domingo, 27 de dezembro de 2015

Quando as desimportâncias choram...


O mundo se despediu de mais um de seus grandes artistas no dia 13 de novembro de 2014. Dono de uma sensibilidade bastante peculiar, Manoel de Barros deixa uma lacuna na Literatura Brasileira que dificilmente será preenchida. Louvava as coisas pequenas, a riqueza escondida nos detalhes quase imperceptíveis, onde a vida reluz com mais força.
Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu em Cuiabá (MT) no Beco da Marinha, beira do Rio Cuiabá, em 19 de dezembro de 1916, filho de João Venceslau Barros, capataz com influência naquela região. Mudou-se para Corumbá (MS), onde se fixou de tal forma que chegou a ser considerado corumbaense. Depois mudou-se para  Campo Grande (MS), onde vivia como advogado,fazendeiro e poeta.
Tinha um ano de idade quando o pai decidiu fundar fazenda com a família no Pantanal: construir rancho, cercar terras, amansar gado selvagem. Nequinho, como era chamado carinhosamente pelos familiares, cresceu brincando no terreiro em frente à casa, pé no chão, entre os currais e as coisas "desimportantes" que marcariam sua obra para sempre: "Ali o que eu tinha era ver os movimentos, a atrapalhação das formigas, caramujos, lagartixas. Era o apogeu do chão e do pequeno. A quinze metros do arco-íris o sol é cheiroso. E quem pode garantir que não é?” Seu primeiro livro foi publicado no Rio de Janeiro, há mais de sessenta anos, e se chamou Poemas concebidos sem pecado. Foi feito artesanalmente por 20 amigos, numa tiragem de 20 exemplares e mais um, que ficou com ele.
Nos anos 80, Millôr Fernandes começou a mostrar ao público, em suas colunas nas revistas Veja e Isto é e no Jornal do Brasil, a poesia de Manoel de Barros. Outros fizeram o mesmo: Fausto Wolff, Antônio Houaiss, entre eles. Os intelectuais iniciaram, através de tanta recomendação, o conhecimento dos poemas que a Editora Civilização Brasileira publicou, em quase a sua totalidade, sob o título de Gramática expositiva do chão.
Hoje o poeta é reconhecido nacional e internacionalmente como um dos mais originais do século e mais importantes do Brasil. Guimarães Rosa, que fez a maior revolução na prosa brasileira, comparou os textos de Manoel a um "doce de coco". Foi também comparado a São Francisco de Assis pelo filólogo Antonio Houaiss: Sob a aparência surrealista, a poesia de Manoel de Barros é de uma enorme racionalidade. Suas visões, oníricas num primeiro instante, logo se revelam muito reais, sem fugir a um substrato ético muito profundo. Tenho por sua obra a mais alta admiração e muito amor.
Manoel, o tímido Nequinho, se dizia encabulado com os elogios que "agradavam seu coração". Ele afirmava que seu processo de criação assemelhava-se “ao de quem lava roupa no tanque dando porrada nas palavras”. Anotava tudo.  Não tinha método nem métodos. Os relevos do insignificante.  A solidão de Vivaldi
O poeta foi agraciado com o “Prêmio Orlando Dantas” em 1960, conferido pela Academia Brasileira de Letras ao livro “Compêndio para uso dos pássaros”. Em 1969 recebeu o Prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal pela obra “Gramática expositiva do chão” e, em 1997, o "Livro sobre nada” recebeu o Prêmio Nestlé, de âmbito nacional. Em 1998, recebeu o Prêmio Cecília Meireles (literatura/poesia), concedido pelo Ministério da Cultura.
As obras deste grande poeta abrangem desde o mistério do infinito das coisas e objetos aparentemente banais até o espantoso universo das relações humanas e do homem com o meio ambiente.
Essa imersão mística no infinito da Natureza equivale a penetrar na própria interioridade, alcançar a consciência da liberdade e atingir o sentimento íntimo da vida, com o qual o homem teria consciência de sua unidade com os semelhantes e com a universalidade dos seres.
Em uma entrevista ao jornal O Estado de São Paulo em 1990, ele comentou toda a sua desilusão com as tendências que nos permeiam: No grande futuro, não sei o que seja, acho que o homem vai pedir pelo amor de Deus para conhecer uma árvore, um passarinho, um cavalo. Tenho medo que a ciência acabe com os cavalos, com a luz natural, com as fontes do ser. Aquela liberdade que o homem tem de se sentir livre para o silêncio das árvores não vai ter mais. O idioma não vai servir mais para celebrar. O ser não vai mais comungar com as coisas. A imaginação não vai mais desabrochar, porque os nossos desejos e fantasias serão realizados. O mundo vai ter outro cheiro. Salvo não seja.
Um homem que deixa de legado uma sensibilização para a riqueza inscrita no tempo para buscar a desaceleração dos referenciais tanto existenciais quanto imagéticos, rever e analisar diretrizes e prioridades. Chave para que o ser humano se redescubra em sua jornada pessoal rumo à magnitude da própria insignificância.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Poema para qualquer hora

