quinta-feira, 24 de julho de 2014

Elias Canhoto e a Onça Caolha

Elias Trancoso nasceu em uma solitária tarde de Setembro, com o inverno teimando em se despedir e a primavera já acenando convidativa. Veio ao mundo numa pequena estância do interior de Minas Gerais, isolada do mundo civilizado numa época onde a moral e os bons costumes ainda serviam como bússola para a conduta dos cidadãos.
Filho do tropeiro Matias Trancoso com a lavadeira Sebastiana Gusmão, cresceu em comunhão com a natureza, pescando, tomando banho de cachoeira e comendo frutas no pé. Um traço o caracterizou desde cedo: usava a mão esquerda com mais frequência que o normal, causando um estranhamento em seus pais, que tentaram a todo custo "corrigir este problema". Por fim acabaram desistindo, depois de perceber que isso não afetava a sua saúde nem sua personalidade.
Quando completou seis anos seu irmão Quincas nasceu. Desde então tornaram-se parceiros inseparáveis. Como o pai estava frequentemente distante em viagens, Elias acabou por se tornar o seu protetor e guia na maior parte do tempo, respondendo aos questionamentos do pequeno e cuidando para que nenhum mal lhe acontecesse.
Assim seguiram até o impensável acontecer. Depois que o pequeno completou dez anos, seu irmão concluiu que estava na hora de ensiná-lo a pescar. Decidiram ir num rio que ficava a umas duas horas de distância a pé, seguindo por uma estrada de terra enfeitada por flores e árvores frutíferas variadas.
Elias escolheu com cuidado o melhor bambu para fazer o caniço de seu aprendiz. Estava extremamente feliz por poder compartilhar uma de suas grandes paixões com seu mais fiel companheiro. Preparou o instrumento com um carinho ímpar e enquanto colocava a isca no anzol ia repetindo as instruções até o pequeno se cansar de ouvi-lo.
Quincas logo pegou o jeito e em pouco tempo já estava quase tão bom quanto o seu professor. Elias olhava orgulhoso o menino lançar sorridente o anzol na água e aguardar ansioso pela sua próxima vítima. A dupla se divertiu tanto que acabou perdendo a noção do tempo. Quando perceberam já tinha começado a escurecer. O pequeno ficou com medo e segurou forte no braço de seu irmão, enquanto eles retornavam pela estrada agora escura e cujo silêncio só era quebrado pela sinfonia das cigarras.
De repente Elias viu um par de olhos brilhando na beira da estrada. Era uma onça pintada e ele só tinha trazido uma faca de limpar peixe, pois nunca tinha encontrado um predador tão feroz naqueles arredores. Por outro lado ele nunca tinha ficado até aquela hora da noite fora de casa. O animal fez menção de avançar e Elias se interpôs para defender o irmão menor. Ela recuou, inclinando seu corpo para depois saltar sobre o jovem, que mal teve tempo de pegar sua arma. Elias usou todas as suas forças para empurrar a jugular da onça, que avançava ferozmente em sua direção.
A faca tinha caído a alguns centímetros de distância. Quincas pegou a faca e enfiou no olho esquerdo do animal, que desviou sua atenção para o pequeno e avançou sobre ele, rasgando sua jugular e o matando instantaneamente.Elias mal teve forças para se levantar,
quando conseguiu, percebeu que o animal tinha arrastado o garoto para dentro da escuridão, que agora estava em sua plenitude.
Voltou andando para casa, mal conseguindo raciocinar direito. Sua mãe veio correndo desesperada em sua direção e quando recebeu a notícia desmaiou no mesmo instante. A partir daquele momento Sebastiana deixou de se alimentar direito e foi definhando até falecer, sem nunca perdoar o seu primogênito pela tragédia.
Após enterrar sua mãe no quintal de sua casa, Elias partiu antes que seu pai retornasse, levando a velha carabina que ficava em cima do armário no quarto de sua mãe, para proteção de possíveis assaltantes ou animais ferozes. Partiu montado no único cavalo da família, um pangaré branco chamado Barbante. Foi andando em direção ao Leste, seguindo a onça caolha que havia arruinado a sua vida.
Cavalgou por algumas horas até chegar ao vilarejo de Calda Seca. O sol começava a se despedir e o cansado cavaleiro viu os últimos raios daquele longo dia iluminando uma bela morena com um vestido de renda branco enquanto ela tirava as roupas do varal.
Procurou uma hospedaria mas não encontrou. Acampou nos arredores e dormiu sentindo fome. No dia seguinte acordou com cheiro de café que vinha de uma casa próxima. A boa senhora que ali morava o viu se levantando e lhe ofereceu uma caneca com pão de milho e queijo minas. Enquanto se alimentava ia meditando sobre o que faria a seguir. Depois começou a caminhar pelo vilarejo, procurando por alguém que tivesse pistas de seu nêmesis.
Quando reencontrou a morena do dia anterior, percebeu que ela estava carregando uma enorme trouxa de roupas para lavar no rio ali perto e se ofereceu para ajudá-la. Seu nome era Dália e ao contrário do que ele havia imaginado, a moça era confeiteira, fazendo pães e bolos para serem vendidos na mercearia do seu pai.
Dias viraram semanas, que viraram meses, que viraram anos. Assim os dois foram ficando cada vez mais íntimos, chegando inclusive a morar juntos, enquanto ele ia melhorando gradativamente a sua pontaria na carabina. Conseguiu um emprego na venda de seu sogro, ajudando no transporte de mercadorias das cidades vizinhas e servindo bebidas aos fregueses que ocasionalmente apareciam para molhar a goela e trocar dois dedos de prosa.
Seu habitual uso da mão esquerda chamava a atenção dos habitantes da cidade, que ficavam intrigados com essa peculiaridade, como se de certa forma, ele fosse marcado de forma especial. O estigma virou benção.
Ela trouxe alívio para a sua alma e por um momento Elias até pensou em abandonar sua vingança, imaginando que a besta de um olho só provavelmente já estaria a caminho da morte, com suas habilidades predatórias prejudicadas, definhando solitária e ansiosa pelo fim de seu sofrimento. Apesar de tudo isso, nada conseguia aplacar os pesadelos que invadiam o seu sono todas as noites.
Era sábado. Estava sentado na varanda da casa de sua amada após o almoço quando recebeu a notícia que tanto esperava: dois pescadores lhe disseram que viram uma onça com
o olho esquerdo furado, deitada embaixo de uma mangueira a algumas horas dali. Sem hesitar ele passou a mão na arma e foi atrás da maldita.
Conseguiu chegar no local com certa facilidade, seguindo as instruções que lhe foram dadas. Quando finalmente a reencontrou magra e pálida, deitada na sombra da frondosa árvore, sentiu suas pernas tremerem com a lembrança da noite fatídica onde sua vida tinha começado a desmoronar. Preparou a carabina e mirou, mas não conseguiu atirar. Estaria aliviando seu sofrimento. Não, não, ela não poderia se livrar tão fácil. Não depois de toda a dor que tinha causado. Resolveu acompanhá-la de longe, sorver lentamente a sua agonia.
Assim Elias foi seguindo o animal que andava com dificuldade e conseguia pegar apenas alguns pequenos animais que tinham o infortúnio de cruzar o seu caminho. Sem a sua visão periférica, estava com os seus dias contados e de certa forma sabia disso. Olhava moribunda para o rio, sentindo o cansaço nos ossos e ao longe seu algoz sentia uma certa justiça agridoce acontecendo.

