terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Magnólia


Magnólia


O filme acompanha um único dia da vida de vários personagens, cujas histórias se interligam a todo instante. O roteiro se preocupa em, rapidamente, apresentar cada um deles, até como forma de o espectador se situar na trama.

Assim, temos Earl Partridge, um sexagenário produtor de televisão, que está em seu leito de morte, aguardando o câncer encerrar o trabalho que já iniciou. Ele é casado com Linda, uma mulher muitos anos mais jovem, que aceitou o casamento unicamente pelo dinheiro, mas que, naquelas horas finais, descobre que o ama. Earl tem ao seu lado o enfermeiro Phil Parma, uma boa pessoa, que sensibiliza com os problemas de seu paciente, e luta para colocá-lo ao lado de seu filho, Frank Mackey (um guru machista que ensina homens a tratar mulheres como objeto), antes do evento trágico.

Paralelamente, Jimmy é um âncora do programa O que as crianças sabem?, produzido por Earl, e que é exibido há mais de 30 anos. Ele também está combalido pelo câncer, e com pouco tempo de vida. Do ponto de vista pessoal, Jimmy tem problemas de relacionamento com sua filha Cláudia, rebelde, viciada em cocaína e que se entrega ao sexo por droga. Ela encontra no policial de rua, Jim Kurring, uma chance de estruturar novamente sua vida.

Do ponto de vista profissional, Jimmy, pressionado pelo câncer e pela ausência de diálogo com a filha, começa a ter dificuldades de comandar o espetáculo televisivo, respondendo de antemão as perguntas que ele mesmo elaborou para seus candidatos. Um deles é o garoto Stanley  Spector, um gênio de conhecimentos gerais, que está prestes a bater o recorde do programa e, por isso, receber um boa quantia em dinheiro como prêmio, sobre o qual seu pai não vê a hora de colocar as mãos.

Enquanto isso, Donnie Smith, famoso por ter sido, no passado, o detentor do citado recorde, atualmente é um quarentão fracassado, lutando para manter-se no emprego de favor, e tentando conquistar um jovem barman.

 Dirigido por Paul Thomas Anderson, a película apresenta um mosaico de tragédias pessoais que caminham para uma situação limite, onde tudo desaba como um castelo de cartas.

Fala de nossas batalhas internas diárias, em busca de uma realização pessoal que nunca se satisfaz. Uma eterna luta solitária contra nossas fraquezas e a procura por um caminho a seguir.

O filme levanta ainda uma interessante discussão sobre coincidência e destino. Serão nossos atos fruto de uma cadeia de eventos já previamente delineada? Ou seremos nós os detentores de nossa própria sorte?

Em “Magnólia” várias escolhas feitas no passado são questionadas por alguns personagens, na medida em que os mesmos alcançam um estado crítico.

Nesse ponto destaco o monólogo final de Earl Partridge sobre os diferentes caminhos que tomamos em nossa vida, onde são intercaladas cenas com os vários protagonistas do filme.

A trilha sonora é belíssima e a seqüência onde todos cantam “Wise up”, de Amiee Mann é um dos pontos altos da projeção.

O desfecho surreal vem para mostrar que o destino é inexplicável e aberto às nossas próprias interpretações.

Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.

 

 

 

Sangue Negro

 

Sangue Negro


O petróleo é uma potência energética que sempre gerou um poder imenso àquele que o possuísse, gerando efeitos psicológicos interessantes, pois nunca se pode dimensionar que instintos ele irá despertar. Duas grandes projeções foram feitas a partir desta premissa: O épico “Assim Caminha a Humanidade”, em 1956 e o filme a seguir, embora ambos tomem perspectivas diferentes a respeito do assunto.

Enquanto o primeiro narra a vida de três gerações de famílias texanas, seus conflitos amorosos, disputas econômicas, preconceitos raciais, tudo entre a corrida pelo óleo negro, o segundo é focado na determinação de um homem para alcançar o poder arrecadando todos os poços que puder alcançar, sem medir esforços para fazê-lo.

A seqüência inicial apresenta de forma fantástica o perfil do protagonista: sozinho, no meio do deserto e suportando as piores condições climáticas possíveis, cavando sem parar e se levantando sujo depois que uma viga de madeira cai em suas costas, Daniel Plainview revela-se alguém de espírito incansável, que confia naquilo que é feito com as próprias mãos.

A película acompanha sua jornada ao longo dos anos, suas conquistas e o relacionamento conturbado com o pastor evangélico Eli Sunday, que exerce uma enorme influência em seus seguidores, além da relação com o seu filho, a única coisa que ele ama no mundo além do ouro negro.

A força do filme está na complexidade de seu personagem principal, alguém que ao longo dos anos consumiu um intenso ódio pela raça humana, sempre amargo e desconfiado, usando a fé para manipular seus trabalhadores e proprietários de terras que ele precise usar.

O cineasta Paul Thomas Anderson cria um embate interessante entre o material e o espiritual, tratando as instâncias referidas como se as mesmas se repelissem enquanto se completassem, afinal não há um sem o outro.

Daniel é um empresário inteligente e sua retórica causa grande impacto nas pessoas, mas não sabe o que fazer com o dinheiro que ganha, assim como o magnata interpretado por Orson Welles em “Cidadão Kane”. A cena em que ele é encontrado dormindo numa pista de boliche em sua casa revela bem essa solidão. A diferença aqui é que ele sempre foi solitário, tendo conquistado uma repulsa pelo convívio social que só fez crescer com o tempo.

O pastor, por outro lado preza a soberania do espírito sobre a carne, mas não suporta a idéia de ter sido monetariamente ludibriado pelo empreendedor, usando de sua posição para impor favores ao mesmo e escondendo sua ganância nos interesses de sua paróquia.

O diretor sempre foi genial em suas montagens e algumas seqüências são antológicas, combinando a beleza plástica das imagens com o impacto significativo das mesmas, tomando como exemplo a expressão do personagem principal frente a um de seus poços em chamas.

No que se refere ao elenco mais uma vez temos o desempenho memorável de Daniel Day-Lewis, que empresta um tom de voz grave que ilustra a mágoa interna do protagonista e o jovem Paul Dano interpretando alguém que luta para se convencer pela soberania da alma sobre os bens materiais.

Esta interessante película gera uma curiosa reflexão sobre prioridades, pois necessitamos de saciar o corpo e o espírito, cada qual com suas demandas e princípios.

Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.