historiador dos gestos - a obra de Cascudo é continente e ilha.
     Com mais de uma centena de títulos entre livros, traduções, opúsculos e artigos publicados no Brasil e em vários países, viveu a vida vendo e ouvindo, lendo e escrevendo, sem nunca pensar em deixar sua terra. Por isso não aceitou o fardo da Academia Brasileira de Letras nem o convite de Juscelino para reitor da Universidade de Brasília.
     Viveu e morreu na sua aldeia. Genial e humilde. Pobre e feliz.