Depois de uma semana a onça finalmente caiu para não mais levantar. Os urubus que já estavam a rodeando há alguns dias pousaram e começaram a devorar suas entranhas. Sentiu então uma estranha sensação alívio percorrer pelo seu corpo, que fez com que ele caísse ajoelhado no chão e começasse a chorar, percebendo assim a cicatrização interior que lentamente começava.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Dândis, capuccinos e um pouco de xerez

Fico feliz em poder reaver uma série tão querida graças à “magia do torrent”. Procurei esta série para baixar, vender e não achei em lugar nenhum, foi um sufoco. Estou falando de “Frasier”, série famosa na década de 90, que começou como “spin off” de uma série mais antiga ainda que ironicamente, eu achei para vender. Conta a história de um psiquiatra que, após se divorciar da mulher em Boston, volta para a Seattle, sua terra natal onde reencontra seu irmão Niles, que também exerce a mesma profissão, e seu pai, um policial aposentado por invalidez após tomar um tiro no quadril.
Interessante perceber como a série trabalha a interação entre esses três personagens. Os dois irmãos, intelectuais com gostos bastante parecidos, são como dândis que tem pouquíssimo ou quase nenhum traquejo social e vivem como se estivessem numa bolha, com seus capuccinos no café Nervosa, óperas, discussões literárias embaladas por xerez e gastronomia refinada no “Le Cigare Volant”, enquanto o pai deles é altamente sociável, desprendido de praticamente tudo, prefere o conforto ao luxo sempre e quase sempre está bem humorado, pronto para tomar uma cerveja no McGintys, um pub frequentado por policiais. O embate entre esses dois pontos de vista gera curiosas discussões, onde não existe um lado que está certo o tempo todo. Estão o tempo todo querendo chegar a um meio termo, um estado de equilíbrio, que enriquecerá os dois lados da balança.
O embate entre os dois irmãos é igualmente fascinante. O mais velho, seguidor da linha freudiana de pensamento, está sempre buscando interagir mais com as pessoas. Trabalha num programa de rádio dando conselhos aos ouvintes que ligam. Seu irmão mais novo, seguidor de Jung, possui um escritório e não respeita o ofício do irmão, embora tenha ressinta sua notoriedade, enquanto o outro, apesar da fama na cidade, não possui o apreço da comunidade psiquiátrica, onde seu irmão caçula é altamente considerado.
Os relacionamentos amorosos dos irmãos também valem um comentário à parte. Casados outrora com mulheres frias e emocionalmente distantes, a dupla tem o péssimo hábito de racionalizar a exaustão todo tipo de comportamento feminino, o que os leva ao óbvio fracasso. Niles, por sua vez, se apaixona pela fisioterapeuta de seu pai, uma garota humilde com quem não tem nada em comum, o que gera uma situação interessante, onde ele é obrigado a sair de sua zona de conforto.
Inteligentes, solitários, sofisticados e algumas vezes escravos de sua própria vaidade, ocasionalmente terminam presos em armadilhas projetadas em seu próprio raciocínio, analisando em excesso as coisas belas e simples da vida, que merecem ser apreciadas como são. Afinal, como diria Freud: “às vezes um charuto é apenas um charuto.”