domingo, 27 de dezembro de 2015

Quando as desimportâncias choram...


O mundo se despediu de mais um de seus grandes artistas no dia 13 de novembro de 2014. Dono de uma sensibilidade bastante peculiar, Manoel de Barros deixa uma lacuna na Literatura Brasileira que dificilmente será preenchida. Louvava as coisas pequenas, a riqueza escondida nos detalhes quase imperceptíveis, onde a vida reluz com mais força.
Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu em Cuiabá (MT) no Beco da Marinha, beira do Rio Cuiabá, em 19 de dezembro de 1916, filho de João Venceslau Barros, capataz com influência naquela região. Mudou-se para Corumbá (MS), onde se fixou de tal forma que chegou a ser considerado corumbaense. Depois mudou-se para  Campo Grande (MS), onde vivia como advogado,fazendeiro e poeta.
Tinha um ano de idade quando o pai decidiu fundar fazenda com a família no Pantanal: construir rancho, cercar terras, amansar gado selvagem. Nequinho, como era chamado carinhosamente pelos familiares, cresceu brincando no terreiro em frente à casa, pé no chão, entre os currais e as coisas "desimportantes" que marcariam sua obra para sempre: "Ali o que eu tinha era ver os movimentos, a atrapalhação das formigas, caramujos, lagartixas. Era o apogeu do chão e do pequeno. A quinze metros do arco-íris o sol é cheiroso. E quem pode garantir que não é?” Seu primeiro livro foi publicado no Rio de Janeiro, há mais de sessenta anos, e se chamou Poemas concebidos sem pecado. Foi feito artesanalmente por 20 amigos, numa tiragem de 20 exemplares e mais um, que ficou com ele.
Nos anos 80, Millôr Fernandes começou a mostrar ao público, em suas colunas nas revistas Veja e Isto é e no Jornal do Brasil, a poesia de Manoel de Barros. Outros fizeram o mesmo: Fausto Wolff, Antônio Houaiss, entre eles. Os intelectuais iniciaram, através de tanta recomendação, o conhecimento dos poemas que a Editora Civilização Brasileira publicou, em quase a sua totalidade, sob o título de Gramática expositiva do chão.
Hoje o poeta é reconhecido nacional e internacionalmente como um dos mais originais do século e mais importantes do Brasil. Guimarães Rosa, que fez a maior revolução na prosa brasileira, comparou os textos de Manoel a um "doce de coco". Foi também comparado a São Francisco de Assis pelo filólogo Antonio Houaiss: Sob a aparência surrealista, a poesia de Manoel de Barros é de uma enorme racionalidade. Suas visões, oníricas num primeiro instante, logo se revelam muito reais, sem fugir a um substrato ético muito profundo. Tenho por sua obra a mais alta admiração e muito amor.
Manoel, o tímido Nequinho, se dizia encabulado com os elogios que "agradavam seu coração". Ele afirmava que seu processo de criação assemelhava-se “ao de quem lava roupa no tanque dando porrada nas palavras”. Anotava tudo.  Não tinha método nem métodos. Os relevos do insignificante.  A solidão de Vivaldi
O poeta foi agraciado com o “Prêmio Orlando Dantas” em 1960, conferido pela Academia Brasileira de Letras ao livro “Compêndio para uso dos pássaros”. Em 1969 recebeu o Prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal pela obra “Gramática expositiva do chão” e, em 1997, o "Livro sobre nada” recebeu o Prêmio Nestlé, de âmbito nacional. Em 1998, recebeu o Prêmio Cecília Meireles (literatura/poesia), concedido pelo Ministério da Cultura.
As obras deste grande poeta abrangem desde o mistério do infinito das coisas e objetos aparentemente banais até o espantoso universo das relações humanas e do homem com o meio ambiente.
Essa imersão mística no infinito da Natureza equivale a penetrar na própria interioridade, alcançar a consciência da liberdade e atingir o sentimento íntimo da vida, com o qual o homem teria consciência de sua unidade com os semelhantes e com a universalidade dos seres.
Em uma entrevista ao jornal O Estado de São Paulo em 1990, ele comentou toda a sua desilusão com as tendências que nos permeiam: No grande futuro, não sei o que seja, acho que o homem vai pedir pelo amor de Deus para conhecer uma árvore, um passarinho, um cavalo. Tenho medo que a ciência acabe com os cavalos, com a luz natural, com as fontes do ser. Aquela liberdade que o homem tem de se sentir livre para o silêncio das árvores não vai ter mais. O idioma não vai servir mais para celebrar. O ser não vai mais comungar com as coisas. A imaginação não vai mais desabrochar, porque os nossos desejos e fantasias serão realizados. O mundo vai ter outro cheiro. Salvo não seja.
Um homem que deixa de legado uma sensibilização para a riqueza inscrita no tempo para buscar a desaceleração dos referenciais tanto existenciais quanto imagéticos, rever e analisar diretrizes e prioridades. Chave para que o ser humano se redescubra em sua jornada pessoal rumo à magnitude da própria insignificância.
Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade.

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