quinta-feira, 2 de abril de 2015

O cavaleiro do telhado e a dama das sombras


O século XIX foi extremamente conturbado na Europa, marcado por instabilidade política, social e salutar. No chamado Congresso de Viena, em 1815, fora decidida a reestruturação política do continente, que acabara de libertar-se da ocupação pelas tropas napoleônicas da França.
É nesse contexto que está inserida a história do filme em questão, que acompanha a trajetória de Angelo Pardi, um coronel italiano exilado na França, pois o seu país de origem fora ocupado pelos austríacos.
Mesmo habitando em outra nação ele continuou sendo acossado, tendo em vista sua alta patente e poder de liderança, além de um nacionalismo fervoroso e inabalável, disposto a oferecer a própria vida pela independência de sua terra natal.
Enquanto escapa de seus perseguidores e vai ao encontro de seus compatriotas degredados na região, encontra uma terra assolada por uma epidemia de cólera asiática que já havia exterminado grande parte da população e continuava a fazer vítimas num ritmo assustador.
A referida doença criou um painel comportamental que é bastante explorado na película, caracterizado por uma áurea de paranóia, ignorância, desconfiança e medo, bem semelhante àquela gerada pela peste negra durante o século XIV, que dizimou milhares de pessoas naquela mesma área.
Nessa conturbada conjuntura o protagonista encontra Pauline de Théus, uma solitária marquesa que aguardava em sua casa o retorno de seu marido há muito tempo desaparecido.
Quando é informado de que ela finalmente irá procurá-lo, o altruísta soldado resolve então adiar os planos de retorno ao seu país de origem (onde entregaria o dinheiro acumulado pelos companheiros proscritos a fim de ajudar aqueles que resistiam ao invasor) para escoltar a amável donzela até que ela encontre o seu cônjuge.
Os sucessivos encontros levam uma gradativa e intensa relação de afinidade. Ela fica impressionada com a sua polidez e determinação em ajudar a todos os necessitados, além de um espírito incansável e apaixonado.
O rapaz, embora visivelmente encantado pela beleza de sua acompanhante, insiste em manter a distância conveniente, estabelecendo a mesma relação de respeito e admiração que um cavaleiro medieval teria com uma dama da corte.
O cineasta Jean-Paul Rappeneau é eficiente ao inserir um romance platônico dentro de uma narrativa dinâmica e envolvente marcada por um contexto histórico interessante e poucas vezes abordado.
A fotografia é brilhantemente explorada realçando o impacto dos elementos de cena, pois o exímio cavaleiro se utiliza de vários objetos que estão a seu alcance para bolar suas estratégias de luta ou fuga.
Outra menção importante é a constante aparição dos corvos como referência ao clima mórbido que assombrava a todos e funciona como um importante exemplo desta técnica.
No tangente ao elenco a menção óbvia vai para o trabalho sempre impecável de Juliette Binoche, interpretando uma mulher que gradativamente cede ao pessimismo e agonia que era tão pertinente durante aquele período. Olivier Martinez também executa uma brilhante interpretação como o cavaleiro do título, impassível e cordial, que possui uma relação de carinho muito intensa com a mãe e com sua terra pátria. Chamo atenção ainda para a interessante aparição de Gérard Depardieu, que consegue marcar presença, mesmo em uma rápida seqüência.
Uma projeção que reúne elementos de histórias de cavalaria num importante contexto histórico através de uma narrativa dinâmica e interessante, retratando de forma lírica a paixão por um ideal que move o espírito inabalável que o acompanha.

Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.