Um vento doce vai recobrindo as montanhas de saudade, iluminado pelo sereno perfume de tuas lágrimas. Tua boca eclode terremotos escondidos em abraços disfarçados. Um oceano de gritos é distraído pelo seu olhar de soslaio, que desperta dúvidas enquanto convida um infinito de idéias marejadas em cálices perdidos. Sonhos recobertos de memórias entrelaçam desatinos quebrantados de sussurros desafogados.Assim teu semblante vai redescobrindo ternuras disfarçadas em dedilhados suaves de fragrâncias furtivas, calejadas de dissabores apaixonados. E tudo mais vai sendo lentamente sublimado em suspiros abafados por vapores despejados em baús despedaçados de outonos ultrapassados. Quem sabe o tempo irá dissipar todas as mágoas, cristalizadas em momentos instantâneos enquanto eternos, desperdiçados em palavras distorcidas, dilaceradas. Os sintomas permanecem guardados nas lembranças empoeiradas de anteontem.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Comemorando!


Fico imensamente feliz em dizer que a primeira tiragem está ESGOTADA! Agradeço do fundo do coração a todos que compareceram ao lançamento e me deram um voto de confiança comprando meu primeiro romance. Espero que tenham tanto prazer lendo quanto eu tive tecendo essas histórias. Seria um imenso prazer ter o feedback dos leitores,se possível. Quem tiver interesse e quiser adquirir, ele está disponível para venda no site da editora:

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Reflexões acerca do sofrimento da alma

Por Felício Brandi*
 Existe em mim uma força cega...
 Tentei negá-la, mas ela se afirmou.
 Ao tentar matá-la, ressuscitou.
 Somente então compreendi que deveria transmutá-la.
 Sendo cega, precisava de um guia e este pairava sobre mim:
 Era o Espírito, o melhor amigo de minh’alma e que dentro de minha ignorância,
 desconhecia.

 I – A perda da paz de espírito leva-nos à perda da harmonia.Paz de espírito é a paz proporcionada pelo Espírito. Aquele que a possui vive na quietude, em perfeita harmonia. Ele é o extraordinário se manifestando em um mundo ordinário. Sabe que suas experiências místicas não podem ser expressas através da linguagem e que elas não tem valor para o mundo. Faltando-lhe palavras, opta pelo silêncio...

 II – A perda da harmonia deixa-nos suscetíveis à inquietação.O inquieto perdeu a quietude e com ela a dádiva do contentamento. A harmonia assemelha-se a uma jóia cujo valor é desprezado por muitos e que somente é estimada por aquele que a possui. Por não ser valorizada, não nos será roubada. Podemos apenas perdê-la... 

 III – A inquietação deixa-nos suscetíveis aos receios. O sábio percebe o perigo das sutis alterações em seu reino (sua mente). Sabe que uma leve inquietação poderá impedi-lo de meditar. Um pequeno receio é para ele uma clara evidência de que devido a sua falta de vigilância sua preciosa jóia infelizmente se perdeu.Todavia, sabe que para reencontra-la basta-lhe apenas relembrar onde e quando exatamente se descuidou a ponto de perdê-la.

IV – Os receios podem se transformar em medos.Ao sábio não é permitido ter medo. A sinfonia tem um maestro. O mundo tem um regente. O destino se manifesta e o sábio se adapta. Nada teme quem está nos braços do Pai. Nada teme quem guarda com cuidado sua jóia. 

