quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Reflexões acerca do sofrimento da alma

Por Felício Brandi*
 Existe em mim uma força cega...
 Tentei negá-la, mas ela se afirmou.
 Ao tentar matá-la, ressuscitou.
 Somente então compreendi que deveria transmutá-la.
 Sendo cega, precisava de um guia e este pairava sobre mim:
 Era o Espírito, o melhor amigo de minh’alma e que dentro de minha ignorância,
 desconhecia.

 I – A perda da paz de espírito leva-nos à perda da harmonia.Paz de espírito é a paz proporcionada pelo Espírito. Aquele que a possui vive na quietude, em perfeita harmonia. Ele é o extraordinário se manifestando em um mundo ordinário. Sabe que suas experiências místicas não podem ser expressas através da linguagem e que elas não tem valor para o mundo. Faltando-lhe palavras, opta pelo silêncio...

 II – A perda da harmonia deixa-nos suscetíveis à inquietação.O inquieto perdeu a quietude e com ela a dádiva do contentamento. A harmonia assemelha-se a uma jóia cujo valor é desprezado por muitos e que somente é estimada por aquele que a possui. Por não ser valorizada, não nos será roubada. Podemos apenas perdê-la... 

 III – A inquietação deixa-nos suscetíveis aos receios. O sábio percebe o perigo das sutis alterações em seu reino (sua mente). Sabe que uma leve inquietação poderá impedi-lo de meditar. Um pequeno receio é para ele uma clara evidência de que devido a sua falta de vigilância sua preciosa jóia infelizmente se perdeu.Todavia, sabe que para reencontra-la basta-lhe apenas relembrar onde e quando exatamente se descuidou a ponto de perdê-la.

IV – Os receios podem se transformar em medos.Ao sábio não é permitido ter medo. A sinfonia tem um maestro. O mundo tem um regente. O destino se manifesta e o sábio se adapta. Nada teme quem está nos braços do Pai. Nada teme quem guarda com cuidado sua jóia. 

 V – O medo potencializado transforma-se em pavor.O porvir nos apavora devido ao fato de ainda não termos percebido o maestro oculto. O fato de não o percebermos não caracteriza sua inexistência, apenas nossa incompetência. Pavor é o sentimento que se instala após passarmos um período tão longo sem a nossa jóia que não nos lembramos mais quando e onde exatamente a perdemos.

 VI – O pavor gera a angústia.A angústia nos paralisa e nos faz duvidar de nossas ações. Queremos e precisamos agir, porém não vislumbramos saídas. Diferentemente do desespero que nos leva a agir de forma impulsiva, a angústia impede nossas ações mais simples e nos faz duvidar de nosso próprio discernimento. 

 VII – A angústia pode se transformar em melancolia. O melancólico vive desgostoso, tudo lhe parece cinza e insípido. Falta-lhe a alegria serena proporcionada pela harmonia. O melancólico é a imagem da tristeza. A tristeza o retrato da dor. O hedonismo não é a cura para a melancolia. A tristeza não se esvai com o entorpecimento dos sentidos.

 VIII – A melancolia pode evoluir para uma depressão nervosa. A depressão rouba-nos nossa esperança, energia e futuro. A paz foi perdida e não vislumbramos saída.

 IX – A depressão pode nos levar a mergulhar na derrelição.Derrelição é a perda da fé e da esperança. O indivíduo sente-se entregue à própria sorte, totalmente só e abandonado.

 X – A derrelição pode nos levar ao desespero e, este, ao suicídio.  Talvez o suicídio seja uma decorrência da ação concomitante dos três “D”: depressão, derrelição e desespero. Desespero é o não querer esperar. A perda da esperança, do discernimento e do bom uso da razão. O meio mais eficaz de agir de forma equivocada e desastrosa. O desesperado não espera o fluir do destino, age impulsivamente sem aguardar o advento da graça. Um problema aparentemente sem solução pode ser resolvido. Se o suicida conseguisse esperar um pouco mais talvez percebesse que o tormento que o afligia não era tão grande quanto intuía: não há mal que eternamente perdure e nem dor que o tempo não cure.

