quarta-feira, 11 de junho de 2014

O DEMÔNIO AZUL




O DEMÔNIO AZUL
            Vento. Choro. Febre. Su Lin. Meu Yin. Começo e fim de todas as minhas angústias . Perfume forte de Lótus perturbando a névoa do pensamento. Difícil explicar como tudo começou.Imagens vão se acertando aos poucos, ofuscadas pela raiva que sobe nas veias e cega na ponta de minha adaga. Corro matas, rios e montanhas esperando pelo fim. Fang. Canalha.
            Conheci minha amada faz tempo. Carregava vaso de porcelana em ponte de bambu. A pele pura branca  contrastando com cabeleira negra mística. Sopro de Rouxinol em noite cálida de inverno. Rosto delicado como choro de pétala em noite de luar...Percebi a eternidade sobejando cristais aromáticos na grande lagoa da existência. Perguntei pelo nome. Recuou assustada. Amor verdadeiro e puro nasceu para ser tratado com leveza. Implorei com cuidado. Falou como quem sopra névoa perfumada: Su Lin.
            Indaguei seu destino. Respondeu receosa. Casa. Ofereci para acompanhá-la. Quis saber o meu nome. Voz traiu harmonia, grosseira: Matsurato, samurai com orgulho. Sorriu, admirada. Agradeceu e seguiu caminho. Segui, torturado.
            Lar cercado de flores. Lótus. Enterrei espada no chão. Chorei. Se aproximou piedosa . Enxugou minhas lágrimas. Seda verde guiada por mão doce. Chorei mais ainda. Abraço amoroso. Beijo na fronte de marfim. Outro recuo.
            Desfalecer sofrido. Olhar caridoso. Arrependido. Suspiro cansado. Nívea mão estendida. Sonho de tocar infinito. Lábios na ponta dos dedos. Magnitude em pequenos frascos. Convite para chá.
            Carícia de flerte em borda de xícara. Sedução do espírito na intenção do querer. Lábios de pétala sorvendo néctar. Cabeleira valsa em vento de crepúsculo. Sorriso escondido nas mãos peroladas. Olhar recompensado de guerreiro. Chegada no paraíso das essências.
            Passeio por jardim. Doçura no andar. Ousadia de toque. Recuo. Lótus. Tristeza delicada de olhar feminino. Carícia na face. Flor que desabrocha em sorriso. Fuga.
            Noite brumosa cai. Negrume embriagado de estrelas. Perfume nas mãos e nos lábios. Lótus. Desfaleço em relva molhada. Eternidade de sonhos. Lembranças se tornam séculos. Conflito de alma guerreira. Entrega de armas. Lufada de folhas assobia no firmamento. Insônia de coração que borbulha.
            Retorno. Camuflagem soturna. Companheira escuridão. Luz na janela. Aproximação.Su Lin escova os cabelos. Pente de ossos. Lótus. Quietude disparada. Alvura de pele em luar azulado. Sabor de divindade.
Dia seguinte. Samurai adormecido. Paz. Despertar em cama de bambus. Surpresa. Casa conhecida. Fina textura de cobertor. Suspiro sonhador de corpo. Gosto de imobilidade.
Porta. Olhos preocupados na fresta. Sorriso de guerreiro cansado. Alívio de bem-estar. Convite para conversa. Receio de dama ao entrar. Aproximação com cuidado. Nobreza de felino no agachar. Dedos perolados na testa. Lábios desejam tocar. Mão recua assustada.. Choro calado de leviano. Pano de seda que volta. Pétalas tocam meu olhos. Delírio para nunca mais acordar.       
           


quinta-feira, 5 de junho de 2014

Navegando na solidão incompreensível



Lua cheia. Estava andando descalço na areia fofa e fria da praia, deixando me inundar pelos raios frios da Mãe Celeste quando olhei para o mar e vi uma coisa absolutamente fantástica que mais tarde acabou se tornando uma revelação: um barco de pesca balançava levado pelo vento enquanto o luar o rodeava, deixando o resto do oceano completamente negro. Era como estar dentro da tela “Pescadores no Mar” do artista plástico inglês William Turner. Enquanto me maravilhava com o espetáculo percebi outra coisa ainda mais fantástica: aquele barquinho acabou se revelando uma metáfora de minha jornada existencial.
            Sim, uma pequena embarcação navegando  ao sabor do lirismo, combatendo tempestades de mediocridade e enfrentando trovoadas e relâmpagos da vida. A vela principal sopra com o desfalecer manhoso das musas que me inspiram, assim como o sabor acidamente doce da melancolia.
            A alma leve segura com firmeza o leme do barco, enquanto o corpo balança no valsar da embarcação. A bússola é o pensamento livre, embalado por Bach e Beethoven.
            O motor deste barco tão potente é movido pelo simples prazer de estar vivo na Terra, sentindo a pureza de cada gesto inocente e esgotando ao máximo cada toque de amor, maravilhando-se com borboletas e tentando se igualar a elas, sentindo as delicadezas com que lábios femininos vibram de ternura num momento de vitória, deliciar-se com cada cabeça que descansa em nossos ombros cansados, inebriando-se com perfumes que nos transportam para o transcendentalismo da raça humana, sugando com fervor cada momento de tristeza, transformando lágrimas indecisas em pétalas de rosas e mergulhando calidamente em explosões de cristais coloridos e sonoros, perdendo-se do corpo para encontrar a nossa verdadeira essência, em meio a um oceano de embriaguez e loucura.
            Vou flutuando na incerteza aquática da existência, abastecendo nos grandiosamente pequenos poços de mistérios que se escondem sob corpos de fêmeas com fome de dominar o mundo e ao mesmo tempo tão frágeis quanto ele.
            A única meta é descobrir um enigma tão presente e ao mesmo tempo tão distante da minha compreensão: a raça humana.
            Somos um imenso quadro vivo: os líricos pintam as emoções enquanto os cartesianos as emolduram....