 V – O medo potencializado transforma-se em pavor.O porvir nos apavora devido ao fato de ainda não termos percebido o maestro oculto. O fato de não o percebermos não caracteriza sua inexistência, apenas nossa incompetência. Pavor é o sentimento que se instala após passarmos um período tão longo sem a nossa jóia que não nos lembramos mais quando e onde exatamente a perdemos.

 VI – O pavor gera a angústia.A angústia nos paralisa e nos faz duvidar de nossas ações. Queremos e precisamos agir, porém não vislumbramos saídas. Diferentemente do desespero que nos leva a agir de forma impulsiva, a angústia impede nossas ações mais simples e nos faz duvidar de nosso próprio discernimento. 

 VII – A angústia pode se transformar em melancolia. O melancólico vive desgostoso, tudo lhe parece cinza e insípido. Falta-lhe a alegria serena proporcionada pela harmonia. O melancólico é a imagem da tristeza. A tristeza o retrato da dor. O hedonismo não é a cura para a melancolia. A tristeza não se esvai com o entorpecimento dos sentidos.

 VIII – A melancolia pode evoluir para uma depressão nervosa. A depressão rouba-nos nossa esperança, energia e futuro. A paz foi perdida e não vislumbramos saída.

 IX – A depressão pode nos levar a mergulhar na derrelição.Derrelição é a perda da fé e da esperança. O indivíduo sente-se entregue à própria sorte, totalmente só e abandonado.

 X – A derrelição pode nos levar ao desespero e, este, ao suicídio.  Talvez o suicídio seja uma decorrência da ação concomitante dos três “D”: depressão, derrelição e desespero. Desespero é o não querer esperar. A perda da esperança, do discernimento e do bom uso da razão. O meio mais eficaz de agir de forma equivocada e desastrosa. O desesperado não espera o fluir do destino, age impulsivamente sem aguardar o advento da graça. Um problema aparentemente sem solução pode ser resolvido. Se o suicida conseguisse esperar um pouco mais talvez percebesse que o tormento que o afligia não era tão grande quanto intuía: não há mal que eternamente perdure e nem dor que o tempo não cure.

O suicídio enquanto veleidade já é um forte indício de que estamos em desarmonia. Todavia, a partir do momento em que criamos racionalizações para justificar desejos suicidas, entramos em um terreno perigoso e precisamos urgentemente restabelecer a harmonia antes de perdemos em definitivo nosso discernimento e agirmos de forma impulsiva movidos pelo desespero. O sábio, todavia, vive de forma abnegada e altruísta, em completa beatitude. Abraça a ascese e a vida contemplativa. Delibera antes de cada ato, analisa os motivos e refreia tendências que poderão se transformar em maus hábitos. Ele flui como água e aceita seu destino de forma equânime, sem euforia diante do vislumbramento de uma situação favorável e impassível diante da dor que poderá lhe advir. Supera os obstáculos da vida sendo forte e flexível. Crê na inconstância do prazer e da dor, esperando pacientemente pelo socorro divino. Sabe que o Pai não  privilegia ninguém, porém, nunca deixa de zelar pelo filho de bom coração.

*BRANDI, Felício. O Caminho da Integração. Porto Alegre: Buqui, 2015.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Vikings



