quinta-feira, 5 de março de 2015

Uma verdade inconveniente

O seguinte documentário comenta um problema importantíssimo que grande parte da população parece ignorar ou trata com indiferença: o aquecimento global.
            A estrutura da narrativa se desenvolve a partir de uma das inúmeras palestras que o senador Al Gore vem dando através do planeta, com o objetivo de chamar a atenção para este grave problema.
            Utilizando gráficos, vídeos e fotos, a apresentação é bastante didática e assusta até mesmo aqueles que acreditam estar cientes da gravidade da situação, já que os dados são alarmantes.
            O início é bem idílico, lembrando-nos de uma época mais simples, onde tínhamos um maior contato com o meio ambiente, o deslumbramento diante da primeira foto da Terra vista da lua e como a raça humana começou a criar consciência em relação à conservação da vida no planeta.
            O documentário ilustra como nossa atmosfera é vulnerável e são inacreditáveis os efeitos da poluição cotidiana em tão pouco tempo. O padrão de aquecimento nos últimos anos é incrivelmente alto e as conseqüências já são bastante visíveis. Uma das mais graves que aconteceu recentemente é o furacão Katrina, que devastou grande parte de New Orleans.
            A palestra também aponta para a velocidade do derretimento das calotas polares e da Groenlândia, bem como seus possíveis efeitos. O mais impressionante deles é o provável aumento do nível do mar em seis metros, alagando diversas áreas litorâneas.
            O filme também analisa o impacto das novas tecnologias, especialmente a bélica, no ecossistema, reforçando o fato de que no contexto pós-moderno há um descaso maior em relação a uma perspectiva em longo prazo.
            A fauna é visivelmente abalada em função de tamanhas mudanças: algumas espécies perecem enquanto outras nocivas que estavam praticamente erradicadas retornam fortalecidas, destruindo florestas e espalhando doenças.
            É interessante entender todas as possíveis ramificações do problema, já que afetam o balanço do meio ambiente como um todo e não somente uma parte dele. Algumas regiões estão sendo inundadas ao lado de áreas que enfrentam secas terríveis, já que a umidade do solo está sendo sugada.
            O documentário também rende críticas ao governo americano, que mesmo sendo um dos maiores contribuintes para o quadro geral de poluição da atmosfera, não se esforça para realizar mudanças em larga escala, tais como se comprometer a reduzir a emissão de gás carbônico através do Protocolo de Kyoto e buscar uma fonte de energia alternativa. Além disso, alguns cientistas americanos são perseguidos, perdem seus empregos tentando conscientizar a população. Algumas declarações vistas no filme mostram a ignorância da maioria dos políticos frente ao problema ao lado da frustração de Al Gore em tentar reverter essa situação.
            “Uma verdade inconveniente” é importante para sensibilizar a população a respeito de uma crise que já está acontecendo e que pode ser revertida, se cada um fizer a sua parte, pois não podemos nos dar o luxo de esperar acontecer.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.
Abaixo segue o link para ver o documentário na íntegra:


A vida marinha com Steve Zissou

O oceano é sempre fascinante, bem como as histórias que o tem como cenário. O filme em questão é mais uma confirmação dessa premissa. Seu protagonista é um célebre biólogo/documentarista passando por uma fase de decadência que organiza uma expedição para matar um misterioso tubarão que devorou seu melhor amigo (e membro da equipe) na costa oeste da África.
Enquanto organiza a viagem acaba conhecendo Ned Plimpton, um homem que pode ser seu filho e termina convidando o mesmo para fazer parte do grupo, despertando ciúmes em Klaus, um antigo parceiro de Steve  que o sempre considerou como pai.
Um outro agravante é a chegada de Jane Winslett-Richardson, uma jornalista da revista Oceanographic Explorer (o layout é idêntico ao da National Geographic) que está à bordo para escrever uma matéria sobre o famoso biólogo e que atrai o interesse do recém-chegado, bem como o de Zissou.
Numa clara referência ao famoso pesquisador marinho Jacques-Yves Cousteau (a película é dedicada à ele e sua fundação), que pode ser notada nos gorros vermelhos usados por toda a tripulação do barco Belafonte, as imagens do documentário são intercaladas com as cenas cotidianas na embarcação, o que é um exercício interessante de estilo.
A equipe de Zissou é notável por sua diversidade étnica, onde todos são indispensáveis e funcionam como uma engrenagem no processo. È bacana notar como o biólogo trata seus séqüitos, sempre criando apelidos carinhosos e fazendo questão que todos participem de sua empreitada, ao contrário de seu “rival”, o capitão Henessey, que trata com distância seus empregados.
 Dirigido por Wes Anderson, a projeção é interessante por procurar dar um enfoque a todos os tripulantes do barco, ao invés de se concentrar em apenas um deles.Além disso, todas sub-tramas são bem desenvolvidas, enriquecendo a narrativa.
O universo marinho é mostrado de forma idílica, onde aparecem fantásticas criaturas marinhas criadas a partir da imaginação do cineasta, tais como o lindo cavalo-marinho crayon. Além da fotografia exemplar, a trilha sonora é excelente, com Seu Jorge cantando músicas do David Bowie em português (sei que o conceito é estranho, mas o resultado é ótimo)
Muitas vezes ficamos pensando tanto nas metas que acabamos não prestando atenção no caminho percorrido. O final acabará surpreendendo de qualquer forma. Zissou está sempre pensando em se aposentar porque acredita que está muito velho e seus dias estão terminando, mas depois percebe que não pode simplesmente fechar seu espírito e esperar a morte.
O elenco dispensa comentários. Todos estão perfeitos. Destaque para mais uma excelente performance de Bill Murray, que constrói um Zissou deprimido mas profundamente apaixonado pelo seu trabalho e Willem Dafoe, que interpreta Klaus como alguém cuja fidelidade à Steve é inquestionável, mesmo quando suas idéias soam egoístas e suicidas.
Uma película formidável que traz a mesma mensagem do romance Moby Dick, de Hermam Mellville: o oceano é magistral e titânico, sendo o homem ridículo perante ele.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.