O suicídio enquanto veleidade já é um forte indício de que estamos em desarmonia. Todavia, a partir do momento em que criamos racionalizações para justificar desejos suicidas, entramos em um terreno perigoso e precisamos urgentemente restabelecer a harmonia antes de perdemos em definitivo nosso discernimento e agirmos de forma impulsiva movidos pelo desespero. O sábio, todavia, vive de forma abnegada e altruísta, em completa beatitude. Abraça a ascese e a vida contemplativa. Delibera antes de cada ato, analisa os motivos e refreia tendências que poderão se transformar em maus hábitos. Ele flui como água e aceita seu destino de forma equânime, sem euforia diante do vislumbramento de uma situação favorável e impassível diante da dor que poderá lhe advir. Supera os obstáculos da vida sendo forte e flexível. Crê na inconstância do prazer e da dor, esperando pacientemente pelo socorro divino. Sabe que o Pai não  privilegia ninguém, porém, nunca deixa de zelar pelo filho de bom coração.

*BRANDI, Felício. O Caminho da Integração. Porto Alegre: Buqui, 2015.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Vikings



O jornalista Walter Lippmann afirmou certa vez que "A genialidade de um bom líder é deixar para trás uma situação com a qual o senso comum, sem a graça da genialidade, consegue lidar de forma bem sucedida." Ele consegue o respeito e admiração de seus seguidores porque estes percebem que estão sendo direcionados para algo grandioso e diferente.
A idéia de engrandecimento não só material como também espiritual é um poderoso motivador para aqueles que buscam enriquecer e ganhar as graças dos deuses que idolatram durante este processo.
A série criada por Michael Hirst para o canal History Channel é baseada na trajetória do lendário rei nórdico Ragnar Lothbrock, pioneiro em navegações para o oeste, quando todos pensavam que não havia nada além de oceano e eventualmente o fim do mundo.
O protagonista é mostrado a princípio como um simples fazendeiro, vivendo na Escandinávia com sua mulher Lagertha e os dois filhos. Com a ajuda do amigo visionário Floki eles constroem uma nova geração de barcos mais rápidos e elegantes. Além disso, seu grande sonho é navegar para o ocidente e descobrir novas terras, embora o líder de seu grupo tenha proibido tal façanha.
Eventualmente ele chega na Inglaterra e a primeira visão do seu bando é um mosteiro que é imediatamente saqueado. Ragnar percebe que um dos frades fala a sua língua e o transforma em seu “escravo” pessoal. A partir desse momento cria-se um interessante diálogo entre duas culturas diametralmente opostas e enriquecendo assim consideravelmente a narrativa.
Vale mencionar a desmistificação de uma civilização que geralmente é retratada como grosseira e semi-animalesca.Os Vikings são aqui mostrados como hedonistas que tinham um profundo respeito por seus deuses e faziam de tudo para agradá-los, especialmente morrer em batalha, considerada a glória máxima para alcançar o Valhalla, a versão deles do Paraíso.
Esse contraste entre as duas formas de misticismo, a católica e a nórdica, cria um interessante debate entre o guerreiro e o sacerdote, já que ambos são homens de profunda fé que desejam demonstrar a superioridade do dogma ao qual devotaram toda a sua existência.
Interessante comentar também o curioso relacionamento de Ragnar com o seu irmão Rollo, que oscila entre a lealdade fraterna e uma profunda inveja que faz com que ele o traia sempre que surge uma oportunidade.
O seriado é eficiente ao revelar de maneira bastante sutil a superioridade do protagonista sobre os seus companheiros. Além de engenhoso, carismático e um ótimo espadachim ele sempre busca ser humilde e justo, demonstrando ser um verdadeiro líder e servindo de contraponto para o chefe da comunidade que não atende a algumas dessas características.
A colisão de dois mundos tão estranhos e ao mesmo tempo tão similares entre si traduzem nossas verdades mais íntimas. O sangue ganha uma conotação quase santa, como se sacralizasse o campo de batalha, abençoando a entrega dos oponentes a um poder maior que os redime e purifica.
Atualmente está disponível no Netflix.  
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.
Contato por e-mail: gilson.salomao@gmail.com