O jornalista Walter Lippmann afirmou certa vez que "A genialidade de um bom líder é deixar para trás uma situação com a qual o senso comum, sem a graça da genialidade, consegue lidar de forma bem sucedida." Ele consegue o respeito e admiração de seus seguidores porque estes percebem que estão sendo direcionados para algo grandioso e diferente.
A idéia de engrandecimento não só material como também espiritual é um poderoso motivador para aqueles que buscam enriquecer e ganhar as graças dos deuses que idolatram durante este processo.
A série criada por Michael Hirst para o canal History Channel é baseada na trajetória do lendário rei nórdico Ragnar Lothbrock, pioneiro em navegações para o oeste, quando todos pensavam que não havia nada além de oceano e eventualmente o fim do mundo.
O protagonista é mostrado a princípio como um simples fazendeiro, vivendo na Escandinávia com sua mulher Lagertha e os dois filhos. Com a ajuda do amigo visionário Floki eles constroem uma nova geração de barcos mais rápidos e elegantes. Além disso, seu grande sonho é navegar para o ocidente e descobrir novas terras, embora o líder de seu grupo tenha proibido tal façanha.
Eventualmente ele chega na Inglaterra e a primeira visão do seu bando é um mosteiro que é imediatamente saqueado. Ragnar percebe que um dos frades fala a sua língua e o transforma em seu “escravo” pessoal. A partir desse momento cria-se um interessante diálogo entre duas culturas diametralmente opostas e enriquecendo assim consideravelmente a narrativa.
Vale mencionar a desmistificação de uma civilização que geralmente é retratada como grosseira e semi-animalesca.Os Vikings são aqui mostrados como hedonistas que tinham um profundo respeito por seus deuses e faziam de tudo para agradá-los, especialmente morrer em batalha, considerada a glória máxima para alcançar o Valhalla, a versão deles do Paraíso.
Esse contraste entre as duas formas de misticismo, a católica e a nórdica, cria um interessante debate entre o guerreiro e o sacerdote, já que ambos são homens de profunda fé que desejam demonstrar a superioridade do dogma ao qual devotaram toda a sua existência.
Interessante comentar também o curioso relacionamento de Ragnar com o seu irmão Rollo, que oscila entre a lealdade fraterna e uma profunda inveja que faz com que ele o traia sempre que surge uma oportunidade.
O seriado é eficiente ao revelar de maneira bastante sutil a superioridade do protagonista sobre os seus companheiros. Além de engenhoso, carismático e um ótimo espadachim ele sempre busca ser humilde e justo, demonstrando ser um verdadeiro líder e servindo de contraponto para o chefe da comunidade que não atende a algumas dessas características.
A colisão de dois mundos tão estranhos e ao mesmo tempo tão similares entre si traduzem nossas verdades mais íntimas. O sangue ganha uma conotação quase santa, como se sacralizasse o campo de batalha, abençoando a entrega dos oponentes a um poder maior que os redime e purifica.
Atualmente está disponível no Netflix.  
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.
Contato por e-mail: gilson.salomao@gmail.com

terça-feira, 1 de setembro de 2015

The Office


O escritório de trabalho é um local interessante para se estudar a natureza humana, pois trata-se de um ambiente onde as pessoas ficam relativamente confinadas juntas e não necessariamente se combinam,mesmo precisando desempenhar uma tarefa em conjunto. Os colegas de serviço acabam sendo presenças mais constantes do que a própria família ou amigos, criando uma ligação que pode evoluir para romances, amizades ou o oposto.
            Foi refletindo sobre este recinto que os comediantes britânicos Ricky Gervais e Stephen Merchant criaram para a BBC a série humorística The Office, que basicamente simula um documentário sobre o cotidiano na filial de uma empresa de papéis em uma pequena cidade na Inglaterra. Infelizmente ela durou apenas duas temporadas, pois os criadores decidiram “que não havia mais nada a ser acrescentado”, encerrando com um especial de Natal que funcionou como um epílogo para a história.
            O sucesso internacional foi tão grande que acabou gerando várias versões em diversos países, dentre elas uma americana pela NBC, cujo elenco era encabeçado pelo versátil Steve Carell interpretando o imprevisível e divertido Michael Scott, gerente regional da empresa Dundler Mifflin.
            Além do chefe “sem noção” (interpretado por Gervais na versão original), outros personagens foram mantidos como o vendedor desmotivado que é apaixonado pela recepcionista (sendo esta já comprometida com outra pessoa) e o bajulador que deseja tomar o lugar de seu patrão um dia.
            O grande mérito da versão americana foi não fazer uma cópia bonitinha, mas pegar a idéia da versão inglesa e expandi-la. Desta forma, além da filial na pequena cidade de Scranton (onde estão os protagonistas), temos o seu relacionamento com a matriz em Nova York e as outras sedes em diferentes cidades dos Estados Unidos, ampliando a dimensão da firma e possibilitando uma maior variedade de histórias.
            Assim como na questão geográfica, o perfil dos personagens pode ser melhor desenvolvido, especialmente o de Michael Scott e seu fiel aliado Dwight Schrute. As cenas envolvendo essa dupla são sempre o ponto alto dos episódios porque proporcionam a combinação de dois níveis de insanidade completamente diferentes.
Steve Carell interpretou sem sombra de dúvida um dos personagens mais brilhantes e complexos de sua carreira, conferindo ao gerente regional diferentes camadas de personalidade e surpreendendo o público sempre. Em alguns momentos é completamente mesquinho, vaidoso e egoísta, para depois se redimir revelando completamente o oposto. Esse aspecto agridoce já era comum na versão britânica.
Outro grande diferencial da leitura americana foi a evolução dos personagens secundários que acabaram gerando momentos antológicos ao longo das temporadas. Cada um tem o seu momento e essa sincronia permite vislumbrar o escritório como um todo orgânico, transformando o espectador num observador onisciente, que consegue até imaginar como será a reação dos funcionários a certos eventos.
A linguagem em estilo documentário já utilizada na versão original envolve o público na história e permite uma visão mais elaborada do que estamos assistindo, pois temos o acontecimento e os comentários dos envolvidos a respeito do mesmo, numa espécie de reality show fictício.
A série está terminou em sua nona temporada, mas o fato é que infelizmente a sua qualidade caiu um pouco com a saída de Steve Carell na sétima, já que ele era o mestre de cerimônias do espetáculo. Uma visão comovente e distorcida de um grupo de colegas de trabalho que não está tão distante de nossa realidade, o que a torna ainda mais atraente e divertida.
 Recomendo com força!!!
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.
Contato por e-mail: gilson.salomao@gmail.com


segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Uma inconveniência crescente e desnecessária


 Não é novidade,mas ultimamente tenho percebido o aumento de nerds haters que não medem palavras para agredir, depois de perder qualquer argumento para discutir de forma razoável sobre qualquer assunto. Abrigados no anonimato da internet,ofendem sem a menor cerimônia se discordam a respeito de uma afirmação que é simplesmente uma opinião pessoal a respeito de um assunto. A viabilidade de expressar as próprias opiniões virou uma arena onde todo mundo precisa pensar três vezes antes de postar uma vírgula sobre determinado assunto, caso contrário é rotulada de x ou y. Sou a favor de um debate aberto e fico feliz por existirem várias pessoas com opiniões diferentes sobre vários assuntos, assim todo mundo ganha depois de uma discussão saudável...O que incomoda é que deveríamos ser mais esclarecidos, já enfrentamos tanta repressão de ignorantes para conquistarmos nosso espaço e agora estamos repetindo a mesma prática de que fomos vítimas anos atrás...especialmente com a mulherada que quer participar das discussões e sempre traz algo interessante...

terça-feira, 28 de julho de 2015

Blade Runner



A boa ficção científica sempre explorou a vertente existencial, questionando os valores que nos definem e norteiam. Para isso adotou-se a robótica como tema recorrente, usando a mesma para dissertar sobre a conjectura humana.
O diálogo entre homens e criaturas feitas à sua imagem e semelhança permite uma reflexão sobre as características que nos aproximam e diferem das máquinas, estabelecendo limites e configurações da nossa complexa natureza.
Ambientada no ano de 2019 e baseada em um conto do genial Philip K. Dick , a narrativa acompanha Rick Deckard, um policial afastado que retorna à ativa no destacamento especializado em capturar replicantes, andróides construídos para trabalhar na exploração e colonização de outros planetas no espaço extraterrestre. Tornaram-se ilegais após se revoltarem contra sua condição de escravos.Superiores em força e agilidade, eles possuem quase a mesma inteligência de seus criadores. O que realmente os diferencia é sua imaturidade emocional, um traço que não é facilmente identificado.
O investigador parte em busca de um grupo que escapou de uma colônia espacial e retornou à Terra. Enquanto ele procura os clandestinos, estes tentam encontrar seus criadores, para fazer uma importante solicitação.
A montagem do cineasta Ridley Scott apresenta um futuro sombrio e chuvoso, com algumas inovações tecnológicas, mas sem nenhuma arborização. A ambientação noir, reforçada pela trilha sonora composta por Vangelis, colabora para enfatizar a mensagem proposta.
Importante mencionar o relacionamento entre o protagonista e uma garota que não reconhece a sua composição cibernética. A tentativa de encontrar um sentimento honesto, algo que a destaque de seus semelhantes projeta o desejo de possuir uma identidade intransferível.
Interessante apontar também o fato de que o protagonista persegue os personagens robóticos sem uma motivação especial. Está apenas cumprindo ordens que lhe foram dadas, como um autômato, trazendo à tona uma discussão interessante sobre semelhanças e distinções da postura de homens e robôs.
Quando nos tornamos vítimas da rotina do cotidiano, terminamos agindo de forma impensada e repetitiva. O ponto de ruptura é a emoção que nos motiva, seja ela provocada por lembranças recentes ou passadas.
O elenco traz as ótimas interpretações de Harrison Ford, Rutger Hauer e Daryl Hannah, entre outros nessa projeção que induz à meditar sobre o sentido da passionalidade e como precisamos dela para nos sentirmos pertencentes ao ecossistema que transpira no planeta.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.
E-mail para contato: gilson.salomao@gmail.com