Adaptação


O roteirista Charlie Kaufman é famoso por suas histórias originais e criativas. Autor de “Quero ser John Malkovich”,”Natureza quase humana” e “Brilho Eterno de uma mente sem lembranças”, sua perspectiva existencial é sempre inovadora e com esse filme não poderia ser diferente (ainda mais em parceria com o diretor Spike Jonze, com quem tem uma relação de amizade e sincronia ideológica).
A película em questão mostra a trajetória do próprio Kaufman lutando para adaptar o livro “O ladrão de orquídeas”, sobre um biólogo que rouba uma planta rara de um pântano da Flórida com a ajuda de um grupo de índios seminoles e o desenvolvimento do referido caso. A obra é um conjunto de digressões sobre a flor em questão, expedições do passado em busca do espécime que falharam e apontamentos existenciais sobre paixão e a posição do ser humano dentro do nosso complexo ecossistema.
Tímido, deprimido e sempre buscando retratar com fidelidade a essência do texto, o autor entra em crise, buscando várias formas de apresentar o conteúdo do mesmo usando a linguagem cinematográfica. Por fim, desesperado, usa sua tragédia pessoal como palco para que a história tenha um suporte.
O filme ilustra com genialidade os entraves do processo criativo, a dificuldade para elaborar algo diferente e interessante, bem como as implicações que a acompanham, sendo solidão a maior delas.
Charlie tem extrema dificuldade de se relacionar com outras pessoas, enquanto o irmão gêmeo Donald é “sua versão socialmente aceitável”: extrovertido, brincalhão e cujos roteiros seguem ao pé da letra a cartilha do cinema comercial americano.
Nesse ponto gostaria de destacar a atuação ímpar de Nicolas Cage,que constrói duas personagens fisicamente idênticas com personalidades completamente diferentes, dialogando e discutindo entre si.
A projeção faz também uma crítica bem ácida à Hollywood, não só através de Donald, mas do professor de roteiros (que dá seminários com fórmulas e receitas para escrever bem e fazer sucesso no mercado) e do agente de Kaufman, que só pensa em sexo com suas funcionárias enquanto o roteirista tenta discutir seu processo criativo com ele.
“Adaptação” também dá uma alfinetada nos jornalistas pedantes e pseudo-intelectuais da revista “The New Yorker”, numa seqüência que mostra os mesmos tomando vinho durante um jantar numa cobertura em Nova York e zombando do biólogo que roubou as orquídeas, como se ele fosse um capiau sujo e iletrado.
Vale apontar também que os dois acidentes automobilísticos que acontecem durante a projeção são retratados com uma crueza espetacular.
O título do filme é interessante, pois não se trata apenas de uma mudança de linguagem, mas de uma adequação social, uma luta para ser fiel a si mesmo quando seguir um modelo pré-concebido (social e cinematográfico) é bem mais cômodo e lucrativo, tanto no sentido monetário quanto emocional.
O desfecho termina por se render à cartilha comercial, o que torna o filme tão auto-destrutivo quanto seu roteirista. Daí sua genialidade.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.