terça-feira, 1 de setembro de 2015

The Office


O escritório de trabalho é um local interessante para se estudar a natureza humana, pois trata-se de um ambiente onde as pessoas ficam relativamente confinadas juntas e não necessariamente se combinam,mesmo precisando desempenhar uma tarefa em conjunto. Os colegas de serviço acabam sendo presenças mais constantes do que a própria família ou amigos, criando uma ligação que pode evoluir para romances, amizades ou o oposto.
            Foi refletindo sobre este recinto que os comediantes britânicos Ricky Gervais e Stephen Merchant criaram para a BBC a série humorística The Office, que basicamente simula um documentário sobre o cotidiano na filial de uma empresa de papéis em uma pequena cidade na Inglaterra. Infelizmente ela durou apenas duas temporadas, pois os criadores decidiram “que não havia mais nada a ser acrescentado”, encerrando com um especial de Natal que funcionou como um epílogo para a história.
            O sucesso internacional foi tão grande que acabou gerando várias versões em diversos países, dentre elas uma americana pela NBC, cujo elenco era encabeçado pelo versátil Steve Carell interpretando o imprevisível e divertido Michael Scott, gerente regional da empresa Dundler Mifflin.
            Além do chefe “sem noção” (interpretado por Gervais na versão original), outros personagens foram mantidos como o vendedor desmotivado que é apaixonado pela recepcionista (sendo esta já comprometida com outra pessoa) e o bajulador que deseja tomar o lugar de seu patrão um dia.
            O grande mérito da versão americana foi não fazer uma cópia bonitinha, mas pegar a idéia da versão inglesa e expandi-la. Desta forma, além da filial na pequena cidade de Scranton (onde estão os protagonistas), temos o seu relacionamento com a matriz em Nova York e as outras sedes em diferentes cidades dos Estados Unidos, ampliando a dimensão da firma e possibilitando uma maior variedade de histórias.
            Assim como na questão geográfica, o perfil dos personagens pode ser melhor desenvolvido, especialmente o de Michael Scott e seu fiel aliado Dwight Schrute. As cenas envolvendo essa dupla são sempre o ponto alto dos episódios porque proporcionam a combinação de dois níveis de insanidade completamente diferentes.
Steve Carell interpretou sem sombra de dúvida um dos personagens mais brilhantes e complexos de sua carreira, conferindo ao gerente regional diferentes camadas de personalidade e surpreendendo o público sempre. Em alguns momentos é completamente mesquinho, vaidoso e egoísta, para depois se redimir revelando completamente o oposto. Esse aspecto agridoce já era comum na versão britânica.
Outro grande diferencial da leitura americana foi a evolução dos personagens secundários que acabaram gerando momentos antológicos ao longo das temporadas. Cada um tem o seu momento e essa sincronia permite vislumbrar o escritório como um todo orgânico, transformando o espectador num observador onisciente, que consegue até imaginar como será a reação dos funcionários a certos eventos.
A linguagem em estilo documentário já utilizada na versão original envolve o público na história e permite uma visão mais elaborada do que estamos assistindo, pois temos o acontecimento e os comentários dos envolvidos a respeito do mesmo, numa espécie de reality show fictício.
A série está terminou em sua nona temporada, mas o fato é que infelizmente a sua qualidade caiu um pouco com a saída de Steve Carell na sétima, já que ele era o mestre de cerimônias do espetáculo. Uma visão comovente e distorcida de um grupo de colegas de trabalho que não está tão distante de nossa realidade, o que a torna ainda mais atraente e divertida.
 Recomendo com força!!!
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.
Contato por e-mail: gilson.salomao@gmail.com