domingo, 26 de julho de 2015

Prosa escrita

Galera, estou com uma equipe ótima trabalhando na Revista eletrônica de Variedades Prosa Escrita. Confiram!!

Revista Prosa Escrita

Ariano Suassuna mitando como sempre

Você acredita em Deus?Você acredita em Deus? Ou acha que o homem veio do macaco? Veja a opinião do dramaturgo, romancista e poeta brasileiro Ariano Suassuna (1927 - 2014). Se concorda com ele, compartilhe.
Posted by Marcos Pereira on Sábado, 13 de junho de 2015

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Cala a boca,Philip

Alguns filmes são tão bons que fica difícil, praticamente impossível não esboçar uma resenha sobre eles. São aquelas obras que dominam seu pensamento, fazendo que você medite sobre a história e os personagens, especialmente sobre a mensagem proposta. 
"Cala a boca, Philip" trata da rotina do escritor Philip Lewis Friedman, uma pessoa extremamente arrogante e egoísta que magoa as pessoas sem a intenção de fazê-lo. Desacreditado por todos no início, ele agora se encontra prestes a publicar o seu segundo livro. Adotando uma postura misantrópica, ignora os sentimentos de sua namorada Ashley que sempre o apoiou emocionalmente e financeiramente, dirigindo agora toda a atenção para seu amigo, o consagrado escritor Ike Zimmerman, que assim como ele, é recluso mal fala com sua filha, seu único laço familiar. Prisioneiro de suas contradições, o protagonista parece não enxergar outra alternativa que não seja o auto-exílio com seu colega de ofício em uma cabana isolada no meio rural, pois afirma sentir-se sufocado e improdutivo no ambiente urbano em que reside. A narrativa em off rebuscado, quase literário, ajuda o espectador a perceber a história como se a mesma fosse um livro que ganha vida, onde as emoções e considerações dos personagens são descritas para o público. A fotografia levemente granulada lembra os filmes da década de 70 e contribui para traduzir o lirismo da história. Poucas vezes a labuta do escritor, foi tão bem representada na sétima arte, revelando artistas presos em seus próprios universos, com pouco ou  nenhum traquejo social, que demandam uma boa dose de paciência e sensibilidade, forças da natureza que ocasionalmente sufocam seus próximos sem considerar o estrago que causam ao seu redor. Gigantes que desprezam o tamanho de suas próprias pegadas e só percebem seu rastro quando é tarde demais para remediar. Trafegam em meio à multidão como equilibristas desengonçados, buscando seu espaço em meio a uma realidade que não os comporta.

Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

O cavaleiro do telhado e a dama das sombras


O século XIX foi extremamente conturbado na Europa, marcado por instabilidade política, social e salutar. No chamado Congresso de Viena, em 1815, fora decidida a reestruturação política do continente, que acabara de libertar-se da ocupação pelas tropas napoleônicas da França.
É nesse contexto que está inserida a história do filme em questão, que acompanha a trajetória de Angelo Pardi, um coronel italiano exilado na França, pois o seu país de origem fora ocupado pelos austríacos.
Mesmo habitando em outra nação ele continuou sendo acossado, tendo em vista sua alta patente e poder de liderança, além de um nacionalismo fervoroso e inabalável, disposto a oferecer a própria vida pela independência de sua terra natal.
Enquanto escapa de seus perseguidores e vai ao encontro de seus compatriotas degredados na região, encontra uma terra assolada por uma epidemia de cólera asiática que já havia exterminado grande parte da população e continuava a fazer vítimas num ritmo assustador.
A referida doença criou um painel comportamental que é bastante explorado na película, caracterizado por uma áurea de paranóia, ignorância, desconfiança e medo, bem semelhante àquela gerada pela peste negra durante o século XIV, que dizimou milhares de pessoas naquela mesma área.
Nessa conturbada conjuntura o protagonista encontra Pauline de Théus, uma solitária marquesa que aguardava em sua casa o retorno de seu marido há muito tempo desaparecido.
Quando é informado de que ela finalmente irá procurá-lo, o altruísta soldado resolve então adiar os planos de retorno ao seu país de origem (onde entregaria o dinheiro acumulado pelos companheiros proscritos a fim de ajudar aqueles que resistiam ao invasor) para escoltar a amável donzela até que ela encontre o seu cônjuge.
Os sucessivos encontros levam uma gradativa e intensa relação de afinidade. Ela fica impressionada com a sua polidez e determinação em ajudar a todos os necessitados, além de um espírito incansável e apaixonado.
O rapaz, embora visivelmente encantado pela beleza de sua acompanhante, insiste em manter a distância conveniente, estabelecendo a mesma relação de respeito e admiração que um cavaleiro medieval teria com uma dama da corte.
O cineasta Jean-Paul Rappeneau é eficiente ao inserir um romance platônico dentro de uma narrativa dinâmica e envolvente marcada por um contexto histórico interessante e poucas vezes abordado.
A fotografia é brilhantemente explorada realçando o impacto dos elementos de cena, pois o exímio cavaleiro se utiliza de vários objetos que estão a seu alcance para bolar suas estratégias de luta ou fuga.
Outra menção importante é a constante aparição dos corvos como referência ao clima mórbido que assombrava a todos e funciona como um importante exemplo desta técnica.
No tangente ao elenco a menção óbvia vai para o trabalho sempre impecável de Juliette Binoche, interpretando uma mulher que gradativamente cede ao pessimismo e agonia que era tão pertinente durante aquele período. Olivier Martinez também executa uma brilhante interpretação como o cavaleiro do título, impassível e cordial, que possui uma relação de carinho muito intensa com a mãe e com sua terra pátria. Chamo atenção ainda para a interessante aparição de Gérard Depardieu, que consegue marcar presença, mesmo em uma rápida seqüência.
Uma projeção que reúne elementos de histórias de cavalaria num importante contexto histórico através de uma narrativa dinâmica e interessante, retratando de forma lírica a paixão por um ideal que move o espírito inabalável que o acompanha.

Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Uma verdade inconveniente

O seguinte documentário comenta um problema importantíssimo que grande parte da população parece ignorar ou trata com indiferença: o aquecimento global.
            A estrutura da narrativa se desenvolve a partir de uma das inúmeras palestras que o senador Al Gore vem dando através do planeta, com o objetivo de chamar a atenção para este grave problema.
            Utilizando gráficos, vídeos e fotos, a apresentação é bastante didática e assusta até mesmo aqueles que acreditam estar cientes da gravidade da situação, já que os dados são alarmantes.
            O início é bem idílico, lembrando-nos de uma época mais simples, onde tínhamos um maior contato com o meio ambiente, o deslumbramento diante da primeira foto da Terra vista da lua e como a raça humana começou a criar consciência em relação à conservação da vida no planeta.
            O documentário ilustra como nossa atmosfera é vulnerável e são inacreditáveis os efeitos da poluição cotidiana em tão pouco tempo. O padrão de aquecimento nos últimos anos é incrivelmente alto e as conseqüências já são bastante visíveis. Uma das mais graves que aconteceu recentemente é o furacão Katrina, que devastou grande parte de New Orleans.
            A palestra também aponta para a velocidade do derretimento das calotas polares e da Groenlândia, bem como seus possíveis efeitos. O mais impressionante deles é o provável aumento do nível do mar em seis metros, alagando diversas áreas litorâneas.
            O filme também analisa o impacto das novas tecnologias, especialmente a bélica, no ecossistema, reforçando o fato de que no contexto pós-moderno há um descaso maior em relação a uma perspectiva em longo prazo.
            A fauna é visivelmente abalada em função de tamanhas mudanças: algumas espécies perecem enquanto outras nocivas que estavam praticamente erradicadas retornam fortalecidas, destruindo florestas e espalhando doenças.
            É interessante entender todas as possíveis ramificações do problema, já que afetam o balanço do meio ambiente como um todo e não somente uma parte dele. Algumas regiões estão sendo inundadas ao lado de áreas que enfrentam secas terríveis, já que a umidade do solo está sendo sugada.
            O documentário também rende críticas ao governo americano, que mesmo sendo um dos maiores contribuintes para o quadro geral de poluição da atmosfera, não se esforça para realizar mudanças em larga escala, tais como se comprometer a reduzir a emissão de gás carbônico através do Protocolo de Kyoto e buscar uma fonte de energia alternativa. Além disso, alguns cientistas americanos são perseguidos, perdem seus empregos tentando conscientizar a população. Algumas declarações vistas no filme mostram a ignorância da maioria dos políticos frente ao problema ao lado da frustração de Al Gore em tentar reverter essa situação.
            “Uma verdade inconveniente” é importante para sensibilizar a população a respeito de uma crise que já está acontecendo e que pode ser revertida, se cada um fizer a sua parte, pois não podemos nos dar o luxo de esperar acontecer.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.
Abaixo segue o link para ver o documentário na íntegra:


A vida marinha com Steve Zissou

O oceano é sempre fascinante, bem como as histórias que o tem como cenário. O filme em questão é mais uma confirmação dessa premissa. Seu protagonista é um célebre biólogo/documentarista passando por uma fase de decadência que organiza uma expedição para matar um misterioso tubarão que devorou seu melhor amigo (e membro da equipe) na costa oeste da África.
Enquanto organiza a viagem acaba conhecendo Ned Plimpton, um homem que pode ser seu filho e termina convidando o mesmo para fazer parte do grupo, despertando ciúmes em Klaus, um antigo parceiro de Steve  que o sempre considerou como pai.
Um outro agravante é a chegada de Jane Winslett-Richardson, uma jornalista da revista Oceanographic Explorer (o layout é idêntico ao da National Geographic) que está à bordo para escrever uma matéria sobre o famoso biólogo e que atrai o interesse do recém-chegado, bem como o de Zissou.
Numa clara referência ao famoso pesquisador marinho Jacques-Yves Cousteau (a película é dedicada à ele e sua fundação), que pode ser notada nos gorros vermelhos usados por toda a tripulação do barco Belafonte, as imagens do documentário são intercaladas com as cenas cotidianas na embarcação, o que é um exercício interessante de estilo.
A equipe de Zissou é notável por sua diversidade étnica, onde todos são indispensáveis e funcionam como uma engrenagem no processo. È bacana notar como o biólogo trata seus séqüitos, sempre criando apelidos carinhosos e fazendo questão que todos participem de sua empreitada, ao contrário de seu “rival”, o capitão Henessey, que trata com distância seus empregados.
 Dirigido por Wes Anderson, a projeção é interessante por procurar dar um enfoque a todos os tripulantes do barco, ao invés de se concentrar em apenas um deles.Além disso, todas sub-tramas são bem desenvolvidas, enriquecendo a narrativa.
O universo marinho é mostrado de forma idílica, onde aparecem fantásticas criaturas marinhas criadas a partir da imaginação do cineasta, tais como o lindo cavalo-marinho crayon. Além da fotografia exemplar, a trilha sonora é excelente, com Seu Jorge cantando músicas do David Bowie em português (sei que o conceito é estranho, mas o resultado é ótimo)
Muitas vezes ficamos pensando tanto nas metas que acabamos não prestando atenção no caminho percorrido. O final acabará surpreendendo de qualquer forma. Zissou está sempre pensando em se aposentar porque acredita que está muito velho e seus dias estão terminando, mas depois percebe que não pode simplesmente fechar seu espírito e esperar a morte.
O elenco dispensa comentários. Todos estão perfeitos. Destaque para mais uma excelente performance de Bill Murray, que constrói um Zissou deprimido mas profundamente apaixonado pelo seu trabalho e Willem Dafoe, que interpreta Klaus como alguém cuja fidelidade à Steve é inquestionável, mesmo quando suas idéias soam egoístas e suicidas.
Uma película formidável que traz a mesma mensagem do romance Moby Dick, de Hermam Mellville: o oceano é magistral e titânico, sendo o homem ridículo perante ele.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.